Sebastião Carlos: Luiz Carlos Ribeiro será recordado sempre não somente pelos amantes da arte teatral, mas por todos que tiveram a oportunidade de com ele conviver

Luiz Carlos Ribeiro

Por Sebastião Carlos | Pode ser um lugar comum, mas não há como deixar de repeti-lo num instante de lamento. O passamento de Luiz Carlos Ribeiro causa um vácuo em nossa escassa história do teatro em Mato Grosso.

Conheci-o, através dessa sempre presente e ativa Lúcia Palma, em 1974, numa das minhas esporádicas vindas a Cuiabá. Fui a um sarau e lá estava ele declamando, com a mesma ênfase e perfeito locução de sempre. Desde então mantivemos um relacionamento de fraterna amizade. Acompanhei o seu esforço, quase solitário, de organização dos grupos teatrais amadores em Mato Grosso, como cofundador, e depois presidente, da Federação Mato-grossense de Teatro – FEMATA. Posteriormente, se tornaria um dos diretores da Confederação Nacional de Teatro, a CONFENATA.

Ator e diretor autodidata alcançou o auge no início dos anos oitenta quando participou do Projeto Mambembão, atuando como ator e assistente de direção de “Rio Abaixo- Rio Acima, ou Ergue o Mocho e Vamos Palestrar”. Essa peça, de autoria e sob a direção de Maria da Glória Albuês, a “Glorinha”, outra figura marcante do teatro e da cultura atual mato-grossense, recebeu elogios de importantes críticos, um dos quais, o respeitado Yan Michalski, que a indicou para receber dois prêmios mambembes. Nesse período, escreveu e dirigiu “Gudibai Meu Boizinho”, peça que apresentaria em diversas comunidades rurais e pequenas cidades. Depois viria a trilogia “Pelos Cotovelos”, “A Virgindade Contestada” e “Vespa Sete”, escritas e dirigidas por ele.

Em 2006, LC publicaria o seu primeiro texto não teatral, o livro de contos “A Mala de Fugir e Outras Histórias”. No entanto, a atração do palco lhe era tão vital que logo ele o adaptaria para uma peça, com o mesmo nome, na qual atuou como ator. Em 2009, com esse incansável Flávio Ferreira, diretor da Companhia Cena Onze encenam a peça “Fica, Pedro”, de sua autoria, uma biografia do bispo Pedro Casaldáliga.

Quando estive, pela segunda vez, presidente da AML promovi uma série de palestras e apresentações musicais, abrangendo todas as áreas da cultura. Luiz Carlos fez uma excelente apresentação sobre a história do teatro em Mato Grosso, abordando aspectos até então pouco conhecidos. Vi-o pela última vez na comemoração do Centenário de Manoel de Barros, em evento realizado na Universidade Federal. A dicção, o gesto correto, a cadência estudada, numa comunhão perfeita do intérprete com o texto interpretado eram a sua marca.

Luiz Carlos Ribeiro, o ator e o ativista cultural, será recordado sempre não somente pelos amantes da arte teatral, mas por todos aqueles que tiveram a oportunidade de com ele conviver. A figura de aparência tranquila, o seu conhecimento discreto, a cordialidade na melhor tradição cuiabana estão inscritas em sua trajetória.

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Sebastião Carlos

Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado, professor e historiador; membro da Academia Mato-Grossense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Autor de, entre outros, “Viagens ao Extremo Oeste – Desbravadores, aventureiros e cientistas nos caminhos de Mato Grosso” e “Perfis Mato-Grossenses”.

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