Na visão de cientistas, limite a área de proteção é atraso

(por Dayanne Sousa) Na briga entre grandes agricultores e ambientalistas, um estudo de cerca de 120 páginas assinado por alguns dos mais prestigiados cientistas brasileiros optou por nenhum dos dois lados. Relator da pesquisa que finalmente posicionou a comunidade científica sobre o Código Florestal, Antonio Donato Nobre resume: estão todos atrasados.

Nobre é pesquisador do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e PhD em Ciências da Terra pela University of New Hampshire. Ele avalia que a lógica da legislação ambiental em debate no Congresso está desatualizada.

– Não tem motivo para divergência. Isso desde que a gente não fique brigando por 30 metros, 15 metros de proteção como estamos. Essa forma não tem ciência. A natureza é orgânica, é variável.

Ele afirma que é possível monitorar – caso a caso – a área que cada fazenda deve manter preservada. Bastaria um programa de visualização por satélite, como o que o Google hoje já disponibiliza a qualquer um.

– Você coloca no Google Earth e vê todas as florestas do Brasil em alta resolução. Você pega uma fazenda e consegue ver lá qual tem que ser a área da APP. E ela é variável, não precisa ser fixa. Se respeitarmos a diversidade da natureza, você pode aumentar a área da agricultura e, ao mesmo tempo, aumentar a área de proteção ambiental. Isso antes parecia uma equação impossível.

O estudo

Nesta segunda-feira, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) apresentou seu estudo com as conclusões finais sobre a reforma do Código Florestal. O debate se arrasta no Congresso. Há quase um ano, o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) apresentou seu relatório propondo mudanças que foram contestadas por ambientalistas.

Uma comissão na Câmara recebeu e debate os pontos principais do trabalho da SBPC. Nobre, ao lado da presidente da entidade, Helena Nader, e de outros acadêmicos, teve reuniões com cinco ministros, incluindo Wagner Rossi (Agricultura), Izabella Teixeira (Meio Ambiente) e Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia). O pedido dos cientistas é para que a lei não engesse os limites de áreas a serem preservadas por agricultores.

– Estão acordando números, mas deixem uma janela aberta. Que seja feito algum termo de flexibilização que permita que a ciência agregue-se para especificar termos, as áreas e os riscos. Essas tecnologias podem iluminar a lei de tal forma que acaba o contencioso – conclui Nobre.

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