Reboot no Concurso MT Literatura: sob pressão a SEC resolve cancelar o edital com a promessa de edição de um novo, nesta sexta-feira, 30

Entrega dos prêmios aos vencedores do 1º MT Literatura - Foto: Junior Silgueiro/Gcom

Entrega dos prêmios aos vencedores do 1º MT Literatura – Foto: Junior Silgueiro/Gcom

Um novo edital do 2º Prêmio MT Literatura será publicado nesta sexta-feira, 30, dois dias depois da data anteriormente programada para divulgação dos vencedores. O ‘velho’ edital, publicado em 15 de junho, foi remendado com quatro – isso mesmo quatro – editais anexos para tentar sanar os problemas encontrados. Mas só depois de ter sido bombardeada nas redes sociais por escritores e pela entidade máxima da cultura, a Academia Mato-grossense de Letras, a Secretaria de Estado de Cultura (SEC), com o rabo entre as pernas, resolveu rever os seus conceitos.

No início da noite de quarta, 28, os gestores da cultura mato-grossense, através da secretaria, emitiram o seguinte comunicado: “Para efeitos de publicidade e transparência, a SEC informa que um novo edital relativo ao 2º Prêmio Mato Grosso de Literatura será publicado no Diário Oficial do Estado de Mato Grosso e no site da SEC/MT nesta sexta-feira (30.09)”. Segundo a nota, “a decisão se dá em virtude do edital não ter sido publicado na imprensa oficial do Estado conforme determina o artigo nº 21 da Lei 8.666/93”. Ao mesmo tempo em que pede “desculpa por eventuais transtornos que possa ter causado a todos aqueles que participaram do edital e se mantém a disposição para quaisquer esclarecimentos que se fizerem necessários”.

O comunicado, porém, não consegue abafar a polêmica que movimentou as redes sociais e levou a presidente da Academia Mato-grossense de Letras, a escritora Marília Beatriz de Figueiredo Leite a conceder uma entrevista a uma emissora de TV local, na qual declarou que a “a academia estava indignada” com os caminhos adotados pelo MT Literatura. Segundo Marília Beatriz, “se você rechaça 60% dos inscritos, isso significa retrocesso”, disse à emissora.

Essa foi a questão que bombou na internet cuiabana. O alto número de inabilitados por conta da não entrega dos “documentos comprobatórios de identidade e dois anos de residência” em Mato Grosso. A reação corporativa foi imensa – e sobraram “elogios” para o maestro Leandro Carvalho e seus comandados.

A escritora e acadêmica Cristina Campos foi a primeira a questionar o sistema de inscrição. Segundo ela, o edital original não falava nada sobre a questão da residência, quando foi publicado o segundo edital de retificação em 27 de junho, na sequencia outro, o terceiro, mudando a redação do anterior e finalmente o quarto, mudando novamente o calendário, agora com a data de 28 de setembro para a divulgação. Esses editais, porém, nenhum deles foi publicado, como lemos no comunicado, no Diário Oficial, portanto, não valiam nada.

Tudo isso poderia, sim, ser relevado, afinal é apenas um concurso, mas a SEC e sua comissão julgadora foi severa demais com os inscritos, inabilitando praticamente dois terços dos interessados. Nessa semana em que novo filme de Tim Burton aporta nos cinemas cuiabanos, podemos dizer que houve uma exclusão monstro. Dos 90 inscritos 59 foram recusados, por não cumprirem as tais formalidades, dignas de um conto de Kafka. Ai começou a chiadeira.

A escritora Cristina Campos e o escritor Eduardo Mahon acusaram uma questão mais grave. Foi a impossibilidade de anexar os documentos no sistema da secretaria.

Segundo Cristina Campos, o sistema de inscrição não aceitava a anexação dos documentos que o edital pedia. Foi orientada pelos servidores da secretaria que efetivasse o cadastro e na hora da análise técnica a comissão a chamaria. O tempo passou, para sua surpresa, foi considerada inabilitada e mesmo entrando com o recurso não foi aceita a sua inscrição. Cristina Campos passou a questionar o nível do resultado, já que o mesmo não iria refletir “a riqueza da produção literária de Mato Grosso”, afirma. A pequena, mas ativa intelectual mato-grossense estava pê da vida.

Mahon disse que chegou a ligar para a Secretária Adjunta Regiane Berchieli alertando não haver campos separados para certidões e documentos pessoais. Segundo ele, a adjunta o passou para conversar com um técnico em informática que o orientou a converter tudo em PDF e enviar em duas janelas diferentes – a obra em si e os documentos, mais as certidões. No emaranhado digital, Mahon se viu à beira de um ataque de nervos, no melhor estilo Almodóvar, desta vez misturado com os delírios de Edgar Allan Poe.

“Evidentemente que cumpri todos os passos e me informei diretamente com a SEC. Ainda assim, a Secretaria informou que meus documentos não chegaram”. Essa questão, como vemos, não foi abordada no comunicado.

Agora, na véspera da sexta-feira, 30, para quando está sendo anunciado o reboot (reinicio) do MT Literatura, o escritor, advogado e polemista que acha sempre um jeito de mergulhar apaixonadamente nas polêmicas, festeja o anúncio do cancelamento do Edital do 2º Prêmio MT de Literatura em sua página do Facebook. “A providência administrativa de rever os próprios atos mostra humildade dos gestores que repararam o erro em tempo hábil, não resultando nenhum prejuízo para o meio literário mato-grossense. Parabenizo-os pelo gesto, portanto. No mais, meu aplauso para Cristina Campos e Marilia Beatriz Figueiredo Leite que capitanearam a defesa de todos os autores excluídos por falhas no sistema de inscrição. Tenho certeza de que o Prêmio MT de Literatura manterá íntegra a credibilidade da primeira edição”, escreveu. Quer dizer, a SEC recuou e os intelectuais estão entendendo que a vitória é deles.

Luiz Marchetti, cineasta, mestre em design em arte mídia, atuante na cultura de Mato Grosso, fez um print de um texto de sua autoria no Circuito-MT, no qual elogia o Sesc Arsenal e por vias transversas ‘rufa’ a lenha o processo da SEC: “Os servidores do SESC Arsenal trabalham sem o dom oficial de desprezar os profissionais. Esse tipo de moagem-fetiche tornou-se anomalia em alguns territórios que deveriam nos representar e hoje distorceram transparência para feroz detalhismo, inviabilização e, consequentemente, em desprezo. Diversos profissionais evitam esses espaços, seus editais e a antipatia que conquistaram com seu Modus operandi. Regras exageradas e minuciosas buscas de erros em editais num Estado com tão poucos projetos (pouquíssimos, sim senhores) é a doença que gera essa aridez de ineditismo, sangue novo e jovens artistas na nossa agenda cultural. A maioria dos artistas de Mato Grosso ainda sonham em fugir deste lugar ou mudar de carreira”.

O editor de uma das principais editoras de Mato Grosso, Ramon Carlini, da Carlini & Caniato, também achou positiva a decisão da secretaria de Cultura. “Achei democrática a decisão da SEC. Louvável! Se houver novo edital, torço para ter centenas de inscritos!”.

A questão que fica é se a SEC – por meio de seu TI – resolveu o problema de anexação dos documentos? Ou surgirão novos critérios? Só vendo o novo edital, nesta sexta, para conferir e talvez, finalmente, sorrir.

PS. Este repórter, que também tem mania de ser poeta, se inscreveu no referido concurso, por isso mesmo relutou em fazer qualquer matéria sobre o assunto antes da data prevista para a divulgação do resultado, que seria na quarta-feira, 28. Mas como se viu, a polêmica acabou impondo a pauta.

Fonte: DC Ilustrado

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