O poema sobrevive, o poeta Sodré vive – Por Vinícius Masutti

Por Vinícius Masutti

Antônio Sodré é uma lenda cuiabana. Antônio Sodré é das letras cuiabanas.

Poetinha pequeno em tamanho e grande em lirismo, Sodrézinho, como era conhecido entre amigos, criou sua poesia nas ruelas entortadas de Cuiabá e carregou a missão de espalhá-la por quase trinta anos. Daí, acredito, sua leve curvatura na coluna. O peso de levar a poesia não é pouco e, aliás, é para poucos.

Antônio Sodré era poeta praticante e sua intenção era levar a poesia adiante, de modo que todos pudessem expressar suas impressões sobre o mundo e as coisas da vida.

Poeta militante, tinha o jeito instigante de quem não desiste e o sujeito era feliz mesmo sendo triste. A contradição é intrínseca na poesia porque o poeta está sempre a procura de si mesmo e não se sustenta com certezas, mas com dúvidas.

Indubitável era a força de Sodrézinho, que não se contentava em criar sua arte, mas sentia a necessidade de mostrar que todos poderiam fazer e ser arte.

Seu primeiro livro, chamado “A Besta poética”, teve treze poemas apenas e foi ilustrado por seu ilustre irmão, Adir Sodré. Poeta das tintas. Mas os poemas de Sodré eram um incentivo aos leitores porque tinham como objetivo despertar o lirismo em cada um.

Isso ficou claro, e sempre digo isso admirado, quando nos anos de 2007 e 2008, Sodré desenvolveu, junto com alguns entusiastas da arte, um projeto intitulado “Poesia Necessária”.

O Projeto consistia em levar poesia para as escolas desta cercania. Com apoio do governo do estado, duas escolas foram contempladas. E honradas, tiveram a presença poderosa do poeta e de seus amigos, que após o horário normal das aulas, abriam o espaço para os tímidos estudantes adentrarem na arte e sentissem o abraço que a poesia é capaz de dar.

Ainda descalços, os alunos que apostaram na poesia tornaram-se poetas e poetizas, pois os poemas escritos por eles durante o projeto se tornaram livros editados e distribuídos pela editora Carlini e Caniato.

O garimpo que Sodré fez e fazia, minando pequenas cabeçinhas com música e poesia é a essência da arte. Foi um grande aprendizado e ainda pode ser.

Sodré me contou uma vez que descobrira que a poesia é quem escolhia o poeta e não o contrário. Pois ele, ciente disso, abria as portas para que as poesias entrassem e se espalhassem por onde passava. Antônio Sodré as levava por onde ia.

O poeta não se importava com publicações, queria mesmo era ver as reações que a poesia causava nas pessoas, porque a arte tem que gerar, germinar nos corações.

Vinte e um anos após seu primeiro livro publicado, Sodré concordou em publicar mais um. Este se chama “Empório literário”, nome que remete a sua infância, quando ajudava o pai em sua mercearia, ou a seu belo trabalho de troca de livros. Trabalho que exercia entre duas escadarias, da Universidade Federal do Mato Grosso. Lá, Sodré era figura cativa. Com seu sebo literário, vendia, trocava e até doava livros. O poeta atuava na linha de frente e levava como podia as letras para nossas vidas.

No ano de 2011, aquele espaço entre as escadarias ficou vazio. Não de livros, mas de alma. Antônio Sodré morreu no início daquele ano, fazendo o que melhor fazia. Fazendo e espalhando poesia.

Já ouvi dizer que a morte do poeta está no poema, mas com Sodrézinho a coisa foi literal. Durante uma apresentação em um sarau, Sodré teve um infarto fatal e caiu nos braços da poesia, que era o que lhe dava vida. Como era performático, alguns acreditaram que sua queda fazia parte do poema que recitava. Eu acredito, já disse e repito, que seu coração teve vontade de sair de seu peito para assistir de fora sua apresentação. E nessa saidinha, o poeta não voltou mais.

Com cinquenta e dois anos, Sodré deixou a vida, mas como grande poeta que é, deixou sua poesia e mais do que isso. Deixou um pedaçinho de vida em cada pequenina cabeça que enchia de poesia e seu coração também se dividiu em milhares de partes. Cada pessoa que teve o prazer de ter um dedo de prosa com Sodré, recebeu um pedaço. Eu tive essa sorte e lhes conto que a poesia também está na morte.

Deixo com vocês o poema-manifesto de Antônio Sodré, que na minha opinião é a mais concisa expressão de sua poesia.

Fonte: Secom/MT

Share Button