Serra, e Mato Grosso?, artigo de José Antônio Lemos

No início de maio último, em seu primeiro discurso como candidato à Presidência da República, José Serra lembrou o colapso dos transportes em Mato Grosso destacando ser “mais caro transportar uma tonelada de soja de Mato Grosso ao porto de Paranaguá do que levar a mesma soja do porto brasileiro até a China. Um absurdo.” Entusiasmou muitos mato-grossenses ver um dos principais problemas do estado destacado no primeiro discurso de um dos mais fortes candidatos na disputa presidencial que se iniciava. Com ampla divulgação nacional, rendeu-lhe também um artigo meu, modesto, mas com o alto prestígio de sair no mais tradicional jornal de Mato Grosso.

A credibilidade da citação era procedente não só pela seriedade do próprio candidato, ainda uma de suas virtudes, mas também porque a chegada da ferrovia a Mato Grosso foi uma das principais obras do governo Fernando Henrique, que Serra integrou. Aliás, na inauguração do terminal de Alto Taquari, o então presidente prometeu de viva voz a ferrovia em Cuiabá, concluindo sua promessa como um sonoro “palavra de presidente”, que virou out-doors nas principais vias de Cuiabá. Portanto nada mais natural do que a lembrança por Serra em sua proposta de governo daquela importante obra, paralisada nos governos do presidente Lula e só retomada agora às vésperas das eleições.

Eis que, para surpresa de todos, Mato Grosso não aparece nas propagandas de José Serra dedicadas à área de transportes. Será que ainda vai aparecer? Ou deixou de ser “um absurdo” o preço do transporte pago pelos produtores mato-grossenses? Fica a expectativa de que o candidato volte a se referir a Mato Grosso em suas propostas de governo, em especial à continuidade da Ferronorte até Santarém e Porto Velho, em seu trajeto original, aquele que reforça a BR-163 e consolida Mato-Grosso como o maior produtor agro-pecuário do país, e como o estado brasileiro de maior desenvolvimento.

Contudo, além do projeto da Ferronorte – sonho e luta do senador Vuolo – é importante o resgate de todas aquelas outras obras estruturantes do estado, frutos da visão de estadista de Dante de Oliveira, assumidas pelo governo Fernando Henrique. A começar pela reativação do gasoduto e a volta do gás boliviano, matéria-prima e fonte energética para as indústrias, insumo indispensável à reativação da termelétrica de Cuiabá. Destinado a assegurar confiabilidade energética ao estado, o complexo gasoduto/termelétrica de 1 bilhão de dólares encontra-se estupidamente parado há mais de 3 anos.

Da mesma forma, há que se retomar as obras do Aeroporto Marechal Rondon, cujo pouco caso da Infraero já parece intencional contra a Copa do Pantanal em Cuiabá. Também iniciadas na gestão FHC, com a Infraero administrada pelo saudoso cuiabano Orlando Boni, as obras de ampliação do aeroporto estão igualmente paralisadas. Não menos importante é o resgate da multifinalidade da barragem de Manso, também inaugurada no governo FHC, mas até hoje restrita às suas funções de regularização do rio e geração de energia, ela que foi prevista também para atividades diversas da aquicultura, irrigação, turismo e abastecimento de água para os municípios do vale do Cuiabá.

Todos estes projetos são bandeiras abandonadas pelo PSDB local pós-Dante, que está pagando caro por isso, mas, acredito, ainda não foram nem serão desprezadas pelo partido em nível nacional. Ademais, tão logo eleito o governador Silval Barbosa, em gesto de grandeza política, assumiu em atitudes concretas a retomada do gás, da termelétrica, do aeroporto e da Ferronorte. E, assim, tudo pode ficar mais fácil se retomadas por todos, para o bem de Mato Grosso.

*JOSÉ ANTONIO LEMOS DOS SANTOS, arquiteto e urbanista, é professor universitário

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