O Incomensurável nada – por Eduardo Mahon

O INCOMENSURÁVEL NADA (E.M)Ao cabo de uma pia de louça suja, a mulher olha para o nada, como uma coruja que acaba de…

Publicado por Eduardo Mahon em Domingo, 1 de outubro de 2017

O INCOMENSURÁVEL NADA (E.M)
Ao cabo de uma pia de louça suja, a mulher olha para o nada, como uma coruja que acaba de acordar ao final da tarde e ainda não se decidiu sobre a própria fome, como uma duna de areia que não tem certeza exatamente do próprio tamanho ao ser inchada e ressecada a cada tempestade de vento, como uma ponte sobre um riacho seco que sabe ter perdido a função, mas ainda assim não perde a natureza de ponte. Parada, a mulher parece árvore que sente os tremores da terra e se solidariza com outras tantas que cresceram ao lado e hoje estão cerradas a servir de mesinha, de criado mudo ou de cama de casal em alguma casa de gente rica. Ela se sente passada como as uvas que são propositalmente esquecidas no pé até ficarem murchas para uma colheita tardia quem sabe para a produção de licores ou simplesmente cristalizadas e encaixotadas para o exigente mercado consumidor, tão passada como uma música que já arrastou multidões pelas ruas e hoje é tocada às duas da tarde de domingo pelo rádio que anuncia o flashback da década anterior. Imóvel como o pêndulo do relógio inglês que ganhei de uma amiga e que nunca mais dei corda, nem sequer por curiosidade de escutar o blim-blon classudo emitido pelo bronze que se fazia antigamente, como o crocodilo que aguarda a manada de zebus apenas com as narinas de fora para não agitar a água turva de rio africano, esquecida como as lápides que se camuflam de musgo e hibisco capazes de sacar as inscrições dos mortos que estão lá enterrados, apodrecidos, secos, reduzidos a ossadas imprestáveis para a cadeira alimentar subterrânea. Ela olha distante como um grande binóculo que busca o falcão que ataca o pombo ao descer vertiginosamente de mil e quatrocentos metros, um telescópio instalado nos altiplanos chilenos que vai dirimir se Plutão é ou não é um planeta, enfim, como o próprio tempo consumindo uma pessoa sem que ela saiba, desde o nascimento até que se dê conta de que, algum dia, vai acabar morrendo dessa doença das horas. Está calada como o fundo de uma caverna onde não há nenhuma água que pingue para formar estalagmites, como uma cobra que se enrola sobre si para tencionar os músculos e dar o bote certeiro uma vez e meia a medida do próprio corpo, como uma lágrima que corre do senhor da quinta fila do cinema escuro onde é exibido A Cor Púrpura na matinê cultural. A senhora equilibra-se sobre o corpo magro como juncos que estão fincados desde sempre na lama egípcia ou os bambuzais altíssimos chineses que teimam com a gravidade, o mesmo equilíbrio do homem de collant rosa que passeia por um fio de aço a trinta e dois metros de altura com uma desbotada sombrinha à mão trazendo alegria a expectativa aos quatro filhos da família que vão ao circo pela primeira vez, como um copo americano – desses de boteco – que cai da mesa ao chão e circula pelas bordas reforçadas de vidro para que não se quebre, como a estátua do Cristo Salvador fincado na cúpula da igreja antiga, pálida frente aos piores ventos e chuvas que vão de outubro a março. Ela está só como um ator coadjuvante abandonado no camarim do teatro de periferia sem o nome na porta, como a aranha caranguejeira que urde sua teia para pegar mosquitos, moscas, besouros e talvez canibalizar outras aranhas menores ou como uma res perdida em meio ao charco onde não se vê mais do que o horizonte úmido antes de se afogar. Ali, na cozinha, vencida a pia de louça suja, a velha olha o nada como um unicórnio e sente que faz parte do nada, sem fazer sentido algum ou fazendo um sentido absolutamente particular para quem, como ela, está só e calada, equilibrando-se no tempo e espaço para continuar vivendo o despropósito comparável com todo e qualquer outro despropósito da vida.
Eduardo Mahon é escritor.

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