Renato Anselmo abre o coração e diz que já leu Dom Casmurro

O novo secretário Cultura de Cuiabá dá continuidade aos trabalhos e diz que a Casa Barão de Melgaço já está pronta para ser entregue à AML

O novo secretário de cultura do município de Cuiabá, ufa!, começa a dar as caras. Foram semanas de espera para acontecer uma rápida entrevista pra fazer um perfil do titular que comanda as políticas de cultura, turismo e esportes cuiabanos. Afinal, quem é Renato Anselmo Vilela? E nada melhor que perguntar ao próprio Renato Anselmo, que até anteontem era um ilustre desconhecido, quando se supõe que os gestores sejam reconhecidos pelos seus pares, principalmente na Cultura, onde uma fauna infinita de egos se manifesta até ante um espirro desafinado.

Os espirros não foram poucos quando o prefeito Emanuel Pinheiro anunciou o nome de Renato Anselmo como futuro titular da pasta de Cultura, Esporte e Turismo, 29 anos, formado em Turismo, graduado em Administração e atualmente estudando Direito na Unic Pantanal… Bom, como a pasta é mista – e sua formação tem lá turismo, além de administrador, o seu nome foi escolhido entre outros cinco indicados pelo partido PRP, o Partido Republicano Progressista, que segundo consta fez parte da coligação do candidato a prefeito.

Tem pessoas que – volta e meia – condena essas partilhas de poder na administração e gosto de lembrar-me de Waldir Pires, que tem uma das mais belas histórias na política nacional, que foi ministro de Estado, governador da Bahia, deputado federal e candidato a vice de Ulysses Guimarães e até o ano passado era vereador em Salvador, quando questionado sobre cargos para alguns dissidentes do Carlismo (de ACM, o original) ele respondeu: “Ora, eles me ajudaram a me eleger, nada mais justo que me ajude a governar”. Matou a charada.

Voltemos ao nosso secretário de Cultura, Turismo e Esporte. O titular da pasta é cuiabano, quando nasceu a família morava no bairro Quarta-feira, que vem anos mais tarde mudaria a denominação pra Bairro Alvorada e foi criado no orador do bairro Jardim Novo Paraíso, na região Norte da capital, onde continua morando…

Como chegou a indicação pelo partido? Renato Anselmo diz que sempre – desde os 16 anos – vem militando no campo político, como coordenador, “mas sempre deixando a vontade pessoal para fazer vontade de outros. Quando em 2016, Deus deu oportunidade de ser candidato a vereador”, comenta. Como sexto suplente, com 1075 votos ajudou na eleição de Lilo Pinheiro e Orivaldo da Farmácia.

Renato Anselmo confessa que nunca atuou – que tenha trabalhos – na área cultural: músico, pintor ou mesmo poeta. “Nunca atuei diretamente no segmento cultural, mas sou cuiabano, cresci aqui e conheço a nossa cultura”, e lembra que como líder comunitário, presidente de associação de moradores, desenvolveu vários projetos voltados para a cultura.

“Estamos trabalhando. Estamos buscando o conhecimento, ouvir todos os segmentos da cultura para que assim possamos desenvolver o nosso trabalho”, disse.

O radialista Roberto França, em seu programa “Resumo do Dia”, líder na cuiabanidade, foi a principal voz que externou criticas à postura do secretário que durante o carnaval não aparecia na mídia e chegou dizer que era o secretário invisível, o que o secretário não concorda. Pois diz que está sim tendo visibilidade na mídia e nas redes sociais.

Essa visibilidade, ou invisibilidade, ela é compartilhada. O secretário diz que os secretários adjuntos, Júnior (que comandou o carnaval cuiabano) e Marcus Fabrício, no turismo, estão aptos a dar entrevistas. “Todo mundo que trabalha vai aparecer, não apenas o secretário”, disse.

Os trabalhos que estão sendo desenvolvidos e promovendo a visibilidade na mídia e nas redes sociais são – entre outros – a retomada do projeto “Bom de Bola, Bom Escola”, iniciado justamente na gestão do ex-prefeito Roberto França e chegou a ser um projeto referência nacional reconhecido pela CBF; na área do esporte. Na cultura, o secretário informa que no PAC Cidades Históricas, com o qual Cuiabá foi contemplada com recursos para 16 obras, entre as quais a reforma e revitalização da Casa Barão de Melgaço, sede da Academia Mato-grossense de Letras e Instituto Histórico e Geográfico. A obra já está conclusa. Faltam apenas os ajustes burocráticos dos aditivos para poder entrega das chaves à presidente Marília Beatriz.

E o perfil cultural, deve estar questionando o leitor mais atento. Pois ficou apenas na intenção. A ideia do perfil é fazer um ping-pong rápido, com apenas sugestões genéricas para conhecer o gosto de cada um. O repórter dita, por exemplo, “livro”, para que o entrevistado responda qual a obra que foi mais marcante, que pode ser um romance, um livro de autoajuda, místico, enfim, ao qual o nosso secretário respondeu “leio bastante”, incluindo nesse bastante as leituras do curso de direito que está fazendo. Qual foi o último romance? Nenhum. O único que citou foi “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, mas não entramos na questão se Capitu traiu ou não traiu Bentinho. Livro regional? Ele diz que está lendo a obra de José Augusto Tenuta, “Cuiabá de Tchapa e Cruz”, de memórias e histórias cuiabanas.

Três avaliações sobre o homem da Cultura de Cuiabá

Mário Olímpio, gestor cultural, que também já ocupou a pasta de Cultura no município, na gestão do ex-prefeito Wilson Santos, diz que ainda não teve o prazer de conhecer o novo secretário de cultura de Cuiabá, Renato Anselmo. “Mas, isto não é problema algum. Com certeza, terei essa oportunidade ao longo da sua gestão. É muito cedo para fazer qualquer juízo de valor. Prefiro voltar à falar no próximo carnaval”.

O escritor e jornalista Rui Matos, autor de “Agnus Dei – No Mar de Água Doce”, diz que espera que o novo secretário de Cultura de Cuiabá, “trate a cultura a cultura de forma universal e que não seja uma Secretaria de Cultura voltada apenas para a literatura, ou para a música, ou para as artes plásticas. Precisamos de uma secretaria que olhe para a cultura como um todo, sem privilegiar este ou aquele segmento, como já vimos em outras situações”. Ele pede que olhe também o que está sendo produzido nos distrito e bairros periféricos. Mas ressalva que será difícil pois a cultura sempre foi escassa de recursos.

Eduardo Mahon, escritor, poeta, contista e polemista, diz que “falar sobre quem não se conhece é ingrata. O prefeito Emanuel Pinheiro que, em último caso, é o responsável por formar a equipe, deveria atentar para a proximidade do jubileu do tricentenário da capital. Imagino que ele ainda fará uma grande convocação à cuiabania e instituições tradicionais para que o possam auxiliar. Quanto ao Secretário, desejo boa sorte. É o que posso (ou nem posso) falar sobre a indicação que me parece de natureza essencialmente política, mais para atender partidos do que artistas”.

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João Bosquo

João Bosquo, poeta e jornalista, editor deste blogue NAMARRA.COM.BR nas redes sociais: @joaobosquo

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