Os 100 anos de Manuel de Barros, o poeta que “não precisava do fim para chegar”

O primeiro livro que li de Manuel de Barros foi o livro “Livro de pré-coisas”, então editado pela Philobiblion, que estava começando. O ano era 1985, trabalhava no extinto “O Estado de Mato Grosso” e no caderno de cultura publicava uma coluna de release e comentários, obviamente, sobre poetas, poesias e livros. Era um pacote de seis livros, entre os quais o “Livro de pré-coisas”, de Manuel de Barros. Li de uma tacada e o texto da editora foi o destaque no fim de semana, depois disso – como confesso – li pouco Manuel de Barros, três ou quatro livros, alguns estão emprestados.

Manoel José Leite Barros é cuiabano, assim de certidão de nascimento, pois logo após a família se muda para Corumbá, então MT e ele narrou isso com poeticidade: “Nasci em Cuiabá, 1916, dezembro. Me criei no Pantanal de Corumbá. Só dei trabalho e angústias pra meus pais. Morei de mendigo e pária em todos os lugares da Bolívia e do Peru. Morei nos lugares mais decadentes por gosto de imitar os lagartos e as pedras. Publiquei dez livros até hoje. Não acredito em nenhum. Me procurei a vida inteira e não me achei – pelo que fui salvo. Sou fazendeiro e criador de gado. Não fui pra sarjeta porque herdei. Gosto de ler e de ouvir música – especialmente Brahms. Estou na categoria de sofrer do moral, porque só faço poesia”, escreveu.

Manuel Barros começou a esboçar seus primeiros poemas aos 13 anos de idade. Seu primeiro livro, intitulado “Poemas”, foi publicado em 1937, quando o autor tinha 21 anos. Talvez, por conta disso não alterou a grafia do nome, como fora proposto pelo acordo de 1943.

O poeta não era muito afeito à política partidária, mas mesmo assim chegou a integrar o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão, mas por pouco tempo. Desde a década de 1950, conciliava a literatura com a gestão da fazenda que herdou dos pais.

Era considerado um perfeccionista e conquistou os prêmios literários Jabuti (1989 e 2002); Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) (2004); Nestlé (1997 e 2006); Alfonso Guimarães da Biblioteca Nacional (1996) e Nacional de Literatura, concedido pelo Ministério da Cultura ao conjunto de sua obra, em 1998. Em 2000, foi agraciado com o Prêmio Academia Brasileira de Letras, pelo livro “Exercício de Ser Criança”.

Manuel Barros gostava brincar com a importância da poesia: “Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia”.

Trechos de seus poemas são frequentemente citados pela perspicácia e bom humor. Desde que foi internado, dois versos, em particular, estão sendo bastante citados na mídia e em redes sociais: “Não preciso do fim para chegar” e “Do lugar onde estou já fui embora”, ambos da obra Livro Sobre Nada, de 1996.

O poeta Manuel de Barros morreu no dia 13 de novembro de 2014, em Campo Grande.  Ele estava internado desde o último dia 24 de outubro, no Hospital Proncor, devido a uma obstrução intestinal. Segundo a assessoria do hospital, o poeta faleceu devido à falência múltipla de órgãos. A presidenta da República ainda era Dilma Rousseff, a primeira mulher eleita, mas que a misoginia aliada a outros interesses viria derrubar neste triste ano de 2016, ano do centenário. Daí a pobreza da comemoração.

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