Silêncio – por Eduardo Mahon

Por Eduardo Mahon | No centro da cidade, um calor escaldante. A ruela repleta de lojinhas acotovelando-se por atenção dos transeuntes foi tomada por placas que encobriram as antigas fachadas. Alguém teve uma ideia infeliz: colocar um vendedor na frente, munido de um microfone ligado à caixa de som. Daí em diante, todos repetiram a dose e, quem pensar comparar aquela rua à Babel bíblica, não estará enganado. O som que se misturava numa panaceia de anúncios – fogões, lava-louças, calcinhas, material escolar – estreitou a rua ainda mais. O inferno era ali porque faltava paz. As buzinas dos automóveis disputavam atenção dos passantes com as caixas de som e os camelôs que gastavam o gogó à moda antiga. Em pouco tempo, ninguém entendia mais nada do que se queria dizer naquela feérica ruela do centro da cidade. Até que Arnaldo, um velho sapateiro meio falido, teve uma ideia que, vamos e venhamos, era inédita. Fechou a sapataria e pregou a tabuleta – Em breve, voltaremos com novidades. Ninguém deu falta. Não se conserta mais sapato, compra-se novo – era o que havia concluído Arnaldo. Pois bem. Sendo assim, vou vender o que faz falta hoje em dia – silêncio. Duas semanas depois, reabriu as portas com um ambiente completamente renovado. Quem passava na frente, via uma plaquinha discreta onde se lia em letras maiúsculas – VENDE-SE SILÊNCIO. Curiosos entraram na única loja em que não havia um vendedor esganando-se com microfone na mão. Ali não. No Arnaldo, todos comentavam, não havia nada além de poltronas de couro com um enorme fone de ouvido preso a um fio. Quem sentasse ali poderia comprar porções de silêncio que era vendido a um preço justo. Bom dia, Arnaldo! Bom dia, dona Terezinha, respondeu o comerciante à primeira cliente que se apresentou. Mudou de ramo, hein? Foi mesmo, não é? A sapataria ia devagar. Ia mesmo, ninguém quer remedo em sapato. Agora meu negócio é outro. Bem vejo, parabéns pela iniciativa, mas como é que funciona isso aqui, Arnaldo? Bem, a senhora me diz quanto silêncio quer, senta-se aí na poltrona e usa o fone. E o que se ouve? Ora, não se ouve nada, não é ótimo?! A dona da loja de confecções decidiu experimentar. O que são dez tostões, afinal de contas. Como é que o senhor vende esse seu silêncio? Bem, estou vendendo de quinze em quinze minutos, dona Terezinha, mas se a senhora comprar a hora cheia, tem desconto. Não estou pra esbanjar, Arnaldo, fico com meia hora, por favor. A mulher pagou e sentou-se na poltrona reclinável. Não ouviu absolutamente nada, nem camelôs, nem buzinas, nem mesmo o ronco dos caminhões de entrega. Ao final, aprovou: muito bom, Arnaldo! Vou fazer propaganda! Dito e feito. A vizinhança tornou-se cliente. Guardas de trânsito, padres, motoristas de ônibus entraram para a caderneta de Arnaldo que engordou em receita como nunca antes na antiga sapataria. O nosso empresário resolveu abrir filiais. Espalhou as lojas pela cidade e, dois anos depois, já estava estabelecido em todo o país. Não satisfeito, criou um produto novo, o silêncio que poderia ser levado para casa. Anunciava nas rádios: compre o silêncio e leve consigo para casa. Um silêncio só seu! Arnaldo gravou no melhor estúdio o som de uma hora de silêncio absoluto, livre de qualquer ruído ou interferência e o vendeu em disco e fita cassete. Daí então, diversificou. Criou uma linha de produtos para vários tipos de silêncio: o silêncio das montanhas, o silêncio das cavernas, o silêncio dos funerais, enfim, silêncios para todos os gostos. O multimilionário Arnaldo amargou um único fracasso em vendas: o silêncio dos casais. As pesquisas diziam que o produto era bom, mas nenhum marido teve coragem de comprar.

SILÊNCIO(E.M)No centro da cidade, um calor escaldante. A ruela repleta de lojinhas acotovelando-se por atenção dos…

Publicado por Eduardo Mahon em Terça-feira, 22 de agosto de 2017

Você pode gostar...