Mr. Gentleman

Tenho me comunicado, há alguns anos, com um senhor britânico. Foi ele que tomou a iniciativa do primeiro contato, a partir de leituras de textos de minha autoria publicados nas redes sociais. Senti-me – por supuesto – muito lisonjeado. Típico dos britânicos, reservado, fala muito pouco sobre si mesmo. Nem sei o seu nome. Ele assina os e-mails simplesmente como “gentleman”. A bem da verdade, tudo que sei é que vive em Londres, é escritor e apaixonado pelo Brasil. Viveu um tempo aqui e por isso fala fluentemente o português. Levando-se em conta sua retórica e referências textuais, eu diria que deve ter em torno de sessenta anos. Quando leio suas mensagens, a imagem que me vem à cabeça é a do ator Kenneth Branagh que, assim como eu, é apaixonado pela obra de Shakespeare.

Ainda que exista a possibilidade de eu estar sendo enganado por algum(a) maluco(a), tenho aprendido muito com Mr. Gentleman (ele achou hilária a alcunha). Talvez a maior lição tenha sido a de ser gentil. Um gentil-homem. Um gentle-man. A gentileza, em suas palavras, é uma das portas de entrada para a bondade neste mundo. Contei-lhe a história do profeta Gentileza (aquele da música da Marisa Monte) e ele ficou encantado.

No início da amizade, não poucas vezes, eu ficava, em certa medida, constrangido pelo tom paternal e professoral. “Diga sempre – sempre – ‘com licença’, ‘por favor’, ‘obrigado’. Não interrompa a fala dos outros. Quando estiver com alguém, dedique-lhe toda sua atenção. Controle o impulso de opinar sobre tudo e, inconcebível que seja, considere muito, mas muito fortemente a possibilidade de você estar enganado. Não se avexe em mudar de ideia”.

Suas palavras, ainda que na tela fria do computador, exalam a doce fragrância do amor fraternal.

Com a morte do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em janeiro deste ano, eu e Mr. Gentleman trocamos ideias sobre a efemeridade e, conforme está posto no subtítulo da obra mais conhecida de Bauman, “Amor Líquido”, a fragilidade dos laços humanos.

É deprimente constatar a acuidade da percepção do psicólogo americano Daniel Goleman, na obra “Foco – a atenção e seu papel fundamental para o sucesso”: “E em cada vez mais partes do mundo a maioria das crianças com menos de dez anos nunca vivenciou uma época em que não houvesse um dispositivo portátil que pudessem sintonizar – para ficar sintonizadas com as pessoas em volta delas”.

Não é coisa de maluco? Precisar de um aparelho para interagir com quem está do lado. E isso não é, obviamente, privilégio de crianças. Nessa toada, as relações humanas vão se tornando mais pobres e sentimentos como empatia e compaixão cada vez mais abstratos. E gentileza só mais outra baboseira de gente melindrosa.

Aqui do meu pedacinho de mundo fico prestando atenção no movimento. E vou tentando compreender a loucura de tudo isso. Apesar da admiração pelo povo brasileiro, Mr. Gentleman confessa – não sem o devido pedido de vênia – que não entende algumas atitudes dos brasileiros, embora admita que aconteçam em qualquer país. Coisas do tipo de não retornar uma ligação, chegar atrasado a um compromisso e/ou cancelar de última hora. Isso quando simplesmente não aparece e nem se justifica depois. São pequenas diferenças de postura que fazem toda a diferença.

Nas redes sociais é que o caldo entorna. Clichê mencionar os comentários de ódio, racismo, homofobia, misoginia e homofobia. Mas há de se lamentar também  visualizar uma mensagem inbox e não responder. Visualizar uma mensagem de whatts e não dar bola. E quando finalmente estamos tête-à-tête com alguém, precisamos aprender a ouvir. A ouvir de fato e não – enquanto o outro fala – já elaborar a réplica (às vezes nem deixando que o locutor conclua o raciocínio).

Mr. Gentleman adora música brasileira e tudo que relaciona à nossa cultura. Segundo ele, o Brasil tem muito a ensinar ao mundo. A cortesia do brasileiro não pode ser uma falácia. A gentileza tem que ser a força motivadora de cada atitude. E quando damos espaço a ela, nossa essência divina resplandece e nos tornamos um canal de consciência para o mundo. E então somos e vivemos no amor.

Gratidão pela leitura.

Post Scriptum.: Texto publicado com a autorização de Mr. Gentleman.

 

 

 

 

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