Quando a Comadre Pitu entra na sala

O ator, produtor e jornalista Vital Siqueira é o criador de uma das personagens mais queridas da TV regional mato-grossense

Este repórter em selfie com Vital Siqueira

A Comadre Pitu não é uma invenção, não. Comadre Pitu é concretização da cultura popular, num momento em que a cultura popular está em baixa, quando perdeu todos os referenciais de bom-gosto, do bom-senso e, sim, perda da sua ligação com as raízes de uma sociedade. Comadre Pitu é a afirmação da mais legítima cultura popular da Baixada Cuiabana. Pronto, falei.

Agora vamos falar do criador da Comadre Pitu essa mítica senhora que não tem papas na língua e que, duas vezes por semana, pelo menos, entra nos lares dos mato-grossenses que se ligam no programa regional de maior audiência, que é o jornalista, ator, produtor Vital Siqueira, cuiabano de Várzea Grande – como eu gosto de dizer – e com “parentes espalhados por essa Baixada Cuiabana inteira”.

Várzea Grande, porém dos 44 anos, desde os 6 anos mora em Cuiabá e ainda na primeira infância, quando estudava no Centro Educacional Nilo Póvoas, começou nas artes cênicas, participando das peças teatrais mais efetivamente entre os 13 pra quatorze anos, até que Maria Leonor o chama para participar de um trabalho e aos 14 estreia nos palcos da Teatro Universitário e não parou mais.

Integra-se ao Grupo Andanças de Amauri Tangará, aos 17 anos, e o teatro passa ser mais efetivo na vida de Vital Siqueira que viaja com o grupo que encenava o espetáculo “A Dança dos Tangarás”, participando de festivais pelo Brasil com patrocínio do Ministério da Cultura. Só para se ter uma ideia, o espetáculo “A Dança dos Tangarás” recebeu mais de 20 prêmios.

Paralelamente Vital Siqueira fazia trabalhos com a trupe do Gambiarra, criado por Ivan Belém e mais tarde vai contar também com Mara Ferraz (por onde andará Mara Ferraz?), Claudete Jaudy, Augusto Prócoro, Wagton Douglas, Maria Tereza Prá, Meire Pedroso e Liu Arruda e, nos anos 80, sob o patrocínio da Casa da Cultura de Therezinha Arruda, vai fazer uma pequena revolução cênica com o teatro de rua.

É o teatro de rua, que tem como expoente no Brasil o diretor de teatro Amir Haddad, que vem a Cuiabá e ministra cursos, dos quais a comunidade teatral participa, pois é desse teatro de rua que Vital é apaixonado e Comadre Pitú é filha direta, embora não tenha abandonado o teatro – digamos – mais convencional. “A rua sempre foi o meu palco maior”, afirma.

Essa paixão pelo teatro de rua, Vital Siqueira não sabe explicar muito bem, mas acredita que vem desde os tempos de infância. Ele lembra que o avô Antônio Gomes era pescador e plantava horta na beira do rio e nas noites de lua, fazia uma fogueira e sob uma lona estendida, o velho avô contava histórias para a criançada. “Acho que esse amor pelo teatro de rua, já vem daí”, analisa.

A curiosidade de nosso assíduo leitor, assim como deste modesto repórter, é saber da gênese da Comadre Pitú, que está na mesma linhagem (?) da Comadre Nhára, de Liu Arruda, Comadre Creonice, de Ivan Belém. Vital Siqueira diz que a personagem começa de uma brincadeira de adolescente.

Ele morava no bairro Boa Esperança, na mesma rua que morava a mãe de uns amigos dele, que tinha o apelido de Dona Pindú e a variação foi para não ferir a suscetibilidade… Mas assim que Dona Pindú conheceu a Comadre Pitú ela amou a personagem, segundo o próprio Vital Siqueira. Dona Pindú era uma pessoa simpática, mas cheia de manias, coisa de cuiabano econômico. “Ela era capaz de cortar o cabelo duas vezes no mesmo dia pra aproveitar a promoção”. Ou outra melhor ainda, pegar dois ônibus para ir a Várzea Grande para aproveitar a promoção de costela… Ou entrar numa loja e perguntar o preço de uma blusa. O vendedor diz o preço e ela criticava “Vôte, tá mais caro que roupa no garimpo”. Aos poucos a personagem foi ganhando forma e, no início da década de 80, assumiu e subiu nos palcos e praças e ruas.

Atualmente Comadre Pitú é conhecida por meio mundo da cultura e da sociedade, com suas reportagens veiculadas no programa de TV Resumo do Dia, comandado por Roberto França. Por falar a linguagem e com a cuiabanidade, Vital diz que Comadre Pitú sempre, sempre é bem recebida e as pessoas aceitam esse diálogo para divulgar as coisas de nossa cultura.

Olha, só pra esclarecer. Vital Siqueira faz TV desde os tempos da mítica produtora MBC: M de Malik Didier, B de Bosquinho e C de Chacon, Celson Chacon, que foi professor de meio mundo que hoje anda atuando na telinha.

Além da TV está com trabalho em parceria com a Comadre Creonice e Totó Bodega, “A Virgindade Contestada”, adaptação de um conto de Tereza Albuês feita por Luiz Carlos Ribeiro. Nesse espetáculo conta a história de Flor de Liz, uma porca de propriedade de Creonice que supostamente foi emprenhada pelo porco capado de Totó Bodega, o Pau de Sebo.

Com Ivan Belém tem um outro espetáculo, “Coisas de Comadre”, mais de improviso, pelo tempo de atuação juntos. “A gente combina o roteiro”. Como espetáculo solo, Vital afirma que tem um repertório para 3, isso mesmo, três horas de show, ou seja, três espetáculos, cada um com uma hora, sem repetir uma piada.

Vital conta que está estudando a possibilidade de ainda este ano realizar um espetáculo baseado nas histórias que seu avô Antônio Gomes contava e tem o título provisório de “Memórias de minha infância”. A ideia é reunir Comadre Creonice, Totó Bodega e Comadre Pitú, no palco, para narrar essas histórias que tem variações de tempo e espaço e estão meio que perdidas na memória. Ah!, tem também a atualização do “Paixão Prisioneira” que o incansável Luiz Carlos Ribeiro está preparando. Como se vê, Comadre Pitu não dá sossego.

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João Bosquo

João Bosquo, poeta e jornalista, editor deste blogue NAMARRA.COM.BR nas redes sociais: @joaobosquo

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