O poeta oculto no último verso

Por Lucinda Persona

Podemos nos reaproximar de um romance por diversos caminhos quando se trata de tecer comentários após leitura. Podemos, inclusive, partir do próprio princípio do romance, que mostra um cenário natural com os primeiros sinais de luz de um dia qualquer. Então, abraçamos a generosa imagem de frescor e renovação. Deste modo, o que se narra no início transforma-se em nosso espírito e nos arrasta para a aventura de recontar.

Em certa manhã, enquanto pássaros cantam para o sol prestes a nascer, uma casa, a de número 26 da rua, exala aroma de café. De imediato, sorvemos esse aroma que, por si, já sugere a suprema batalha cotidiana. Um homem, de idade avançada, aparentemente sereno, realiza seu ritual matutino. Depois, na extensão da vida contada, junta-se a ele a mulher e, devagar, surgem outros personagens, moradores dali ou visitantes. E os dias comuns desse homem incomum, pois se trata de um poeta notório, vão transcorrendo, enquanto suas ações e emoções sofrem mudança de tonalidade no seio da família. Tais ingredientes permanecem ao longo do relato, compondo um território de matizes amenos sobre um fundo de conflito e desassossego.

Tudo parece se dissolver numa rotina incontornável e essencial no enredo predominantemente melancólico do romance urbano de Stéfanie Medeiros, intitulado O último verso (Carlini & Caniato, 2016) e detentor do Prêmio Mato Grosso de Literatura.

A trama, desenvolvida em 57 capítulos, num ambiente tipicamente doméstico, é edificada lentamente, dia após dia, com a devoção de quem sabe o que está elaborando e em que ponto quer chegar. Um romance onde os últimos momentos, pertinentes e elucidativos, dão ao leitor a possibilidade de responder a certas indagações, surgidas no decorrer da história.

As ações estampam o perfil de um homem real, de modos sem estridência, em seus momentos de poesia e experimentando, ao peso da idade, outros pesos, certas vicissitudes ligadas ao destino humano. A esse homem de carne e osso, de identidade reconhecível, é dada a dimensão ficcional, mas sem os retoques daquelas experiências geralmente triviais vividas por ele e tornadas públicas em vários momentos de sua trajetória, sendo assim registrado nas vestes comuns do indivíduo comum, sem o inefável manto da poesia que produziu.

Neste momento, vale introduzir um fato natural na literatura. Ao se fazer o balanço da vida e obra de um determinado escritor, dois aspectos sobressaem: o da obra em si e o da vida particular desse autor, independente da imagem pública. É inevitável o estabelecimento do interesse, especificamente em torno do ser humano por trás da obra que atingiu em cheio a sensibilidade da massa, provocando ondas de acolhimento e admiração. Não somente nos leitores habituais se acende o fogo da curiosidade, mas também nos pesquisadores, críticos e jornalistas.
Nessa perspectiva decorre O último verso, da jovem jornalista e poeta Stéfanie Medeiros, tecendo o lado pessoal da existência de um poeta, a rotina necessária, os laços familiares, o espaço de trabalho, os poucos amigos, como o editor, o confronto com o crepúsculo da vida e o arrebatamento amoroso por outra mulher.

De certo modo, a matéria de que se serve a autora reforça o paradigma de que as perfeições e as incompletudes são inerentes à condição humana. O clima criado pela escritora, fiel a um determinado fato, mantém não apenas um elo de verdade com algo acontecido, como também apresenta o artista reduzido à expressão substantiva de homem comum. Um homem do qual o leitor, entregue à imaginação e à branda luz do afeto, poderá dizer com um verso de Carlos Drummond de Andrade: “sua poesia pousa no tempo”.

Lucinda Nogueira Persona é poeta, autora dos seguintes livros:Por imenso gosto (Massao Ohno, 1995), Prêmio especial no Concurso Cecília Meireles(1997) da UBE; Ser cotidiano (7Letras, 1998); Sopa escaldante (7Letras, 2001), Prêmio Cecília Meireles(2002) da UBE e Leito de Acaso (7Letras, 2004). Participa das antologias de contos Na margem esquerda do rio: contos de fim de século (Via Lettera, 2002); Fragmentos da alma mato-grossense (Entrelinhas, 2003); é autora de livros infanto-juvenis, contos, crônicas e resenhas, colaborando com jornais e revistas mato-grossenses. [maio 2007] 

 

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Namarra

Matérias, notas que nós (eu e Meu Peixe) gostaríamos de escrever e observações diversas.

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