Niemeyer – artigo (quase poema) de José Antônio Lemos

José Antônio Lemos

Sempre haverá o que falar sobre Niemeyer, apesar do tanto que foi dito e escrito sobre ele e sua obra, em especial nas homenagens por ocasião de seu falecimento na semana passada. Homem pleno, extrapolou as múltiplas dimensões do ser humano. Niemeyer foi muito mais que um arquiteto, ainda que o melhor do mundo no século passado e neste, o “escultor do espaço” para Vinicius de Moraes. Apesar de ser imensa sua arte, como homem foi muito maior que ela. Sempre haverá uma lição a extrair de Niemeyer, de suas obras, de sua vida.

Focando na Arquitetura, das muitas lições de Niemeyer já cantadas e decantadas por todos, resumo algumas que mais profundamente marcam minha formação e o conteúdo de minhas aulas. A primeira vem da sua relação prazerosa com a arquitetura. Para ele o trabalho não era um sacrifício. Tanto que já hospitalizado e às vésperas dos 105 anos que não completaria, teria cobrado dos médicos sua liberação alegando ter trabalho no escritório. Não liberado, ainda assim teria reunido sua equipe no hospital para discutir detalhes de alguns projetos. Embora não se possa dizer até que ponto esta postura seja a causa de sua longevidade, ela é com certeza uma das condições básicas para o sucesso em qualquer área de atividade humana. Aliás, creio que ele enquanto espécie humana tenha aberto um novo limite de longevidade, não só lúcida e produtiva, mas em altíssimo padrão de excelência.

Destacava que Arquitetura é antes de tudo criatividade e audácia. Dizia que podiam gostar ou não de sua obra, mas jamais poderiam dizer ter visto uma igual. Ensinava que, amparado nas bases da lógica estrutural, longe do exibicionismo contemporâneo da arquitetura do espetáculo, o arquiteto haverá que ser sempre audacioso tecnicamente, forçando a expansão dos limites da tecnologia construtiva, sempre em busca daquela beleza arquitetônica útil e necessária, que encanta e faz feliz àqueles que por ela passam, independente de classe social, religião, cor partidária, time favorito ou raça.

Niemeyer percebeu que a maleabilidade do concreto veio nos libertar dos traços e ângulos retos a que nos prendiam as características dos materiais pré-industriais e nos ensinou então com palavras e obras que a forma natural do concreto é a curva. Fazê-la bem são outros quinhentos. Por fim, o Desconstrutivismo demoliu de vez o império do ortogonalismo, abrindo um universo de novas e surpreendentes formas. Mas Niemeyer vai além e sua obra supera o falso dilema forma/função, restaurando a verdade dialética de dois termos de uma relação que se informam mutuamente a partir da finalidade do espaço a ser trabalhado. Aqui ele foi o maior de todos ao conseguir captar as formas sugeridas pelas determinações técno-funcionais de cada projeto, e expressá-las com seu gênio em formas escultóricas inéditas, belas, mágicas, elevando cada uma de suas obras ao nível da poesia e da mais pura arte. Para ele a Beleza também era uma função. E assim, entre suas obras, projetou as mais belas igrejas contemporâneas, mesmo não acreditando em Deus. Mas este é um assunto que a esta altura já deve ter sido resolvido lá em cima com o Chefe.

Na maior das lições, lembrou que o arquiteto é também um cidadão político comprometido com a construção de uma sociedade melhor e mais justa para todos. Bem sucedido na profissão e mesmo já idoso, Niemeyer jamais aceitou o fato da grande maioria da população estar excluída dos avanços e dos benefícios que a humanidade alcançou ao longo da História com o trabalho de todos, em todas as áreas, inclusive na Arquitetura. E resumiu a forma com que encarou o mundo: “o importante é a vida, os amigos, este mundo injusto que devemos modificar”.

*JOSÉ ANTONIO LEMOS DOS SANTOS, arquiteto e urbanista, é professor universitário

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