Médico e músico fincado nas raizes da cultura mato-grossense

Por João Bosquo | Próximo de completar 70 anos – bem vividos – o cantor, médico, compositor, professor aposentado da UFMT, pesquisador-historiador de Chapada dos Guimarães, João Eloy de Souza Neves, está finalizando os detalhes para lançar o seu terceiro DVD, com participação de Sérgio Reis. O lançamento marca os 50 anos de carreira do artista – se registrarmos o seu início como crooner da banda do Exército do antigo 16º BC. Uma carreira marcada pelo amor a terra natal e, sobretudo, à arte regional com um sentimento de dever cumprido.

A música está presente na vida de João Eloy desde a mais tenra infância, quando tocava acordeão, cavaquinho e violão. Aos 18 anos, torna-se cabo do Exército e começa a carreira de cantor na banda comandada pelo sargento Alcino, que tocava pistom, atualmente mais conhecido como trompete. Eloy cantava musicas internacionais em italiano e inglês, facilidade adquirida no internato do Colégio Salesiano. Participava também, como cantor, dos programas de rádio na Rádio Difusora Bom Jesus, com Nardinho Medeiros.

Porém, ele interrompeu essa carreira musical por outro ideal. Chapada dos Guimarães não tinha médico. O Padre Osvaldo – natural da Alemanha – era quem medicava os moradores distribuindo amostras grátis de remédios. Padre franciscano, Osvaldo chegou a Chapada no início da década de 40 do século passado e veio a falecer em 1968. Nessas quase três décadas, realizou inúmeros trabalhos e iniciou a construção do hospital local.

Voltemos a João Eloy: diante dessa carência, vai para Ribeirão Preto (SP) estudar o Científico, correspondente hoje ao ensino médio, preparatório para o vestibular. Passou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense, então Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFERJ), em Niterói.

A música continuou presente enquanto estudava medicina. João Eloy diz que esse período foi muito fértil, pois teve contato com os sambistas e conheceu artistas do porte de Ciro Monteiro, Moreira da Silva, o Morengueira. Também começou a compor e participar dos festivais, chegando a vencer o 2º Festival de Petrópolis, que aconteceu no Palácio de Cristal, e foi premiado como segundo melhor interprete, com uma música sua em parceria com Orlando Santa Helena, em Cachoeiro de Itapemirim. Colou grau em dezembro de 1972, fez um ano de especialização na Santa Casa do Rio, em Gastroenterologia, e retornou ás origens para ser o primeiro médico do maior município do Mundo.

Com a bagagem adquirida, João Eloy se choca com o ar de abandono ao chegar em Chapada. “Cheguei e vi toda aquela riqueza adormecida”, diz. Se lembrava das manifestações, do cururu, do siriri, festas de Santo como a que era promovida pelo seu avô Plácido Eloy da Paixão, tocador de sanfona de oito baixos, conhecida como pé-de-bode. O cantor volta à tona aliado ao espírito empresarial: João Eloy inaugura a boate Patucha, acrônimo de Panorama Turístico de Chapada, e forma uma banda na qual era guitarrista e cantor.

No bar do irmão, escreveu os versos “Amanhece a névoa fina/ Vai aos poucos extinguindo/ O sol banhando a neblina/ Mostra a Chapada sorrindo” na tela de um aparelho de TV, antecedendo a chegada da TV Centro América de Antonieta Ries Coelho. João Eloy torna-se um precursor do carnaval, e promove a primeira escolha para rei momo e a primeira rainha do carnaval e, para completar, escreve um livro sobre a história da cidade, fruto de um trabalho de pesquisa no qual resgata a chegada dos freis franciscanos, a construção da Igreja de N. Sra. de Santana, entre outras preciosidades. O livro é lançado na década de 80, enquanto Chapada ainda era o maior município. Esse trabalho todo era para chamar a atenção para a cidade. De Cuiabá a Chapada, antes da Rodovia Emanuel Pinheiro, passava-se por dentro do Córrego Mutuca, não existiam pontes.

Na mesma década, no ano de 1984, acontece o primeiro Festival de Inverno de Chapada dos Guimarães, no qual trabalha junto com o professor Benedito Campos na organização. Convida os cantores em início de carreira, Almir Sater e Tetê Spindola. A atração nacional era Belchior, que nesse festival conheceu o trabalho de João Eloy e o incentivou a gravar um disco. Ele foi o produtor, providenciando estúdio, arranjador, músicos, enfim tudo aquilo que o produtor faz. Era um compacto duplo no qual foi gravado o rasqueado “Rua do Meio”.

Em meio a isso, diferenças políticas o afastaram de Chapada. Veio então o convite da UFMT para integrar o quadro de professores no curso de Medicina que iria ser implantado. Foi para São Paulo, com uma bolsa, para fazer um treinamento técnico pedagógico. Foi para o Rio, onde fez o mestrado e ao retornar, além da tese defendida, trouxe debaixo do braço o primeiro LP, gravado com o incentivo de Ney Matogrosso. Nesse trabalho, João Eloy faz uma homenagem ao rei do baião, Luiz Gonzaga, com a música “Nascido e Criado”, que tornou-se um hit sendo executada, quase que diariamente no Programa do Compadre Crispim.

O rasqueado passou por um processo de redescoberta nos anos 80, com destaque para a casa noturna Panaceia, que se torna referência com apresentações de cantores e duplas como Henrique e Claudinho, Roberto Lucialdo. Seu dono, Balú, investiu na gravação de discos, vindo a público o primeiro LP de Henrique & Claudinho, com produção de Roberto Lucialdo. Ao retornar do mestrado, em 1990, João Eloy se integrou a esse grupo que já contava com Pescuma e Bolinha. O Terraçus era o novo endereço.

Da parceria com Roberto Lucialdo, surgiu o CD “Noite do Rasqueado”, gravado nos estúdios da Banda Terra. Nele está o clássico “Engenho Novo”, um divisor na sua carreira. Joao Eloy chegou a realizar 10 shows por semana em toda a Baixada Cuiabana.

O rasqueado, numa definição simples, é a mistura do siriri e polca paraguaia. Mas, na vida de João Eloy, segundo ele, é a própria vida, pois o ritmo está presente desde o berço. “Vivo, danço, namoro o rasqueado e, posso dizer, é uma música que seduz”. Como testemunha dessa sedução o cantor narra uma experiência vivida em 2001, na Marina da Glória, Rio de Janeiro, quando participou do Encontro da 3ª Idade: sua participação inicialmente estava programada para ser de 15 minutos e depois foi reduzida para apenas três. No tempo combinado, ele cantou “Engenho Novo”, um verdadeiro limpa banco. Foi um arraso. Voltou ao palco e contagiou o público, cantando mais de meia hora.

João Eloy fundou a Associação do Rasqueado Cuiabano, pela qual produziu os CDs de coletâneas como “As Damas do Rasqueados”. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, prestes a entrar para a Academia Mato-grossense de Letras, e com mais um DVD pronto para sair do forno… “Engenho novo estremeceu/ Garapa é meu, bagaço é seu// A canoa virou, tornou revirar/ Dona Maria não soube remar”.

Fonte: Secom/MT

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João Bosquo

João Bosquo, poeta e jornalista, editor deste blogue NAMARRA.COM.BR nas redes sociais: @joaobosquo

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