Não Faça Isso, Querida

Não faça isso, Querida
Eu mudo de rumo, prometo
Não precisa fechar o livro
Por favor, não me esqueça
Meu coração está sem prumo

Não faça isso, Querida
Eu mudo de traçado
Estou quase falido
Mas isso não é motivo
Para me por de escanteio.

Não faça isso, Querida
Eu mudo de compasso.
Esqueça a rodoviária,
O aeroporto, o navio
Fique por perto, Coração.

Não faça isso, Querida
Eu sou mudo, fico quieto
Quero lamber teus lábios
Morder teu pescoço
Arranhar tuas costas.

 Não faça isso, Querida
Estou mudado. Eu mudo
Prometo. Faço arremesso
Ginástica, aeróbica
Mas não me deixe só

Não faça isso, Querida
Enquanto tiver forças
Sinto tesão, sinto calor
Sinto tudo que um homem
Tem de sentir pela mulher

Não faça isso, Querida
O abandono é sem sentido
Sem retorno, sem volta
Mesmo que o mundo
Volte nas voltas que dá

Não faça isso, Querida
Eu mudo de assunto
Esqueço a paixão, o remédio
O curativo, a dor, o ardor
Esqueço de respirar o ar

Não faça isso, Querida
Eu mudo de casa,
Vou para o Paraguai,
Compro uma chalana
E grito todos meus ais

Não faça isso, Querida
Eu mudo de tudo
Que exista um espectro
Resquício de paixão
Não importo, me iludo

Não faça isso, Querida
Não tranque as portas
Escancare as janelas
As luzes querem entrar
E refletir outros sintomas

Não faça isso, Querida
Esqueço os ponteiros
Os quarenta e cinco minutos
Serão para depois
Do segundo tempo

Não faça isso, Querida
O carteiro está esperando
O telegrama ser postado
Colar o selo no envelope
Que esta meu coração

Não faça isso, Querida
Esculhambo tudo e a todos
Costuro um novo sentido
Não levanto mais ao meio-dia
Não arregaço as mangas

Não faça isso, Querida
Eu me mudo, mudança total
Contudo não feche o livro
Por favor, não me esqueça
Meu coração está sem prumo.

 Abril de 1997
Poemas de João Bosquo
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