O lugar de tudo é em Marília Beatriz e o lugar de Marília Beatriz é na literatura mato-grossense pela eternidade – Por Eduardo Mahon

Viva, Marília Beatriz!

Por Eduardo Mahon | A gestão de Marília Beatriz vai se despedindo com galhardia. Soma mais um troféu valioso para a literatura mato-grossense: a eleição de Aclyse Mattos. Nossa presidente merece o nosso aplauso. Não foi fácil. A responsabilidade, no caso dela, foi redobrada por uma tripla coincidência: Gervásio Leite, o poeta, jornalista, cronista, educador, deputado e desembargador, completou 100 anos e, com ele, relembramos os 40 anos que passaram da gestão desse modernista à frente da Academia. Não bastasse essa enorme responsabilidade, Marília Beatriz de Figueiredo Leite conduziu os festejos de 95 anos da mais longeva instituição literária do Estado. Em dois anos, a presidente reinaugurou a Casa Barão de Melgaço, lançou um volume da Revista da AML com discursos inéditos, participou de inúmeros eventos no interior e na capital de Mato Grosso, recebeu centenas de estudantes para discussões e palestras, além de produzir continuamente os textos que seduzem pela beleza plástica, própria de quem domina a semiótica.

A gestão começou com o pé direito. Na posse de Marília, vieram os colegas escritores de Mato Grosso do Sul para a primeira sessão conjunta entre as duas academias, desde a separação dos Estados. Na ocasião, compunha a mesa de honra Gilberto Mendonça Telles e Wlademir Dias-Pino, uma moldura modernista que sempre coube à família de nossa presidente. A inteligência de Marília Beatriz fez troça com os tapumes que sufocavam a Casa Barão de Melgaço durante a lenta requalificação. Foi a presidente que nos convidou a pixar poesias nas estéreis folhas de madeira com a qual o cerco à literatura foi imposto pelo poder público. Coordenados pela criatividade da presidente, resistimos. Vencemos a sisudez estéril com a irreverência poética. Ali estava a marca dela: Marília entregou-se à Academia, com spray e lágrimas.

Nos dois anos em que fomos contagiados pela delicadeza de Marília, sabíamos que ela não iria parar sentada. Falou de pé. Ninguém a segurou, ninguém a dominou, ninguém a controlou. A pauta foi dela, exclusiva, singular. Quando o protocolo assombra, os ritos oprimem, os estatutos pressionam, Marília Beatriz é aquela que nos relembra a razão de estarmos juntos: pela literatura, não pelo formalismo; pela literatura, não pela cerimônia; pela literatura, não pela norma. Deixou claro de dentro para fora: o que precisamos é de mais literatura e menos burocracia. As opções da gestão que se despede foram tomadas em prol das letras e dos autores que estão lutando em Mato Grosso pela poesia, pela prosa, pela música, pelo teatro. Eis uma mulher corajosa a quem admiro, respeito e festejo.

No dia 12 de setembro, Marília Beatriz conduzirá a posse de Aclyse Mattos. Preparem-se! Nada será como antes. Estejam todos presentes, haverá inovação como de costume. Porque o costume da presidente é perseguir novas imagens, novas formas, novas linguagens. Quem está parado, se anime. Quem está animado, pegue fogo. Esta é a contribuição que nos legou: não ter medo do futuro, porque o novo não se impõe pelo litígio com a tradição. Marília está nos deixando uma Academia de Letras mais jovem, mais viva, mais próxima da sociedade. Os nossos aplausos são partilhados com os vice-presidentes: José Cidalino Carrara, um lorde em terras cuiabanas, e Ivens Cuiabano Scaff, o embaixador das letras mato-grossenses.

A itinerância da Academia Mato-grossense descobriu uma nova geografia e, com ela, um desejo de interiorização. É preciso dar vez e voz aos escritores e leitores do interior. Marília palmilhou muitos lugares, criando espaço e desejos. De vez em quando, me lembro da provocação poética dela: “qual o lugar do desejo sem lugar?”. A pergunta fere fundo os nossos sentidos. Qual o lugar? Do desejo? Sem ligar? Não! O lugar de tudo é em Marília Beatriz. E o lugar de Marília Beatriz é na literatura mato-grossense pela eternidade. Obrigado, querida amiga. Você é brilhante!

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