O Velho Palacete – Por Eduardo Mahon

Por Eduardo Mahon | Ninguém diria que o palácio nasceu do mesmo tamanho que todos os demais casarões na rua de terra batida. Contudo, a despeito do que ignorem os meninos que estudam arquitetura contemporânea, esses mesmos que acham que o aço, o vidro e o concreto aparente constituem o catecismo do futuro, naquela rua algum dia estiveram alinhados casarões da aristocratas, mas na medida da fortuna dos vaidosos proprietários. Depois, a queda. Pior: a depreciação lenta da meia idade. Instalou-se, ao lado, o primeiro edifício que fez pouco caso do palácio, talvez porque a grande maioria dos moradores dos demais sobrados houvessem se mudado para lá. Subia arrogantes vinte e dois andares, reinando do alto nunca visto por aquelas casas que não sobreviveriam por muito tempo. No lugar dos anônimos demolidos, nasceram outros prédios, maiores e mais altos do que aquele primogênito soçobrado diante das evidências: quanto mais moderno, mais alto. Em meio à disputa pelas nuvens, o antigo palacete de dimensões pigmeias viu-se na contingência de ser excluído do clube dos verticais e, com o tempo, perdeu os próprios moradores originais, sucedidos por sobrinhos menos afortunados, incapazes de manter o amor-próprio da única construção daquela avenida alargada e asfaltada pelo prefeito com vertigens de futuro. Houve quem sentisse pena da edificação transformada em pensão medíocre, povoada de gente pobre que se espremia nos quartos ainda forrados por tábuas de carvalho, lentamente consumidas pelo tempo e falta de resina hidratante. Apodrecido por vermes que se multiplicavam no pouco de carne ainda adrede aos ossos evidentes, o palácio mergulhou na pior fase. Os remedos nas janelas do segundo pavimento, pixos a tatuar a delicada casca neoclássica e as gambiarras da fiação telefônica, deformaram o rosto do absorto decano. Como o tempo não passa apenas para o casarão, os prédios mais antigos tornaram-se solidários com o parente mais velho. Também eles – os obsoletos arranha-céus que, hoje em dia, são baixotes em comparação com outros vizinhos mais novos e mais potentes – sofriam com rachaduras e estavam abandonados pelas famílias ricas que se foram no êxodo para condomínios distantes. O palácio, então, sofrendo de enfisema e artrites, mantinha a dignidade em não se vingar de comentários maldosos daqueles edifícios decadentes que cediam espaço barato para o comércio de bijuterias e outros cacarecos. Quando, enfim, o palácio fechou as portas, sofrendo de profunda depressão, sucumbiu para o abate de capitalistas que fariam dali um shopping, um estacionamento ou qualquer coisa mais lucrativa do que aquele esqueleto de adobe que esperava o golpe derradeiro. Entretanto, em virtude do bom-gosto de um magano extravagante, o provecto palacete foi sacado do acervo do eterno inventário em que jazia. Sediaria um museu de arte moderna e uma sala de concertos com acústica irreparável. Em tempo, quase abatido pelo tremor de veículos que trafegam em manadas, recebeu transfusão de tijolos e cimento, reboco e telhas, piso e pintura e, após lona internação por trás de tapumes, ressurgia exibindo-se em holofotes que banhavam de luz o recauchutado palácio. Os prédios do entorno, agora tomados de viciados e prostitutas que se mantinham em alugueis baratos, cedendo à majestade do palácio que reinava austero, mas nunca presunçoso, ascendiam e apagavam as luzes para saudar o sobrevivente. Assim são os casarões e as pessoas velhas, muito velhas: à beira da demolição, quando ultrapassam certos limites de existência, deixam de ser ultrapassados para ganhar foro de clássicos e, daí, receberem homenagens de quem, antes, os exprobavam pela senilidade. Já não os rejeitam. Já não os maltratam. São, ao contrário, francamente queridos para a admiração dos velhos e dos novos arquitetos que, enfim, percebem que o futuro não se faz apenas de juventude.
Eduardo Mahon é escritor.

O VELHO PALACETE (E.M)Ninguém diria que o palácio nasceu do mesmo tamanho que todos os demais casarões na rua de terra…

Publicado por Eduardo Mahon em Sexta, 20 de outubro de 2017

 

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