Que cidade queremos? Que cidade teremos? [Final] – artigo de Sebastião Carlos

Então, estas questões elementares, sobre se Cuiabá está sendo devidamente preparada para atender ao seu crescimento demográfico e a todas as demandas sociais, econômicas, ambientais, que virão após a realização da Copa, precisam ser respondidas. Enfim, passada a euforia atual, terão sido criadas as condições ideais de qualidade sócio-ambiental e da melhoria dos serviços públicos para aqui se viver dignamente?

Longe de mim querer discutir aspectos os mais variados e complexos que envolvem a questão do que seja uma cidade ideal. Muito menos em um artigo, necessariamente sucinto como este. Creio, não obstante, ter uma visão que não destoa, em substância, daquela de quantos se debruçaram, ao longo dos anos, sobre o que é uma cidade e qual a sua função e sua importância para aqueles que a habitam. A reflexão sobre esse tema abrange, além do âmbito da Arquitetura e do Urbanismo, também os campos da História, da Sociologia, da Filosofia e do Direito. E, se me permitam, da poesia. Em outras palavras, quero dizer que esse debate não deve, nem pode, ficar adstrito aos governantes ocasionais. Embora as decisões administrativas sejam antes decisões políticas, é unânime consenso que elas precisam ser embasadas em fundamentos estabelecidos a partir daquelas ciências. Assim foram as melhores decisões tomadas na história recente do urbanismo, em todo o mundo.

Um mapa das discussões sobre urbanismo realizadas nos dois últimos séculos traz para o debate figuras que vão de Ildefons Cerdà, um dos fundadores do urbanismo moderno, que no século dezenove modernizou Barcelona, passa por Le Corbusier, Lewis Mumford até chegar aos nossos Lúcio Costa e Milton Santos, sem se falar em Fustel de Coulanges que em seu clássico A Cidade Antiga traçou a distinção entre cidade e urbe havida entre os antigos. Referência imperiosa neste contexto se faz ao manifesto urbanístico que resultou do IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna realizado em 1933, na Grécia, e que ficou conhecido como A Carta de Atenas. Nela se lançou os conceitos da chamada Cidade Funcional, que viriam a influenciar a reconstrução de cidades européias após a Segunda Guerra e que praticamente basilou a criação do Plano Piloto de Brasília, elaborado por Lúcio Costa. Contemporaneamente, os teóricos discutem as bases do que se convencionou chamar de Novo Urbanismo.

De todo modo, teorias à parte, o que, em síntese, se busca na cidade em que se vive é a qualidade de vida representada pelo trabalho digno, pela boa saúde, pelo meio ambiente saudável, pela possibilidade de acesso à cultura, ao estudo, ao lazer. Em outras palavras, buscamos, todos, a felicidade.

Escrevi em um poema “uma cidade nasce antes / na imaginação / e é filha de sentimentos /menos que fruto da razão”. São esses sentimentos que nos fazem ficar numa cidade, e é a imaginação, a saudade que a ela nos obriga há retornar quando muito tempo dela ficamos distantes. Antes que da Pátria, a saudade do exilado, do desterrado, do condenado está voltado para a cidade, o bairro, a rua em que vivia. A cidade que mais se ama, e na qual se quer viver e morrer não é necessariamente a cidade natal, mas aquela na qual se vive feliz e com dignidade, aquela em que os amores e a vida se construíram, enfim, em que, ainda que por breve período, se palmilhou o caminho em busca da felicidade. Neste sentido, a cidade em que se nasceu é mais um conceito geográfico do que uma realidade fática ou afetiva. Daí que nem sempre aquele que nasceu numa cidade é aquele que mais a ama, tampouco a cidade é mais amada por aquele que mais está dela tirando proveitos materiais.

Voltemos à indagação inicial: o que estamos fazendo hoje para que a nossa Cuiabá se torne na melhor cidade, naquela em que ainda haveremos de passar os nossos melhores dias, na cidade que temos na imaginação como o lugar ideal para se viver e morrer?

Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado, professor e historiador. Membro da Academia Mato-Grossense de Letras. Publicou: Pássaros Sonhadores, entre outros./ / cg.carvalho@uol.com.br

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