Reunião sobre a mostra “Liberdade: Mostra de Cinema Negro” não põe fim à polêmica; aliás, incendeia o debate, e evento é adiado pela SEC

Por Amanda Nery

O secretário Leandro Carvalho não esteve presente na reunião e foi representado pela secretária adjunta Regiane Berchieli. Segundo a SEC, ele está viajando a serviço. Aguardamos novo convite para uma reunião onde o secretário esteja presente.

Amanda Nery - Foto: Facebook

Amanda Nery – Foto: Facebook

Foi realizada ontem no Palácio da Instrução uma reunião convocada pela Secretaria Estadual de Cultura de Mato Grosso a respeito dos questionamentos levantados nas redes sociais sobre a Mostra de Cinema Negro, evento promovido pela SEC com um pequeno número de convidados negros e mesas de debates com convidados brancos intituladas de “DEU BRANCO”. Apesar da justificativa dada por João Manteufel – responsável pela curadoria dos filmes e dono da empresa licitada para fazer a cobertura do evento – esse nome não foi apenas uma brincadeira que não foi entendida. Será que se agentes culturais negros tivessem sido chamados para sugerir a programação esse nome infeliz teria sequer chegado a ser cogitado? Além do nome, gostaria de apontar o extremo mau gosto do vídeo de divulgação publicado na página da Donamaria Produções. Isso é reflexo de um completo despreparo para o diálogo com as minorias. Foi uma reunião tensa que pensamos ter acabado bem mas acabou com uma demonstração ainda maior de ignorância, intolerância e racismo de João Manteufel que descreverei mais adiante.

Estiveram presentes representantes de movimentos sociais, agentes culturais, povos de religiões de matrizes africanas que tiveram a chance de expor toda sua insatisfação com o descaso (falta de politicas publicas) com que a cultura negra vem sendo tratada de forma geral e não apenas nesse evento. Não aceitamos que um servidor negro, o único negro representando a Secretaria naquele espaço, seja responsabilizado por tudo. Os presentes na reunião pediram que o evento não seja cancelado, queremos que ele seja reformulado com a presença de profissionais negros para que ele realmente seja uma via de empoderamento do povo negro e sua cultura.

O secretário Leandro Carvalho não esteve presente na reunião e foi representado pela secretária adjunta Regiane Berchieli. Segundo a SEC, ele está viajando a serviço. Aguardamos novo convite para uma reunião onde o secretário esteja presente.

Parece óbvio, mas ainda assim tivemos que apontar que a maior problemática da Mostra de Cinema Negro foi que ela não foi organizada por negros. Depois de muita discussão começamos a sugerir nomes e obras que nos contemplavam e a inclusão de eixos temáticos como a produção independente, a representação feminina entre muitos outros. Entrou-se então em um consenso com os presentes de que seria criada uma nova programação, com uma construção coletiva de através de um grupo de trabalho criado pela SEC com a participação aberta para que essa possa haver uma real representatividade.

Agora eu gostaria de relatar algo muito grave que aconteceu após a reunião. Quase todas as pessoas haviam ido embora e algumas poucas ainda estavam presentes para reunir tudo que foi anotado como sugestão para a programação. Nesse momento, João Manteufel disse de modo grosseiro e autoritário ao André Eduardo de Andrade que aquela programação teria que ser finalizada até o meio dia de amanhã, um completo absurdo! Os ânimos se exaltaram e o João colocou o dedo na cara do André e levantou o tom de voz. Nesse momento, eu me coloquei fisicamente entre os dois e gritei, berrei, urrei que não admitia que NINGUÉM humilhasse com um negro na minha frente. Ele então colocou o dedo na minha cara, me intimidou dando tapinhas na própria cara e me desafiando pra eu bater. Escrevendo isso agora a cena me parece ainda mais patética. Continuou gritando e avançando cada vez mais perto até outras pessoas intervirem. Um segurança chegou a ser chamado. Acho que a última vez que senti minhas mãos tremerem foi há quatro anos durante o velório de minha mãe. Mas não recuei. Porque eu não vou mais admitir isso. Nenhum de nós vamos.

Quero repetir aqui a mesma coisa que repeti à professora Adriana Rangel quando ela, depois de presenciar a cena, me perguntou como eu poderia chamá-lo de racista se não sabia quem ele era nem conhecia sua obra: O que importa quantos filmes ele tem no currículo? O que importa sua obra? NINGUÉM tem passe livre pra ser racista. E eu vou repetir: racista. Que palavra mais usar para descrever uma pessoa que tem a cara de pau de me telefonar e justificar a ausência de negros na programação porque não encontrou obras de cineastas negros em MT e que Dia da Consciência Negra nem deveria existir? Que é tão ignorante a ponto de se referir a um homem negro como “negão” em uma reunião para discutir racismo? Que quando confrontado com seus erros começa a listar todos os negros com quem já trabalhou e tem amizade, as negras com que se relacionou? Doeu ver esse homem ser “defendido” por uma professora do mesmo curso onde aprendi a importância da empatia, do respeito à identidade e do espaço do outro. E antes que questionem a veracidade dos fatos quero deixar claro que a cena foi presenciada por dois servidores da SEC (representantes da assessoria de imprensa e audiovisual), o cineasta Wuldson Marcelo, as produtoras Juliana Segóvia e Nerieli Dantas e meu sócio Victor Felipe Peres. Eu quero saber onde estava essa braveza quando a sala estava cheia de gente.

É um racismo tão escancarado e grotesco que muitas pessoas se assustaram mas isso não é uma fatalidade, é uma tragédia anunciada. Se não há espaço para diálogo das pautas da negritude dentro da Cultura nós continuaremos dando espaço para essas e outras violências! Dessa vez o racismo foi escancarado mas quantas vezes temos as portas fechadas para nós cotidianamente? Eu não tenho formação na área, MBA, doutorado, trabalho premiado nem contatinhos. Trabalho há apenas dois anos como produtora cultural em Cuiabá e nunca expressei publicamente a críticas a essa gestão mas eu nunca vou me esquecer que na primeira vez que questionei algo tive que passar por tudo isso… fui acusada de ser desequilibrada, querer “derrubar” o secretário, de praticar “racismo reverso”, de estar exagerando, de fazer parte de partido político X ou Y. Tudo isso porque eu ousei perguntar: “Mas por que tão poucos negros?”.

*Amanda Lúcia Nery é coordenadora do Movimento Rota

Fonte: REPASSES DA REUNIÃO SOBRE A “LIBERDADE: MOSTRA… – Amanda Lúcia Nery

LEIA A NOTA DA SEC

Mostra de Cinema Negro será prorrogada para nova data

Assessoria | SEC-MT 

A Secretaria de Estado de Cultura comunica que o evento “LIBERDADE: MOSTRA DE CINEMA NEGRO”, que seria realizado no período de 15 a 19/11/2016, será prorrogado para uma nova data, em razão da reorganização de sua programação proposta pelo movimento negro e agentes do setor do audiovisual em reunião aberta no dia 11/11. Informamos que a SEC continuará trabalhando de forma integrada com os segmentos envolvidos para a finalização da nova programação.

 

Namarra

Matérias, notas que nós (eu e Meu Peixe) gostaríamos de escrever e observações diversas.

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