O desabafo de Yasmin Nadaf, uma intelectual humilhada

Entrega de Mérito Legislativo Gervásio Leite vira palco que a doutora em Literatura Yasmin Nadaf expresse sua revolta contra abuso de poder da Polícia Civil

Enock Cavalcanti

Resultado de imagem para yasmin nadafDeveria ter sido uma sessão solene de entrega de homenagens a personalidades, como tantas outras que acontecem nos parlamentos brasileiros, pelos anos a fora. A entrega do Título Honorífico do Mérito Legislativo “Gervásio Leite”, concedido pela Câmara de Vereadores de Cuiabá a personalidades cuiabanas, na quarta-feira, em solenidade presidida pelo vereador Maurélio Ribeiro (PSDB), transformou-se, todavia, em palco para o desabafo da professora, doutora em Literatura e acadêmica da Academia Mato-grossense de Letras Yasmin Nadaf – uma cuiabana de quatro costados – contra o constrangimento a que foi submetida em setembro de 2015. Nesse dia de triste memória para a professora Yasmin, ela foi conduzida coercitivamente por agentes da Policia Civil para prestar depoimentos relativos à chamada Operação Sodoma, que investiga possíveis desvio de recursos da administração do ex-governador Silval Barbosa e tinha o irmão de Yasmin, o empresário Pedro Nadaf, como seu secretário chefe da Casa Civil.

Além da professora Yasmin Nadaf foram também homenageados, na quarta-feira, 22 de novembro, com a comenda, outras personalidades de destaque em várias áreas. Entre os laureados com o Título Honorífico do Mérito Legislativo “Gervásio Leite” neste ano de 2016 lá estavam o presidente do Tribunal de Contas, conselheiro Antônio Joaquim, que, pelo que se diz, deve abandonar o TCE até o fim do ano; a professora doutora Elizabeth Madureira de Siqueira, historiadora de escol; o professor doutor Fernando Tadeu de Miranda Borges, historiador e membro da Academia Mato-grossense de Letras (AML); João Carlos Vicente Ferreira, escritor e ex-secretário de Cultura; Lucinda Nogueira Persona, professora e poeta; Flávio José Ferreira, advogado, professor, dramaturgo e diretor de teatro; Flávia Salem, editora e jornalista, diretora do jornal Circuito Mato Grosso; Leandro Carvalho, maestro e atual secretário de Estado de Cultura; Suíse Monteiro Leon Bordest, membro do Instituto Histórico e Geográfico de MT; Edmilson Maciel, músico, arranjador e ator profissional; Fabrício de Carvalho, professor e pró-reitor da UFMT; Thiago França, secretário municipal de Mobilidade Urbana de Cuiabá, Marco Marrafon, secretário de Estado de Educação de Mato Grosso e o eu mesmo, Enock Cavalcanti, jornalista, blogueiro e editor de cultura deste DIÁRIO DE CUIABÁ.

Abuso de poder – O desabafo da professora Yasmin, vamos combinar, caiu como um viaduto sobre a solenidade. Surpresa total. De acordo como que contou Yasmin Nadaf, no seu desabafo sentada na tribuna da Câmara, foi vítima de abuso de poder e submetida a uma situação de humilhação nacional, já que o fato foi levado pela mídia ao conhecimento dos brasileiros nos mais diversos rincões do Brasil. E olha que ele não se chama Luís Inácio Lula da Silva. Nesses tempos de Lava-Jato é assim que funciona: espetacularização geral. Para ela, que atua no circuito universitário brasileiro, participando de bancas examinadoras de doutoramento na área de Literatura em algumas das universidades mais conceituadas do País, essa exposição representou um desgaste cruel. Tanto que, além da situação vexaminosa, Yasmin Nadaf relatou que perdeu o contrato que mantinha com a Universidade de São Paulo – USP para atuar nas suas bancas.

“Eu até dou razão aos doutorandos, já que uma pessoa levada de camburão para dar explicações sobre um caso escabroso, pode ser questionada quando à sua honorabilidade. Mesmo que, como no meu caso, eu nem sabia do que se estava tratando”, queixou-se a professora Nadaf, magrinha, com a emoção à flor da pele, tanto que não conseguiu falar de pé, na tribuna, quase translúcida em seu vestido branco.

Ela se queixou da falta de respeito para com a sua pessoa e para com a enorme contribuição que tem dado para elevar o nome de Mato Grosso junto às mais respeitáveis instituições universitárias brasileiras. “Estou entre as doutoras de Literatura que mais participa de bancas de doutoramento no País, sempre recebida com muita distinção em todos estes espaços de excelência que eu frequento. Duvido que exista em Mato Grosso alguém que tenha participado de tantas bancas de doutoramento quanto eu. No entanto, fui levada para depor trancada em um camburão, como uma traficante qualquer, para falar de fatos sobre os quais eu nada sabia. Chegando lá, lá estava a mídia pronta a propagar as imagens desta minha humilhação. O fato foi levado ao conhecimento de todo o Brasil pelo Google, se espalhou com rapidez, sem que eu tivesse como me defender. E fiquei sozinha, acabei tenho que suportar tudo sozinha, porque nenhuma das instituições em que atuo saiu em minha defesa”, reclamou.

Contou que faz um ano que, praticamente, não sai de dentro de casa. “A dor que sinto imagino que todos aqui presentes tem condição de perceber.”

Antes do desabafo, ela fez um rápido panegírico sobre a personalidade de Gervásio Leite, que dá nome ao titulo honorífico instituido pela Câmara Municipal, por iniciativa do vereador Maurélio Ribeiro, e que este ano teve seu segundo ano de distribuição. Lembrou que conheceu Gervásio Leite quando era criança, já que moravam na mesma rua, no Centro de Cuiabá e ela, com dez anos, teve coragem de se aproximar dele procurando inteirar-se de suas atividades como escritor. Para seu prazer, ouviu de Gervásio a previsão de que seria uma grande escritora quando crescesse. “Graças a Deus, essa previsão se confirmou e os livros que escrevi, notadamente minhas teses de mestrado e doutoramento, servem de referência para estudos em muitas universidades”, disso, com evidente orgulho.

Além do desabafo de Yasmin Nadaf, a cerimônia teve outro protesto. A professora Marilia Beatriz, filha de Gervásio Leitou bradou contra o descaso desta terra onde não há até hoje um logradouro, um beco escuro, uma viela, que homenageie a memória do seu pai.

Reflexo talvez do aspecto enfocado com pelo secretário Leandro Carvalho que ressaltou o fato de Gervásio Leite ter sido um negro que se destacou em meio aos preconceitos que sempre marcaram a sociedade mato-grossense. Sim, a fala do maestro Leandro foi um alto momento da solenidade.

Em defesa da política – A homenagem ao presidente do TCE-MT, Antônio Joaquim, foi uma indicação dos vereadores Marcus Fabrício e Maurélio Ribeiro. Segundo os parlamentares, o conselheiro Antonio Joaquim recebe a honraria pelos relevantes trabalhos que vem prestando a Cuiabá, seja como deputado estadual e federal, que somaram quatro mandatos, seja como secretário de Estado e como conselheiro da Corte de Contas.

“Sempre é agradável ser homenageado. Eu que tenho tantos anos na vida pública do Estado, tenho que valorizar esse tipo de iniciativa, que é um estímulo ao trabalho que realizamos”, disse Antonio Joaquim na saudação aos vereadores e demais homenageados.

O presidente do TCE-MT disse ainda que a homenagem tem um caráter especial para ele, pois representa mais que uma simples láurea, pois reflete o reconhecimento da Câmara Municipal ao seu trabalho político para a construção de uma sociedade cada dia melhor. “Eu me orgulho muito da minha biografia, me orgulho de ter sido deputado estadual, deputado federal, secretário de Estado e hoje conselheiro do Tribunal de Contas, instituição que presido pela segunda vez”, argumentou.

Antonio Joaquim lamentou que muitas pessoas gostam de depreciar a política e o político mas, na avaliação dele, não há solução cívica ou republicana para os problemas do município, do estado e do país que não seja por meio da política. Pensar o contrário, destaca, é equívoco enorme da juventude, em especial, algo pelo qual as escolas e as universidades também têm sua parcela de culpa por não prepará-los adequadamente para o exercício da cidadania. “Entendo que os conflitos e problemas de nossa sociedade se resolvem pela política ou se tentará resolvê-los pelo fuzil e pela metralhadora. Então, a gente tem que dar muito valor à biografia de quem tem a vida dedicada à política”, argumentou o conselheiro.

Quem foi Gervásio Leite – Gervásio Leite nasceu em Cuiabá-MT, aos 19 de junho de 1916. Diplomou-se pela Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro em 1938. Ingressou no Tribunal de Justiça na categoria de desembargador em 1964, foi presidente do Judiciário em 1966 e se aposentou 1969.

No campo educacional, sua contribuição foi expressiva, tendo lecionado na Escola Técnica de Comércio e junto à Faculdade de Direito de Cuiabá , depois, na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Mato Grosso, socializando seus abalizados conhecimentos. Durante o período acadêmico produziu um estudo que discute o percurso da escola primária de Mato Grosso, desde o século XIX, até a década de 1960, que se tornou um clássico da historiografia da educação brasileira e mato-grossense.

Foi ainda deputado estadual e Constituinte em 1947 e presidiu a Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional de Mato Grosso. Como jornalista vinculado à Associação de Imprensa Mato-grossense foi co-fundador, em 1939, do jornal O Estado de Mato Grosso. Gervásio Leite faleceu no Rio de Janeiro-RJ, no dia 10 de abril de 1990, aos 74 anos incompletos.

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Namarra

Matérias, notas que nós (eu e Meu Peixe) gostaríamos de escrever e observações diversas.

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