Que cidade queremos? Que cidade teremos? [1]

Os recursos que estão vindos para Cuiabá, e as obras deles decorrentes, sem dúvida modificarão definitivamente a face da cidade. Mas, para além das preocupações mais imediatas que estamos vendo diariamente seja do uso dos recursos, das desapropriações que se farão e, sobretudo se teremos o VLT ou o BRT, a questão central, a meu ver, não foi colocada. O fulcro do problema é: que cidade queremos que a quase tricentenária Cuiabá se torne? Ou, perguntando de outro modo: em que cidade aspiramos a viver nos próximos anos?

Esta indagação, lamentavelmente, não se fez presente com tanta insistência ao longo das últimas décadas. Nos anos finais da década de trinta do século passado certamente ela se colocou perante alguns com a vitoriosa visão de estadista que teve Júlio Müller ao querer consolidar a cidade como a capital definitiva de Mato Grosso. Com efeito, as chamadas Obras Oficiaes estabeleceram o marco para uma Cuiabá que se queria modernizar, num contraponto com a então pujante Campo Grande, permanente rival na disputa para ser a cabeça do Estado. Esta questão igualmente não foi colocada com a veemência necessária por ocasião da divisão do Estado e do novo remanejamento urbano representado pelo CPA. Estes foram, a meu ver, dois momentos decisivos da nossa história contemporânea, comparável talvez ao ano de 1835, quando, no dia 28 de agosto, o presidente da Província Antônio Pedro de Alencastro assinou a Lei nº 19 transferindo a capital. Direi que desses dois momentos marcantes, o segundo foi perdido. Agora, com a excepcional oportunidade do aporte de significativos recursos proporcionados pela realização de alguns dos jogos da Copa do Mundo outro momento decisivo na nossa história urbana surge inesperadamente. Portanto, questões vitais deveriam estar sendo colocadas diante desse horizonte. A idéia de um novo urbanismo, de uma cidade sendo redirecionada para outro futuro deveria estar ressurgindo. Perderemos ou não esse momento histórico?

Esta série de curtos artigos pretende trazer uma modesta contribuição para um debate que já tarda.

As perguntas que nos devemos fazer são: as melhores opções para o futuro da cidade foram, e estão sendo, feitas? Qual o perfil urbano passará a ter nossa capital com essas obras? Uma discussão deveria nascer e tomar fôlego diante de uma questão central e fundamental: qual o melhor futuro para a cidade e para aqueles que nela vivem o seu cotidiano? Enfim, que herança estamos deixando para aqueles que virão depois de nós?

Estamos afinal discutindo tais questões, que nos dizem respeito a todos? Temo que não. Posso, porém estar enganado e as discussões estarem acontecendo nos mais diferentes setores governamentais. Mas onde então? Se porventura os escalões oficiais estiverem envolvidos numa imperiosa macro discussão sobre o futuro de Cuiabá será proveitoso que a tragam para a participação dos simples mortais, meros pagantes de impostos. O impacto que se pretende com as obras e o volume de recursos anunciados por certo mudarão o perfil da cidade. E isso nos diz respeito a todos. Neste sentido, um amplo debate sobre o futuro da cidade teria, forçosamente, forte elemento pedagógico.

Em que direção caminhará a cidade com as obras que serão feitas para a realização dos três ou quatro jogos da Copa do Mundo? Lamentavelmente, não está havendo um debate em torno do futuro de Cuiabá. Existem, no máximo, conversas, e conversas encolhidas, restritas e restringidas. O cidadão não participa, embora seja ele quem pagará a conta final, será ele quem, nos anos futuros, viverá numa cidade que, talvez, não seja mais a cidade de seus sonhos.

Sim, eis a questão: em que tipo de cidade viveremos? A resposta, no entanto, a essa pergunta só será possível se estivermos empenhados em responder a uma outra: que cidade almejamos ter?

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Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado, professor e historiador. Membro do Instituto dos Advogados Brasileiros (RJ)

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