O que será de nós? – Por João Eloy, o Doutor do Rasqueado

Por João Eloy de Souza Neves | Neste momento difícil que todos nós artistas da música mato-grossense estamos atravessando em total desamparo, dou calorosos aplausos ao ilustre jornalista paulista da “Coluna Canal 1” do jornal “A Gazeta”, Flávio Ricco. Em desabafo disse, em letras garrafais: “Beira a imoralidade a apropriação do rádio e da TV pelas igrejas.”

Em seu artigo ele relata e protesta contra “a venda tresloucada de horários em emissoras de rádio e televisão para igrejas de todos os tipos. Pelo tamanho das quantias envolvidas, entende-se o interesse dos seus porta-vozes em fazer calar as opiniões em contrário e deixar correr solta esta imoralidade.”

De fato, nas grandes cidades a situação é pavorosa, um verdadeiro corporativismo desregrado.

Ora! Na concessão de um veículo de comunicação, existem cláusulas pétreas que obrigam a respeitar as características culturais de cada região, mas até algumas estações de rádio traíram seus ouvintes, mudando sua sede para outras cidades e também alterando, criminosamente, sua programação.

Em nosso país as leis são criadas, mas sempre deixando uma brecha para serem desrespeitadas. Um exemplo claro disso são as leis existentes em relação ao rasqueado cuiabano, a saber: “Lei nº 7070, de 07/12/1998, publicada no D.O. de 09/12/1998, assinada pelo então governador do Estado, Dante Martins de Oliveira, que dispõe sobre a divulgação dos artistas regionais nas programações das emissoras de rádio AM/FM no Estado (em horário nobre).” Também temos a “Lei nº 8203, de 11/11/2004, publicada no D.O. do mesmo dia, que declara o rasqueado como ritmo musical símbolo de Mato Grosso.” (deputado José Riva). Temos até dois dias oficiais para comemorarmos o rasqueado cuiabano: 7 de abril (deputado Roberto Nunes) e 15 de dezembro (vereadora Enelinda Scala).

Algumas emissoras de rádio, esporadicamente, estão tentando cumprir as referidas Leis, tocando rasqueado, lambadão e lambadinha em suas programações porém, nas datas comemorativas, como: o aniversário de Cuiabá, o aniversário de Mato Grosso, festival de pesca de Cáceres e a famosa EXPOAGRO sistematicamente nós, os artistas regionais, somos excluídos da programação.

Para os empresários e instituições responsáveis pelos eventos, não somos dignos de participar, porém temos a consciência tranquila porque nossos maiores avaliadores são nosso público fiel, que nos aplaude calorosamente em todas as festas, sejam na roça, cidade ou sertão.

O desamparo, entretanto, está se abatendo sobre nossos músicos e não querendo desmerecer outras profissões, infelizmente temos excelentes instrumentistas, transformando-se em serventes de pedreiro, pintores de parede, eletricistas, taxistas, etc.. Isso porque não conseguem viver somente da sua arte.

Nossa música raiz é forte, que nem nosso povo caboclo, resultante da miscigenação entre portugueses, africanos e indígenas, no decorrer de quase três séculos portanto, ela é autóctone. Somente aqui existem o cururu e o siriri, executados sob o som do ganzá, do mocho e da viola de cocho gerando, com a fusão da polca paraguaia, o rasqueado cuiabano.

Os cinco continentes do planeta já tomaram conhecimento de nossa música raiz e já a aplaudiram, de pé, através do Grupo Chalana e do Grupo de Siriri Flor Ribeirinha que, recentemente, se apresentou na Coreia do Sul, com grande sucesso.

São, com certeza, fatos que servem de fonte de inspiração para que continuemos caminhando com passos firmes e decididos, valorizando nossos: cururu, siriri, rasqueado, lambadinha e lambadão, alcançando as nuvens e nos dando as mãos.

*JOÃO ELOY é cantor, compositor, historiador e poeta, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, médico aposentado e ex-professor da UFMT. E-mail: joaoeloycantor@hotmail.com

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