O buraco – poema de João Bosquo

De quem é este buraco?
Alguém tem que se responsabilizar
Está tomando proporções enormes
e ninguém sabe a extensão exata
onde começa, onde termina
Se é que tem um começo, meio e fim

De quem é este buraco?
Quem é o pai desta coisa?
Que enfeia a rua, o bairro, a cidade
Este buraco deve ter um dono
senão não estaria assim
cada dia maior, mais bonito
e dá até gosto em ver

De quem é este buraco?
Os motoristas de táxi, de ônibus
querem saber quem é o responsável
pela manutenção do buraco

O presidente da associação de moradores
já manteve audiência com o prefeito
foi à câmara de vereadores
pedindo a criação da lei
anistiando o dono do buraco
desde que o leve para casa

De quem é este buraco?
Olhando com um pouco de simpatia
Vê-se que (o buraco) tem alguma razão de ser…
Foram as chuvas, foi o verão
mas logo estaremos no inverno
Será que o buraco fica para a estação?
Será que outro cego vai cair de novo?

De quem é este buraco?
Por favor, ouçam a pergunta
O governador, sabemos, claro,
vai dizer não conhecer o buraco
O carteiro não é capaz
de dar qualquer notícia
A polícia já desistiu
de tentar autuar em flagrante
o autor desse delito

De quem é este buraco?
Alguém tem de fazer alguma coisa
O buraco está saindo da rotina
vazando pelas paredes
O pentacampeonato está sob risco
Não se faz mais gols nos estádios
por conta desse incidente

De quem é este buraco?
Os inquilinos, os condôminos
estão curiosos, querem uma satisfação
uma justificativa, ao menor que seja
As bancadas dos partidos políticos
pensam em um decreto legislativo
declarando o buraco de utilidade pública
Afinal, o buraco é mais em cima
ou mais em baixo?

De quem é este buraco?
Os feirantes já não fazem a feira
os lojistas mandaram para o SPC
contudo, o buraco resiste
Um crítico de arte
se curvou ante o constante buraco:
“É a nova vanguarda”, disse

De quem é este buraco?
A verdade deve ser dita
A cidade não é mais cidade
as ruas não mais existem
as casas edificadas, os prédios
e conjuntos habitacionais inteiros
perderam a personalidade
o caráter físico

Tudo se integrou à paisagem insólita
Agora, apenas o buraco
domina os pontos cardeais
E ninguém é capaz de responder
“De quem é este buraco?”.><>Dizem que recordar é viver… Este poema já tem um tempinho, É da época da gestão Dante/Meirelles… Sendo que último tinha menos culpa, sei lá.

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