Molecagem

O título deste artigo não é dirigido à presidenta Dilma cuja biografia e posse recente não permitem tal injustiça. A ela, todo o respeito e confiança. O título é dedicado a setores de seu governo, ainda em fase de montagem, com muitas peças remanescentes do antigo governo que sempre mostraram má-vontade com Cuiabá e despreparados para o imenso compromisso internacional assumido pelo Brasil que é a Copa do Mundo. Vai também para aqueles que devem representar os interesses de Cuiabá e Mato Grosso em todos os níveis políticos, em especial no federal, que deixaram a situação chegar onde chegou.

Antes minhas críticas viam o assunto apenas – só? – como sérios casos de negligência pública ou de incompetência técnica, ou os dois juntos. O entendimento segue válido para o projeto nacional da Copa 2014, que exige correções urgentes e radicais, as quais já estariam sendo providenciadas pela presidenta, como na Infraero. As últimas declarações de Pelé e Zico reforçam esta certeza. Entretanto, no caso específico de Cuiabá, uma renitente sucessão de fatos negativos mostra que a coisa extrapola o nível da incompetência ou negligência, e vai até as raias da sabotagem contra a cidade, com intenções regionais e nacionais diversas, cuja discussão não cabe aqui.

Os fatos da última semana, porém, foram ao máximo e empurram para nível ainda mais baixo o tratamento que o governo federal vem dando a Cuiabá. No caso do aeroporto, a visita do secretário Vuolo à Infraero encontra um presidente interino louquinho para repassar a construção do aeroporto para o estado, isto é, repassar o abacaxi que eles criaram. E tem mais, o projeto prometido para setembro (já muito atrasado) agora tem previsão para março de 2012, ano em que o aeroporto deveria estar pronto. Mais de ano para um projeto de ampliação em um terreno conhecido, sem necessidade de levantamentos demorados! Só depois a licitação da obra. Com o repasse da obra, além dos prejuízos, Mato Grosso arcaria com a culpa da obra não ter sido concluída a tempo. O aeroporto é de responsabilidade federal, e sempre me pareceu no mínimo inábil ou deselegante com a presidenta o estado propor assumir a obra alegando incompetência da Infraero, afinal, é uma empresa federal, dela. Não me surpreendeu o cancelamento da audiência presidencial com o governador. Cabe sim ao estado cobrar e ajudar na obra, agora só viável em um ritmo de guerra, com turno dobrado de trabalho, sábado e domingo, como aventou o ex-presidente Lula, e a redução dos prazos de contratações dentro do autorizado em lei para casos especiais como este mundial, transformado numa guerra nacional pela Copa, com os prazos se exaurindo cada vez mais rápido.

O lançamento do PAC da Mobilidade foi palco de outra grosseria federal para com os brasileiros de Cuiabá. Será que o Ministério das Cidades não sabe, e sabe, que a cidade de Cuiabá integra uma conurbação com Várzea Grande, com uma população próxima de 1 milhão de habitantes? Como excluí-la de seu maior programa de investimentos urbanos, justo no momento em que os investidores do Brasil e do exterior concluem suas decisões para a Copa? A explicação estadual – que deveria ser federal – é que Cuiabá teria ficado fora da lista por ter se antecipado e contemplada antes. E por que Fortaleza e Salvador que estariam na mesma situação entraram na lista? Mais um desgaste a engolir. Somado ao tratamento dado ao gasoduto, termelétrica, ferrovia, ao “puxadinho urgente” do aeroporto, à duplicação Cuiabá-Rondonópolis e outros, resulta um quadro deplorável, indigno de um país moderno. Triste de constatar, pior de escrever, mas isso é molecagem. Molecagem com Cuiabá, com a presidenta Dilma e com o país.

*José Antônio Lemos dos Santos, arquiteto e urbanista, é professor universitário E-mail: joseantoniols2@gmail.com

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José Antônio Lemos dos Santos

José Antonio Lemos dos Santos, arquiteto e urbanista, é professor universitário. Troféu "João Thimóteo"-1991-IAB/MT/ "Diploma do Mérito IAB 80 Anos"/ Troféu "O Construtor" - Sinduscon MT Ano 2000 / Arquiteto do Ano 2010 pelo CREA-MT.

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