Quando o tradicional se torna velho, por Eduardo Mahon

A imagem pode conter: Eduardo Mahon, óculos e barbaPor Eduardo Mahon | Todo mundo já sente na pele o que é a pós-modernidade, mesmo sem saber direito o que ela é, mesmo sem saber exatamente quando começou. Esse tempo pós-moderno é um período de mesclagem, de hibridismo, de incerteza, por um lado, e de acesso facilitado às informações, por outro. Provavelmente por isso mesmo, a ansiedade contemporânea cresça ainda mais – diante do fluxo de informações e da incapacidade de selecionar elementos para uma conclusão lógica. Dificilmente, o pesquisador vai contar com as clássicas convenções de começo-meio-fim para apreciar um fenômeno, já que os movimentos culturais estão cada vez mais interdependentes no tempo e no espaço, impossíveis de serem segmentados como se fazia antigamente. Aliás, a boa e velha lógica cartesiana nunca esteve tão desprestigiada, em tempos em que os velhos e estanques padrões científicos, cada qual organizado numa caixinha, foram misturados no enorme baú da transdisciplinaridade. Pergunto-me: qual a função do rito?, e das instituições? e do patrimônio?, nessa nova e desafiadora era pós-moderna.

Rito e instituição são complementares. O rito dá acesso à instituição, o acesso em patamares de compreensão e de controle. Os ritos de passagem, da puberdade à vida adulta, os ritos de nascimento e de morte, os ritos de caça e alimentares, os ritos de iniciação, os ritos judiciais, os ritos guardam relação estreita com a institucionalização humana, com processos de compartimentalização do conhecimento, de admiração e de domínio. Não há instituição tradicional que não tenha estabelecido o seu rito de ingresso e de exclusão, como forma simbólica de investir e de retirar poder. O rito era tão essencial que a fórmula, as palavras, os atos e os apetrechos tornam-se mais relevantes do que o próprio conteúdo a ser comunicado. O rito é o processo de reprodução simulada, um exercício que se devia fazer para acessar o espaço fechado, o campo sagrado, a instituição tradicional. E hoje? Como nos comportamos com relação ao rito, às instituições e ao patrimônio histórico?

Li recentemente “Culturas Híbridas”, do argentino Néstor Canclini, cujos estudos estão voltados para a compreensão da pós-modernidade, sobretudo na América Latina. Duas passagens me chamaram atenção. A primeira diz respeito aos intelectuais do passado: “ser culto é apreender um conjunto de conhecimentos, em grande medida icônicos, sobre a própria história, e também participar dos palcos em que os grupos hegemônicos fazem com que a sociedade apresente para si mesma o espetáculo de sua origem”. Esse significado é bem conhecido de uma sociedade estável do século passado: os bens simbólicos valiosos eram dominados por poucas pessoas que se projetavam em instituições e nos seus ritos. Ser intelectual era acumular erudição, um repertório exclusivo de certos conhecimentos pouco acessíveis. E qual a relação do patrimônio com esse conjunto de conhecimentos tradicionais? Canclini responde: “a teatralização do patrimônio é o esforço para simular que há uma origem, uma substância fundadora, em relação à qual deveríamos atuar hoje. Essa é a base de políticas culturais autoritárias. (…) Celebra-se o patrimônio histórico constituído pelos acontecimentos fundadores, os heróis que os protagonizaram e os objetivos fetichizados que os evocam. Os ritos legítimos são os que encenam o desejo de repetição e perpetuação da ordem”.

O pensador argentino conclui seu instigante trabalho afirmando que a cultura pós-moderna “não tem sentido nem eficácia como condenação geral do exógeno; deve ser concebida agora como a capacidade de interagir com as múltiplas ofertas simbólicas internacionais a partir de posições próprias”. A palavra de ordem é interação. Nesse sentido, recordo o francês Michel Maffesoli, outro excelente pensador das ciências sociais, que afirma com muita convicção as novas formas fragmentárias de agrupamento social, novos símbolos, novos comportamentos rituais. Isso tudo para indicar que, não havendo interações do velho patrimônio nobiliárquico, dos velhos ritos, se não houver partilha do capital simbólico tradicional com as novas tribos, essas instituições não passarão de depósitos para objetos e ideias obsoletas, perderão completamente o significado ou simplesmente serão compreendidas como carcaças vazias sem qualquer representatividade.

O patrimônio histórico serve para oportunizar vivência coletiva. Se não for assim, não serve mais para nada. É exaramente nesse momento que o tradicional se torna velho. As instituições tradicionais, para se manterem vivas, devem dialogar abertamente com a juventude, com novos segmentos sociais que nunca entraram nesses espaços de poder. Em nome da própria legitimidade, é preciso sacrificar ritos vazios por outras fórmulas cujos significados sejam reconhecidos por uma nova geração. Quem queira teimar com o tempo e, sobretudo, com uma era tecnológica cuja fragmentação é a tônica, vai ficar falando sozinho para um palco sem público, mumificado em convicções aristocráticas que não fazem mais o menor sentido.

Eduardo Mahon é advogado e escritor.

 

 

 

 

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