Oração a Romário

Desista, Romário, o jogo está feio
Não há possibilidade de gol
– dentro ou fora da área –
não existe ataque, apenas defesa

Romário, fique de olho, repara
O técnico não é mais técnico
É um treinador disfarçado
Que insiste, por Deus, em forçar o jogo aéreo

O Brasil sem ti – sabemos – é triste
Mas não existe certeza da vitória
Como não é possível – por isso o futebol
É o futebol – em adivinhar o placar

Repara, Romário, vão te levar
Como se leva na marra, pro sacrifício
Para se ter um cristo para apontar
E dizer que tu és o culpado…

Se vencer – hão de dizer: “nosso esquema”
“nosso trabalho”, ou a melhor de todas
“aquilo que nós pregávamos…”. Mentira!
Esbulho, excrescência, calhordice, apenas

Sei, Romário, queres a glória definitiva
Entrar para o panteão dos grandes heróis
Dos estádios mundiais, escrever de forma
Indelével teu nome nos gramados

És perseverante, Romário, e confias
No teu futebol de boleiro, matador
Que não perdoa quando está na área
De frente para o gol completas
O teatro máximo que a torcida
Amiga e adversária sempre espera

A Copa do Mundo é a consolidação máxima
De todo grande atleta, mas não se iluda
Vão te levar contrariados, pô-lo no banco
Sob a absurda alegação de poupá-lo
E no banco, Romário, jamais deves ficar
Sob nenhum argumento se teu lugar
É nas quatro linhas com a camisa 11

O Brasil, Romário, não tem time
Tem uma defesa formada por vaidosos
Que acreditam soberbamente
Ser os salvadores da pátria

Na hora do aperto vão apontar o dedo
E cobrar -“cadê os gols, Baixinho?”
Esquecendo que não existe meio-de-campo
E querem o centroavante que volte pra apoiar

Fique de fora dessa “roubada”, Romário
Não precisas provar nada
Afirme que quer ir, faça charme,
Convoque a imprensa, mas no minuto final,
Diga que pensou melhor e resolveu
– resolução maior não há –
ficar na arquibancada
ao lado de todos os torcedores,
Verdadeiros amantes do futebol brasileiro.

19/02/2002
Poemas de João Bosquo
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