O Cavaleiro da Utopia – Artigo de José Antônio Lemos

José Antônio Lemos

Inexorável, todos vamos e ele também se foi. Semana passada perdemos o Coronel Meirelles, um grande homem, um turbilhão de ideias e projetos, polo gerador de perspectivas, animação e juventude, apesar da idade. Para muitos o “pai da BR-163”. Prefiro tê-lo como “o cavaleiro da utopia”, como vi chamá-lo Moisés Martins, não das utopias fantasiosas, mas das utopias edificáveis, a serem construídas, constantemente perseguidas, como a própria 163 ou a democracia brasileira. Sua morte é ocasião para lembrá-lo, não como homenagem, que ele não gostava muito, mas como um justo e devido reparo que a cidadania cuiabana ficou lhe devendo em vida enquanto homem público.

É fácil falar muito sobre o Coronel. Difícil é falar pouco. Só o genial projeto da Ecomoradia, a casa a ser paga com mudas, premiada nacionalmente, daria um livro. Com ele também aprendi que os espaços para funcionarem precisam ser vivos, ter alma. A ausência resulta nos tantos projetos perfeitos que não funcionam, belos espaços urbanos mortos e degradados, ou os tais “elefantes brancos”. Nesse caso, a alma é o interesse que um projeto deve despertar nas pessoas enquanto produto final público. Para ele não bastava a verba, por maior que fosse, mesmo com projeto técnico pronto e de graça. Sem gente capaz de brigar por ele ou a quem pudesse interessar como bem público, também não lhe interessava. Quando se tratava de algo importante para a cidade ele próprio arregaçava as mangas junto com Dona Zulmira e a assistência social para motivar os possíveis interessados, como aconteceu com a Usina de Lixo de Cuiabá, a Feira do Porto e o Shopping Popular, importantes realizações de sua administração.

Assim também ele pensava a cidade, que deveria ter alma, um povo que se interessasse e brigasse por ela. A reconstrução desse espírito começaria nas vizinhanças, bairros, regiões até chegar à cidade como um todo, através das chamadas “comunidades solidárias de autogestão”, cada uma lutando por seu pedaço sem perder a visão da totalidade. O ideal seria que à frente de cada associação de moradores houvesse quatro mastros com as bandeiras do país, do estado, da cidade e do bairro. Para tanto fez a atual Lei do Abairramento e regionalizou a cidade. Tinha consciência de que esta sua visão o colocava em rota de colisão com a estrutura política tradicional e faria com que sua administração fosse um constante embate político. Como foi.

Uma das mais marcantes lembranças foi de sua surpresa ao abrir seu primeiro holerite como prefeito. Secretário de governo, assisti, só ele e eu, ao seu espanto: “Mas como? Eu vou ganhar tudo isso?! O maior salário não é para ser o do presidente da República?”. Do espanto à ação, foi à Justiça contra seu próprio salário, depositando em juízo o valor que considerava excedente. Só recebeu depois de muitos anos quando a Justiça declarou-se incompetente para julgar o caso. Talvez a única autoridade neste Brasil a tomar uma atitude desta. Ainda que em Cuiabá poucos soubessem, o assunto foi editorial em O Globo e acompanhada pela imprensa em várias partes do país.

O “cavaleiro da utopia” se foi, mas deixou sementes concretas. A maior delas, ao menos em dimensão física, é a Cuiabá-Santarém, a BR-163, espinha dorsal de Mato Grosso e o grande eixo integrador do estado. Veio para cá com o 9°BEC para implantá-la e cumpriu sua missão. Cabe a nós continuá-la, com o asfalto em toda sua extensão e a ferrovia paralela reforçando sua estrutura, de Cuiabá a Santarém. Como no Brasil as grandes obras públicas terminam recebendo o nome de alguém, então por que não sonhar com a Cuiabá-Santarém denominada “Rodovia Coronel Meirelles”. Ninguém seria mais merecedor.

Share Button