O VLT e a Cidade – artigo de José Antônio Lemos

José Antônio Lemos

Aconteceu aquilo que tanto se temia, com os Ministérios Públicos Federal e Estadual pedindo e a Justiça acatando a paralisação das obras do VLT. Repetindo o que escrevi algumas vezes, a Copa do Mundo de 2014 trouxe de imediato para o Brasil pelo menos um ganho importantíssimo. Escancarou para o mundo e para nós mesmos as entranhas do país mostrando que estamos encalacrados em um modelo político-administrativo enrolado, perdulário e corrupto, incapaz de realizar qualquer obra pública com prazo determinado. A pretexto de se prevenir contra a corrupção, ao invés de dar um jeito nos corruptos, o país preferiu criar um emaranhado jurídico-burocrático cheio de exigências e possibilidades de contestações diversas que impedem a execução de qualquer projeto seguindo seus cronogramas técnicos como em qualquer nação civilizada. Em casos extraordinários, como os compromissos internacionais assumidos com a Copa, é preciso criar uma legislação especial, tipo RDC, autorizando o descumprimento da lei normal, o que diante da situação acaba justificável e necessário, pois do jeito normal, seria impossível fazer qualquer coisa.

Tudo seria mais fácil se ao invés de dificultar os projetos, fôssemos atrás dos corruptos. Se ao invés de suspender projetos e obras necessárias, suspendêssemos os corruptos suspeitos de as corromperam, punindo com agilidade os julgados culpados. Em qualquer processo de desenvolvimento e promoção da qualidade de vida de uma população, as obras e serviços públicos são o mais importante. Elas podem ser corrompidas, mas é evidente que elas em si não são corruptas. Paralisar obras necessárias é punir o povo várias vezes, que fica sem seus benefícios e ainda paga a conta de diversas formas, muitas vezes dolorosas. Em Mato Grosso, por exemplo, dá para lembrar os casos do Hospital Central de Cuiabá e da BR-163. Até hoje morre gente por não terem sido concluídas. Parar uma obra por corrupção é como matar um cachorro para acabar com as pulgas.

Quando foi reaberta a discussão sobre o modal de transporte para Cuiabá, no início do ano passado, coloquei-me a favor do BRT não por uma questão de tecnologia e sim porque estava tudo pronto para iniciar sua implantação. Mesmo assim, e quase um ano e meio atrás, já temia pelos percalços jurídico-burocráticos que a obra enfrentaria dificultando sua conclusão em tempo hábil. Não por questão de técnica construtiva. Na China estão construindo edifícios em semanas e no passado, como gosto de lembrar, Brasília foi inaugurada em 3 anos e o Empire State Building foi construído em 451 dias.

Ter defendido o BRT me ajuda a fazer as ponderações que faço hoje. A implantação do VLT não trata apenas de seus vagões, mas envolve toda uma readequação geométrica das vias estruturais de Cuiabá e Várzea Grande, necessárias e urgentes. Há muito tempo se reclama pelo alargamento da Prainha, da FEB e da Fernando Correia, com uma nova ponte sobre o Coxipó e a construção de uma calha exclusiva para o transporte coletivo. Esses projetos integram o pacote do VLT assim como viadutos e trincheiras para solucionar interseções já em colapso. Temendo os problemas que hoje vivemos cheguei a propor em artigo um “plano C” desvinculando essas obras das do VLT, para serem tocadas em caso de problemas com o modal. Ainda bem que as interseções do Cristo-Rei, KM Zero e do Tijucal parecem não correr perigo, pois estariam separadas do VLT. Importante é torcer para que as decisões que serão tomadas agora pelas autoridades competentes não percam de vista a cidade como um todo, sua qualidade de vida e a grande oportunidade da Copa para a solução de alguns de seus maiores problemas.

José Antônio Lemos dos Santos

José Antonio Lemos dos Santos, arquiteto e urbanista, é professor universitário. Troféu “João Thimóteo”-1991-IAB/MT/ “Diploma do Mérito IAB 80 Anos”/ Troféu “O Construtor” – Sinduscon MT Ano 2000 / Arquiteto do Ano 2010 pelo CREA-MT.

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