Riscos da imobilidade – artigo de José Antônio Lemos

Entendemos que dentre as grandes vantagens da Copa para Cuiabá, a maior de todas é a chance de uma inédita concentração de investimentos públicos e privados na cidade. Tão grande que mesmo que se realize bem menos do que o projetado já será muito mais do que se poderia prever para as próximas décadas, em especial da parte dos cofres públicos. A iniciativa privada vem respondendo bem com um número recorde de obras no ramo imobiliário, fábrica de cimento, ampliação de shopping, resort e diversos novos hotéis. E poderia ser muito mais se houvesse correspondência por parte dos governos, ao menos em termos de transmitir confiança no desenvolvimento dos projetos de suas responsabilidades, que afinal, são os maiores, os estruturantes e definidores da cidade para o grande evento. É triste, mas já saltamos da situação preocupante para a de grande preocupação e agora chegamos à situação de alarme quanto às intervenções públicas relativas a alguns dos projetos aguardados como os maiores legados da Copa.
Pelo que foi noticiado, as audiências públicas sobre o VLT realizadas na semana passada em Cuiabá e Várzea Grande – uma de manhã, outra à tarde – pouco acrescentaram à realizada no início do mês de setembro passado. Na do ano passado não tinha projeto. Nas audiências de agora foi apresentado como sendo o anteprojeto do VLT para Cuiabá um conjunto de pranchas sobre imagens do Google, sem identificação de responsabilidade técnica, com antigas perspectivas do BRT alteradas para o VLT e nenhum indicativo das soluções para os principais problemas de sua inserção na malha urbana, como por exemplo, o problema do transbordo de passageiros na Prainha sem desapropriações. Em resumo, ainda não existe o projeto técnico para o nosso VLT, tão cobrado na reunião de setembro. Se houvesse, teria sido mostrado.

Não há como deixar de temer o prazo que resta até a Copa. Pior é que no eixo do VLT encontram-se algumas das intervenções que considero fundamentais para o funcionamento da cidade e que sem o dinheiro desta Copa ficarão na dependência de outra para serem feitas. Ainda que não houvesse VLT, BRT, metrô ou o que fosse, essas obras terão que ser feitas. Por ordem de importância para mim a primeira é o viaduto do Cristo Rei. Outra são as estações da Prainha e a do Porto, esta no local do Atacadão e adjacente ao futuro Fifa Fan Park. A seguir colocaria o alargamento da Fernando Correia da ponte do Coxipó até a saída para Santo Antonio e o alargamento da Prainha próximo ao Morro da Luz, que só podem ser resolvidos com desapropriações. Por fim a trincheira do Quilômetro Zero, na interseção da FEB com a 31 de Março.

O temor maior é que com uma eventual inviabilização do projeto do VLT, Cuiabá perca também essas obras essenciais que vêm juntas. O secretário da Secopa, já buscando preservar o governo do estado de futuras responsabilidades, insinua com “obstáculos nos corredores de Brasília”. De fato o governo vem tocando obras importantes, como o Verdão e a Mário Andreazza, já licitou as da Miguel Sutil e promete lançar logo os Centros de Treinamento, a Avenida do Barbado e o Fan Park. Mas, no frigir dos ovos, três projetos são essenciais para a Copa. Uma vez prometidos, o povo passa a ter direito a todos eles. Um, que está indo bem, é o estádio. Os outros dois me alarmam: o aeroporto, que nem foram licitadas as obras de sua estação de passageiros, e a mobilidade urbana cujo tronco principal são os dois eixos do VLT, que nem projeto têm até agora. Sem esses eixos, ou com eles em obras durante a Copa, pára tudo, a cidade se imobiliza. E a mobilidade urbana é uma das exigências básicas da FIFA desde o início.

Share Button