Pantanal Shopping retira quadro de Gervane de Paula da mostra “Eu Amo Cuiabá”

Obra traz a frase “crack is wack” (droga é ruim) e mostra pessoas nuas, consumindo droga. Em seguida, repórter na web promove caçada a obras pretensamente pornográficas

Por João Bosquo e Enock Cavalcanti | A censura que começou por Porto Alegre, atacando obras de arte, se espalhou pelo Brasil e chegou agora a Cuiabá. Um quadro do artista plástico cuiabano Gervane de Paula foi retirado da exposição coletiva “Amo Cuiabaá”, realizada no Pantanal Shopping, depois que um cliente reclamou do caráter pretensamente pornográfico da obra, no domingo (17). Ação de censura provocou protestos, mas também tem colhido aplausos nas redes sociais, com o repórter Arthur Garcia, da web TV Kanal 1 capitaneando, em vídeo, uma verdadeira caçada a outras obras que devam ser repudiadas pela chamada “família cuiabana”.

Indignado com o quadro do Gervane de Paula, o cliente do Pantanal Shopping fez um vídeo, que circula pelas redes sociais, criticando o painel da exposição e alertando outros clientes. Para ele, os pais não devem levar as crianças ao Pantanal que seria “um lugar imundo”. No vídeo, ele diz: “Pessoal, eu estou em uma exposição aqui no Shopping Pantanal e aí para vocês verem como o negócio a nível Brasil banalizou mesmo. Dá uma olhada no tipo de quadro que está sendo exposto aqui”, diz o homem. “E se vocês perceberem aqui dentro tem família, com crianças. Então é isso que virou, parece que banalizou o negócio mesmo. Fica aí a dica para vocês não trazerem as suas crianças num lugar imundo como esse aqui não”, completa.

O quadro de Gervane estava sendo exibido dentro de uma mostra em homenagem aos 300 anos da capital mato-grossense e intitulada “Eu amo Cuiabá”. Além de quadros de Gervane, a exposição reúne obras de outros renomados artistas cuiabanos como Adir Sodré, Benedito Nunes, Carlos Lopes, Capucine Picicaroli, Dalva de Barros, Jonas Barros e Ruth Albernaz.

FALA GERVANE – Em declaração ao Hipernotícias, o artista plástico Gervane de Paula disse que ficou surpreso com a censura. Gervane afirmou que o conjunto de quadros tem o objetivo de promover reflexão sobre o mundo das drogas e suas consequências. “As pinturas retratam cenas corriqueiras do mundo das drogas. Em nenhum dos quadros há apologia a nada”, argumentou Gervane. Para ele, a reclamação do cliente demonstra desconhecimento e falta de contato com a arte contemporânea. “Parece que nunca visitou um museu ou uma exposição de arte contemporânea”, critica. “Virou moda agora, né?! Tem tanta coisa para se preocupar. Tem tanta gente para perturbar, o prefeito, o Temer, os políticos, enfim”, disse.

Gervane acredita que o ataque à sua obra pode ter sido influenciada pelo caso recente da exposição “Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, interrompida pelo Santander Cultural, em Porto Alegre, após pressão do Movimento Brasil Livre (MBL) pelas redes sociais.

A assessoria do Pantanal Shopping afirmou que a exposição não é organizada pelo estabelecimento e o espaço é cedido. Disse também que, ao receber a reclamação do cliente, informou o curador da mostra, João Manteufel, que, por sua vez, ficou de conversar com o artista para decidir sobre a retirada da obra do local.

Ainda segundo a assessoria, o quadro pode retornar ao painel, o que até o momento não foi decidido. Caso volte, haverá informativo no local, recomendando a classificação etária. (Com matéria do Hipernotícias)

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João Bosquo

João Bosquo, poeta e jornalista, editor deste blogue NAMARRA.COM.BR
nas redes sociais: @joaobosquo

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