Odair de Morais faz contos em pílulas

Com o titulo de “Contos Comprimidos – Tweet story” o escritor e professor cuiabano estreia em livro

Este repórter com o escritor Odair de Morais

Este repórter com o escritor Odair de Morais

Por João Bosquo  – O escritor Odair de Morais – também professor da Rede Pública de Mato Grosso e acadêmico de Jornalismo na UFMT – está lançando o seu primeiro livro de contos… “Contos Comprimidos (Tweet story)”. Contos Comprimidos, é bom que se diga, são comprimidos mesmo. Para ser mais exato ainda, comprimidos em 140 caracteres, daí o intertítulo de ‘tweet story’ nos remetendo ao @twitter, uma das redes de maior sucesso no mundo pois o usuário é obrigado a resumir o pensamento apenas e tão somente em 140 letras, ou duas linhas das antigas laudas do antigo jornalismo de papel e máquina de escrever.

“Sempre gostei dessa literatura minimalista, curta, rápida”, diz o escritor. A inspiração de escrever contos curtos – tamanho de um piu – surgiu, claro, do @twitter, já que, como poeta, gosta dos haicais – outra modalidade de literatura com estrutura bem resumida que nos chegou do oriente e que teve como expoente – como nos lembra o professor Odair de Morais – Guilherme de Almeida, que além de transpor o haicai para o português brasileiro, na década de 30, estruturou um sistema de rimas. Hoje, porém, Odair de Morais ressalta que o haicai está mais liberado… Acredito.

Amostra Grátis 01
Jorge trabalha num guichê de rodoviária madrugada adentro. Insone, nos dias folga, inveja os passageiros que cochilam no saguão de espera.

Voltemos aos “Contos Comprimidos”. A ideia inicial era fazer um ‘livro’ diferente da brochura como suporte que o leitor vai ter em mãos. O autor queria fazer pequenos impressos, em forma de comprimidos, que seriam guardados em caixa de ‘remédio’, porém sem bula, da qual o leitor pudesse ler aleatoriamente os contos.

Os custos de produção, porém, adiaram essa empreitada, mas a necessidade de tornar público os escritos obrigaram a enfeixar os escritos na brochura. A edição do livro é uma parceria com a editora Multifoco, do Rio de Janeiro e os livros são impressos sob demanda. O escritor pede uma quantidade de livros – 50, 100, 150 – e vai à luta para vender os livros e depois acerta com a editora, que envia nova quantidade de livros. Interessante, pois o investimento do escritor é divulgar o trabalho.

Amostra Grátis 02
Pacheco é tido como o policial mais sádico da corporação. Em casa, cuida do pai doente, que o espancava na infância.

Por que ler “Contos Comprimidos”? A primeira ideia porque são curtos, leitura rápida, que vem ao encontro desses nossos novos dias, com as pessoas apressadas, ‘sem tempo pra nada’, como gostam de dizer. Semana passada tive a oportunidade de falar aqui, neste DC Ilustrado da poesia de Neneto, que apresentou seus “Tercetos dos N”.

Amostra Grátis 03
Debruçada sobre o balcão, Sofia pensa: Casar pra quê? O filho cresceu. Ela tem seu próprio salário. Amassa o convite de casamento da prima.

“Professor, é o primeiro livro que li inteiro”, em menos de 30 minutos, avisou a aluna do também escritor Odair de Morais, que está lançando o livro. Será essa a realidade do novo leitor, com as mídias sociais predominando? Não sei.

Os contos comprimidos, segundo Odair de Morais, estão reduzidos ao essencial do conto, daí a leitura num piscar de olhos. O leitor, claro, vai ter de preencher as lacunas, como no conto 27, página 41: “Futebol de rua. ‘Calçado ninguém joga. Tira ou vaza’. No meio da molecada, o filho do comerciante aprende a primeira lição no novo bairro.” O narrador não conta a razão da família ter se mudado de bairro. Os negócios não vão bem? Mas se sabe que no outro bairro, o menino, filho do comerciante poderia jogar o futebol de rua calçado o tênis, quem sabe mesmo uma chuteira, o que no novo bairro não se permite.

Amostra Grátis 04
Nascido em Belford Roxo, Cleiton, 19, passeia com uma turista na praia. Varrendo o calçadão de Copacabana, reconhece que se torna invisível.

Alguém poderia criticar a ‘preguiça’ do escritor, mas se esquecer do exercício que foi reduzir toda uma trajetória do personagem em 140 caracteres. Mário de Andrade, certa feita, criticou o romancista Jorge Amado que escrevia de acordo com um ‘realismo socialista’, insinuando uma preguiça literária. Quando da morte do escritor baiano veio a revelação: Jorge Amado escrevia, reescrevia – sem preguiça – para se chegar naquela simplicidade de linguagem que encantou o mundo todo.

Voltemos a Odair de Morais. O livro vem acompanhado de prefácio e notas de orelhas por conhecidos escritores nacionais. Paulo Sesar Pimentel, autor de “Café com formiga”, citando o já citado aqui Mário de Andrade, que disse que “conto é tudo aquilo que o seu autor batiza como conto”. Cesar Pimentel porém destaca a temática social presente em praticamente todos os contos, como no citado acima, o de número 27. “Os oprimidos existem na presença dos opressores e nestas 100 narrativas, à revelia de quem massacra, há vida, há sonhos – todos os sonhos do mundo – e há luta”.

Amostra Grátis 05
Ao ser abandonado, Lúcio, 28, serralheiro, amputou o dedo. Quando pegou a indenização, viajou pra Corumbá. Encontrou a ex morando com outro.

Os outros dois que endossam a literatura do nosso jovem escritor é a crítica literária Noemi Jaffe, que diz que “Odair ouve as falas e os sonhos de quem não tem como ser ouvidos”. Cauê Borges, escritor e ex-operário, afirma que os contos “evidenciam a opressão, a angústia e a exploração, nesta quase sempre mortificante atividade diária que é o trabalho estranhado”.

Amostra Grátis 06
Operário morre ao cair de andaime. O alerta fora dado quando Raimundo, 27, servente, queixou-se por ter sido apelidado de beiçola na obra…

Como nos conta a sua biografia imprensa na orelha da contracapa do livro: “Odair de Morais. Cuiabano, nasceu em 1982. Pai: garimpeiro. Mãe: doméstica. É professor. Escreve nos intervalos. Economiza até nas palavras.” Com trinta e quatro anos, já escreve há algum tempo… Mas essa é uma resenha pra outra hora.

Você, amigo leitor, pode pedir seu exemplar pelo WhatsApp (65) 9.9270-8031 ou pelo facebook.com/odair.d.morais.

Share Button