Mato Grosso apunhalado – artigo de José Antônio Lemos

Antes que alguns levem a conversa para esse lado, adianto que não sou contra a Ferrovia da Integração do Centro-Oeste – FICO; sou contra terem amputado a Ferronorte em Rondonópolis para fazê-la. Não sou contra a ferrovia chegar a Lucas do Rio Verde, muito pelo contrário, como brasileiro e mato-grossense, desejo que chegue lá o mais rápido possível, aliás, por isso mesmo protesto contra a paralisação da Ferronorte em Rondonópolis, a 560 Km de Lucas, trocados pelos 1200 Km da FICO. Também não sou contra o agronegócio, muito pelo contrário, poucos têm escrito mais do que eu cantando e decantando seu sucesso. Muito menos sou contra o Programa de Investimentos em Logística (PIL) da presidenta Dilma, apenas questiono com veemência não contemplar os 200 Km da ligação ferroviária de Rondonópolis a Cuiabá e mais os 360 Km de Cuiabá a Lucas do Rio Verde. Mato Grosso tem desenvolvimento mais que suficiente para receber a Ferronorte e a FICO juntas, e a cada ano que passa tem muito mais. Só o superávit comercial que legou ao Brasil no primeiro semestre deste ano – US$ 6,0 bilhões! – daria para construir as duas ferrovias, duas vezes!

O super pacote logístico lançado na semana passada reflete a audácia, coragem e visão de estadista da presidenta Dilma, qualidades que o Brasil tanto carece nestes tempos globalizados e competitivos. Contudo, quem tem coragem e competência para lançar um pacote destinado a revolucionar o Brasil pelo desenvolvimento, sabe que nada neste mundo é perfeito e ainda mais um plano nessas dimensões onde reajustes são previsíveis e normais. A retomada do projeto da Ferronorte a partir de Rondonópolis, em articulação com a FICO, seria um dos mais urgentes ajustes no PIL. Do jeito que está soa como uma punição ao cidadão mato-grossense, inclusive do norte, a troca de uma ferrovia de 560 km, em ambiente antropizado, sem araguaias ou xingús a serem transpostos, por uma outra de 1.200 Km, com o dobro da distância e desafios ambientais e antropológicos desconhecidos, em uma pré-Amazônia ainda quase virgem. Hoje o meio ambiente está sofrendo, a produção é desperdiçada pelos caminhos, os fretes disparam e, pior, as pessoas estão morrendo nas BR’s, e por isso Mato Grosso clama e reclama urgente solução logística para o estado. Em Mato Grosso, tempo é dinheiro, mas também perdas ambientais e de vidas.

Mato Grosso é um dos estados que vêm dando mais certo no Brasil, hoje disparado maior produtor nacional de grãos e gado e um dos maiores no mundo, ensinando que sua dimensão territorial é uma de suas forças, no tamanho exato para uma administração otimizada nestes tempos de avião a jato, asfalto, comunicações via satélite e internet. Hoje Mato Grosso é um dos poucos estados da federação capaz de bancar sua infra-estrutura mínima de subsistência sobrando ainda um excedente produtivo para investir na qualificação e ampliação de seu desenvolvimento. Este excedente desperta a cobiça de grupos estaduais minoritários mas poderosos que conseguiram contaminar o PIL com suas políticas de dominação e não do bem comum. A FICO sem a Ferronorte é uma punhalada pelas costas em Mato Grosso, um campeão, com claras intenções de dividi-lo, deslocando suas centralidades regionais para Rondonópolis e Lucas, em detrimento de Cuiabá, Várzea Grande e Sinop, criando dois estados insustentáveis, de novo no fim da fila, sem voz e sem vez. Não creio ser esta a intenção da presidenta Dilma nem do agronegócio mato-grossense, espalhado de norte a sul, de leste a oeste do estado e que só quer produzir mais e melhor, com segurança, sustentabilidade e justiça social. Como o Luverdense, o Cuiabá e o Mixto, Mato Grosso torcendo e crescendo junto também no futebol.

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