O legado da Copa – Artigo de José Antônio Lemos

José Antônio Lemos

Outro dia soube que ao bancar a sua Copa do Mundo em 2006 a Alemanha tinha como objetivo principal a recuperação de dois valores imateriais, imensuráveis, que eles haviam perdido na trágica aventura do nazismo. O primeiro era o resgate da altivez e orgulho alemão ao hastear a sua bandeira e cantar o hino nacional, a pleno pulmões, com peito estufado e cabeça erguida. O segundo era resgatar para o mundo a tradicional figura alegre, amistosa e receptiva do povo alemão, um dos povos mais simpáticos da Europa. E a avaliação que fazem é que esse duplo objetivo foi alcançado plenamente, o que por si só teria pago com sobras tudo o que gastaram com a realização da Copa. Mesmo assim, numa demonstração de extrema seriedade com a coisa pública, persistirão com um sistema de avaliações permanentes dos resultados da Copa até 2016, ou seja, 10 anos após a realização da Copa, tendo em vista os demais objetivos e a consolidação de todos os resultados.

É fantástico o poder midiático global de uma Copa e por isso o grande interesse dos países, ricos ou pobres, por ela. Dutra, o presidente cuiabano, ao trazer a primeira Copa do Mundo para o Brasil – é bom não esquecer que foi ele que trouxe a Copa de 50 e construiu o Maracanã, queria mostrar ao mundo que o país havia deixado de ser rural e que dispunha de outras grandes cidades além do Rio de Janeiro. E hoje o que o Brasil pretende com a Copa de 2014? Já sei que para muitos será apenas uma grande oportunidade para roubalheiras homéricas, porém, embora esta possa ser uma tendência, não acredito ter sido este o objetivo que levou o Brasil e Mato Grosso a se envolverem em um compromisso internacional de tal envergadura e de tamanha exposição global. Trata-se de um evento que se realiza, desde sua preparação em uma cristaleira mundial, aos olhos de todos. Já outros, de visão bem estreita ou maliciosa, insistem em pensar que o objetivo seria apenas a realização de 4 jogos internacionais, alguns até calculando um custo absurdo para cada jogo por esse raciocínio.

Quanto a Mato Grosso e Cuiabá, em termos de objetivo nacional aceito que a inclusão foi para mostrar ao mundo que o Brasil além das praias do litoral tem o Pantanal, uma das maravilhas naturais do planeta, assim como a inclusão de Manaus foi para mostrar as belezas da Amazônia. Em termos locais, acredito que o objetivo tenha sido o legado material e imaterial a ser deixado pela Copa para a cidade e o estado, em termos de imagem, obras, serviços e promoção das pessoas com as oportunidades criadas. Por esse legado os mato-grossenses, em especial os cuiabanos, têm que estar atentos, criticando, aplaudindo e cobrando. E é por ele que não se pode esquecer a iniciativa corajosa e visionária do pleito para o estado de uma das sedes da Copa.

Passados 2 anos da escolha de Cuiabá e a menos de mil dias para a Copa, será que já podemos fazer alguma avaliação positiva ou negativa da preparação para o grande evento? É certo que uma avaliação como esta exigirá outros artigos, mas de cara pelo menos um grande legado já pode ser registrado. Trata-se da reconstrução ou resgate da auto-estima cuiabana e mato-grossense, de valor imensurável. Acostumados a ser tratados como periferia, assumimos ultimamente uma personalidade tão simplória, humilde e resignada que nos surpreendemos incrédulos ao ouvir o nome Cuiabá da boca do presidente da FIFA, simbolizando a vitória de Mato Grosso, quando da escolha das sedes da Copa de 2014. E ficamos orgulhosos constatando que podíamos sim vencer, que enfim não éramos mais o fim da fila, que estamos mais fortes e que poderíamos enfrentar outros grandes desafios. A começar pelo primeiro, a própria preparação da Copa do Pantanal. Será?

*JOSÉ ANTONIO LEMOS DOS SANTOS, arquiteto e urbanista, é professor universitário

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