Que cidade queremos? Que cidade teremos? [2]

Uma cidade não pertence aos seus governantes. Estes são apenas os gestores transitórios das suas mazelas e das suas belezas, por mais que se agarrem aos cargos, por mais que queiram acreditar de modo diverso. Governantes e cidadãos deverão ser parceiros na longa jornada da construção diária da cidade. Talvez seja oportuno mais uma vez parafrasear o primeiro-ministro francês no período da guerra de 1914. Não sei se foi Poincaré ou Clemenceau quem disse que a guerra era um assunto tão sério que não poderia ficar nas mãos dos militares. Pois, repitamos: a preocupação quanto ao futuro de uma cidade é assunto tão sério que não pode ficar a sob responsabilidade exclusiva dos eventuais detentores de cargos públicos. E quando acontece um fato de grande relevância como é essa inesperada alocação de recursos públicos, os cidadãos não podem se comportar como se estivessem assistindo a um desfile de escola de samba, distantes e omissos. A intervenção popular, por mais sábios que porventura se julguem os administradores e representantes políticos, se faz necessária. Pois digo, também, que a sabedoria desses governantes estaria em convocar o povo para ser co-participe desse grande debate. As autoridades do alto dos palácios têm a nobilíssima tarefa de facilitar e estimular a participação de quantos se acham motivados e interessados no futuro de sua cidade.

As universidades, as escolas, os sindicatos e associações, as entidades representativas dos diferentes segmentos sociais deveriam estar envolvidas no grande debate: que cidade queremos? Seria igualmente oportunidade única para o exercício da mais legitima Democracia. Os gregos, inventores desse insubstituível sistema de governo, convocavam seus cidadãos à Àgora e nela decidiam seus destinos.

Democratizar o país não é somente a participação eleitoral, nem se deve encerrar com a eleição da elite dirigente. A Democracia é construída no dia a dia, nas questões levantadas que nos afetam do raiar ao cair do sol. Não participar da discussão sobre os rumos da cidade é como concordar em ser alijado da discussão sobre o seu próprio futuro. E a população, o cidadão comum, não pode aceitar isso passivamente. Depois, de nada adiantará o choramingo.

Mas devo registrar que não vejo apenas o cidadão comum como estando distante desse contexto. Igualmente me assusta a quase total ausência da Prefeitura na participação de decisões vitais para o município. Até agora o governo do Estado tem sido o único protagonista em todas as iniciativas. É uma lamentável e inexplicável omissão, pois a intervenção urbanística se faz na capital, e ainda que o executivo estadual tenha inegável importância, caberia, no entanto, ao governo do município uma intervenção de relevância em todo esse processo.

Não se há de questionar se a realização das obras específicas exigidas para a concretização do mega evento será boa ou não para Cuiabá. Indiscutivelmente o volume de recursos que para cá será carreados num curto espaço de tempo representa, com certeza, o maior aporte econÃ?mico-financeiro já realizado em nossa capital. E isso, sem dúvida, é muito bom. Ninguém é louco para recusar dinheiro, mas a indagação é inevitável: qual o preço final disso?

E há de se perguntar igualmente: além das obras específicas exigidas para a realização da Copa, que benefícios outros terá a população? Exatamente: além do estádio, do sistema de transporte, de aberturas e alargamento de algumas vias, que benefícios, ao longo dos anos, terá o cidadão, particularmente aquele mais periférico da sociedade? Portanto, o que se deve questionar é o caráter dessas obras, ou seja, as opções urbanas feitas em razão delas.

Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado, professor e historiador. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.

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