Milton Hatoum critica especulação imobiliária e dá dicas de como escrever bem durante bienal de Brasília

Alex Rodrigues

O romancista Milton Hatoum criticou a descaracterização urbanística das metrópoles brasileiras durante palestra, deste domingo (15.04), na 1ª Bienal do Livro e da Leitura. “É um crime o que aconteceu com as nossas cidades”, destacou Hatoum, que é arquiteto de formação.

“A Manaus da minha infância já não existe mais. Nem a Brasília que eu conheci em 1968”, disse Hatoum sobre a cidade onde nasceu e sobre aquela para onde se mudou em 1967, quando tinha 15 anos, e onde chegou a ser detido ao participar de uma manifestação contra o governo militar.

“A especulação imobiliária, em conluio com políticos safados, acabou com nossas cidades. Aconteceu com Manaus, com São Paulo, está acontecendo com Brasília e com o Rio de Janeiro, onde você já não vê mais a paisagem. E só vai piorar”, acrescentou o autor, classificando prédios recém-inaugurados ou em construção em Brasília como horríveis, por destoarem da proposta urbanística e arquitetônica modernista pela qual a capital federal foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade.

“Vejam esses hotéis horríveis construídos no setor hoteleiro. É uma cópia de São Paulo, que também já se tornou uma cópia horrível de Miami, da mesma forma que Manaus. Isso não é Brasília. Isso é a antiarquitetura. Quanto a Manaus, não conheço mais minha cidade. Tudo lá está poluído. Cada vez que eu volto, tenho que tomar um antidepressivo”, contou o autor, convidado para falar sobre ficção e memória na literatura.

Hatoum recordou que, na adolescência em Brasília, teve um poema publicado por um importante jornal da cidade. “Foi uma experiência muito bonita. Nessa mesma época eu ganhei meu primeiro prêmio literário, mas quando falei aos meus pais que queria ser escritor, eles tremeram. Ser escritor no Brasil?”, brincou o autor, antecipando a possibilidade de narrar, em seu próximo livro, algumas das experiências “um pouco heterodoxas” que vivenciou quando jovem, na capital federal.

“Imagine o que era um grupo de jovens vivendo em Brasília em 1968. Estávamos enlouquecidos. Tinha ditadura, não se podia estudar direito. Perdemos a conta do número de invasões à Universidade de Brasília [UnB]. Refugiávamo-nos em muitas coisas. Até nas drogas. Não sou político e posso dizer: nós experimentamos tudo e essas experiências talvez sejam narradas.”

Perguntado sobre a receita para escrever bem, Hatoum destacou a necessidade de encontrar seu próprio tom ou voz literária e criar um universo ficcional característico que permeie o conjunto da obra e permita o reconhecimento por parte do leitor. Ele destacou ainda a necessidade de que o aspirante a escritor goste de ler e de escrever. Além de não ter medo das críticas. “A resenha mais venenosa não é capaz de destruir um bom livro”, receitou Hatoum, antes de revelar que só se deu por satisfeito com um de seus maiores sucessos de crítica e público, o romance Dois Irmãos, após reescrevê-lo 19 vezes.

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