O Moralista no Divã – Por Eduardo Mahon

 

O MORALISTA NO DIVÃ (E.M)Há fobias de muitas naturezas. Coincidem, no entanto, com a aversão a alguma coisa: lugares…

Publicado por Eduardo Mahon em Terça-feira, 19 de setembro de 2017

Há fobias de muitas naturezas. Coincidem, no entanto, com a aversão a alguma coisa: lugares abertos, aglomeração de gente, micróbios, lugares escuros ou apertados. Há fobias que passam despercebidas e foram naturalizadas – fobia de barata, de cobra, de lagartos, enfim. Outras são sazonais na história da humanidade: fobia de um determinado povo, língua ou território. Finalmente, há aversões perenes, quase tão velhas quanto a própria humanidade. Infelizmente, a fobia à cultura é uma dessas formas de comportamento patológico. A bibliofobia é uma antiga conhecida. Queimar livros remonta a época em que os próprios livros foram produzidos. Foram inúmeros casos de destruição de bibliotecas inteiras por questões religiosas, políticas, filosóficas. Stálin e Hitler foram os últimos casos conhecidos, mas poderíamos retornar à China antiga.
Em termos de artes plásticas, o homem também guarda fantasmas que os assombra. Ao ser exposto à magnífica obra de Giotto, o escritor francês Marie-Henri Beyle teve vertigens e palpitações. Com o tempo, a doença foi chamada de Síndrome de Florença, de Sthendal ou simplesmente de hiperculturemia. Por incrível que pareça, há uma fobia de exposição às obras primas. Mais particularmente no que tangencia ao nu – dentro e fora da arte – temos classificada a gimnofobia que é o medo de se mostrar sem roupa ou ver outra pessoa nua. Ainda, nesse sentido, temos a aversão a tudo o que evoca, explora ou retrata o sexo libertino – a pornofobia. Alguém que sofra sofre com essa síndrome não suporta ficar diante de qualquer descrição sexual explícita. Pode passar mal em templos hindus, em cidades antigas como Pompéia e diante de representações africanas, asiáticas e americanas pré-colombianas.
Noutras palavras, quem não se sente à vontade diante da pornografia a ponto de ser abalado emocionalmente porta um transtorno que deve ser tratado por profissionais psicólogos ou psiquiatras com auxílio de análise e remédios para ansiedade. O artista não pode ser culpado pela recepção deslocada do espectador, já que a arte retrata, desde as cavernas, situações eróticas. Imaginemos que um artista pintasse o que consta na Bíblia, em Ezequiel 23:20: “desejou ardentemente os seus amantes, cujos membros eram como os de jumentos e cuja ejaculação era como a de cavalos”. Pode ser que o artista decida retratar os dramas de Onã – presentes na Bíblia – e pinte o protagonista masturbando-se para não ejacular na própria cunhada. Outra possibilidade artística remonta à cena do coito anal presente na Bíblia como justificativa da destruição de Sodoma. Finalmente, causaria algum escândalo se um artista pintasse o bíblico Lot transando com as próprias filhas.
No final, colocamo-nos sempre diante da encruzilhada – a vida imita a arte ou a arte imita a vida? É provável que a vida tenha muito mais variantes pornográficas do que a arte que continua a correr atrás das nuances humanas para eternizar num quadro, num livro ou num filme. Vez ou outra alguém tem pânico diante de corpos nus ou em cenas de sexo explícito. Agarram-se nas mais variadas justificativas para debelar a ameaça: religião, moral, costumes. Escamoteando a ansiedade, o pornofóbico diz se preocupar com crianças, idosos, mulheres, quando na realidade o desconforto mora nele mesmo. Talvez seja um desejo reprimido no fundo dessa rejeição violenta. Diga-se o mesmo da homofobia, da transfobia, da lesbofobia, isto é, doente é quem porta esse transtorno e não o objeto dele.
Há gente que tem medo de palhaço, de aranhas e de avião. Mas há aqueles que tem fobia de poesia (metrofobia), de música (melofobia), de dança (corofobia), de arte em geral. Quando a arte interpreta o sexo velado ou explícito, os problemas se multiplicam numa recepção doentia da realidade. Essas e outras fobias estão em voga, travestidas de moralismo. São transtornos, na verdade, que fazem sofrer o portador do distúrbio e, claro, o grupo social rejeitado com aversão profunda. Essas pessoas que estão ultrassensibilizadas precisam urgentemente de um divã e uma boa pílula de cloridrato de sertralina.

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