Nada a ver, tudo a ver: artigo de José Antônio Lemos

Que a saúde pública no Brasil, em Mato Grosso e em Cuiabá, é uma vergonha, a gente já sabe. Trata-se de uma vergonha absoluta, uma realidade ultrajante em si, independente da construção de estádios, estradas, carnaval ou o que for. É a própria vergonha, cuspida e escarrada na nossa cara 24 horas por dia. Por isso discordo do que disse na semana passada o comentarista esportivo José Trajano, sobre a construção da Arena Multiuso em Cuiabá. Nada a ver. O Brasil é um país rico, Mato Grosso é um de seus estados mais produtivos, e o brasileiro paga ao governo em impostos quase 40% de tudo que produz. Para atender um setor, não precisa deixar de atender outro. Há dinheiro suficiente. Resta saber para onde está indo. Aí a maior das vergonhas nacionais, movida pela ação dos larápios da coisa pública e aproveitadores que pululam nos noticiários locais e nacionais, mantida e fomentada pela omissão cívica dos que consideramos bons cidadãos.

No caso de Mato Grosso basta lembrar que nos 3 primeiros meses deste ano o estado produziu para o Brasil um saldo comercial de 1,7 bilhão de dólares, mais da metade do superávit do país no mesmo período. Daria para construir vários estádios, ferrovias ou grandes hospitais. Mas essa riqueza não retorna a Mato Grosso em benefício de seus habitantes. Para ficar apenas na saúde, o sistema de atendimento público estadual e regional se baseia, há décadas, em um pronto-socorro municipal travestido de hospital. Atende pacientes de Mato Grosso, Rondônia, Acre, nordeste da Bolívia. O único hospital federal existente é um hospital-escola, da UFMT, em instalações precariamente ampliadas de um antigo hospital para tuberculosos dos anos 50. As obras do que seria um hospital central para o estado estão paralisadas desde a década de 80, e hoje são ruínas de uma obra quase pronta que, defasadas, deveriam ser preservadas e transformadas em um monumento nacional, símbolo ao escárnio e ao deboche para com a saúde pública, não só em Mato Grosso, mas no Brasil. Uma vergonha absoluta!

Sou um entusiasta da Copa no Brasil e vibrei muito com a escolha de Cuiabá como uma de suas sedes, justamente porque poderia ser um elemento perturbador nesse conluio crônico com que as coisas públicas são tratadas no país. O Brasil e Cuiabá, com seus pecados e suas virtudes se exporiam subitamente aos olhos do planeta e avaliados segundos padrões internacionais. Sempre tive certeza que o evento da Copa puxaria os outros assuntos que necessariamente se interligam em um evento dessa magnitude. Os jogos de uma Copa não se realizam isolados do contexto em que se localizam e ninguém recebe milhões de turistas internacionais impunemente. Além da mobilidade urbana, no mínimo a Saúde e a Segurança Pública terão que ser equacionados, revolucionando a cidade para a Copa e o tricentenário em 2019.

Assim, me alegra a realização da Copa do Pantanal em Cuiabá. Ela já transformou o estado e a cidade. Hoje discutimos o futuro, projetos e soluções para problemas concretos de nossa cidade e estado. Antes era só politicagem que não levava a nada de positivo, ao contrário, só a mais politicagem e bandalheira. Hoje Cuiabá está sob os olhos do mundo e, quer queiram ou não, será uma das doze vitrines do Brasil. Não fosse a Copa em Cuiabá e a Arena Multiuso, o grande comentarista esportivo não teria percebido que em Cuiabá a saúde pública é um escárnio, escandalizando o Brasil com essa descoberta, como se este não fosse um bem conhecido (e sofrido) drama nacional. Aí sim a Copa e a Saúde têm tudo a ver. Que bom seria se tivéssemos uma Copa para cada cidade brasileira. Expondo as vísceras putrefatas do Brasil ao mundo, antes de tudo a Copa é uma alavanca de esperança. Viva a Copa!

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José Antônio Lemos dos Santos

José Antonio Lemos dos Santos, arquiteto e urbanista, é professor universitário. Troféu "João Thimóteo"-1991-IAB/MT/ "Diploma do Mérito IAB 80 Anos"/ Troféu "O Construtor" - Sinduscon MT Ano 2000 / Arquiteto do Ano 2010 pelo CREA-MT.

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