Por que vamos pagar caro – Por Nilson Lage

Por que vamos pagar caroHumberto de Alencar Castelo Branco tinha um projeto para o Brasil – tanto que uma das primeiras…

Publicado por Nilson Lage em Sábado, 27 de outubro de 2018

Humberto de Alencar Castelo Branco tinha um projeto para o Brasil – tanto que uma das primeiras medidas de seu governo foi criar o FGTS, gigantesco reservatório de recursos que logo financiaria o “milagre brasileiro”. Enfrentou forte oposição da linha dura: oficiais treinados pelos americanos para repetir slogans anticomunistas e não pensar. Morreu em um desastre de avião mal explicado, pouco depois de deixar o cargo.
O sucessor, Artur da Costa e Silva, chegou lá porque era o mais antigo. Governou em um período de forte agitação e muitas provocações – talvez entre elas o assassinato do estudante Edson Luís, que levou ao AI-5. Arrependeu-se, em seguida, e tentou, sem êxito, outorgar uma constituição que devolvesse ao país a alguma legalidade democrática. Insone e pressionado pela linha dura, enfartou.
O terceiro governante, Emílio Garrastazu Médici, liberou a carnificina. A repressão atingiu intelectuais e pessoas da sociedade. O insano Brigadeiro Luís Paulo Burnier assassinou Anísio Teixeira, Rubem Paiva e Stuart Angel, entre outros. Os mortos eram cremados em fornos de queimar cerâmica. Generalizou-se a tortura com tal amplitude e crueldade que a reação no meio militar veio com a eleição de Ernesto Geisel: sua linha de atuação, próxima da de Castelo Branco, vinha acrescida de ideais nacionalistas do grupo do General Albuquerque Lima, preterido na sucessão de Costa e Silva.
Geisel, além de levar adiante um projeto de soberania, avocou a si a repressão e logo proibiu torturas e assassinatos em repartições militares. Diante de mais dois crimes – os assassinatos de Vladimir Herzog e Manuel Fiel Filho – , demitiu o comandante do II Exército, Ednardo d’Ávila Mello, e o Ministro da Guerra, Sylvio Frota. Daí em diante, a linha dura passou a executar ações subversivas, sem ser oficialmente inculpada. É provável que tenha matado Juscelino Kubitschek (em um desastre encenado), João Goulart e Carlos Lacerda (simulando causas naturais), entre 1976 e 1977; jogou bombas e tentou uma grande operação de falsa bandeira, o fracassado atentado do Riocentro.
Restabelecida a normalidade política, o certo teria sido apurar esses crimes e punir os culpados. Em lugar disso, aprovou-se ridícula anistia, que distribuiu a culpa por todos os militares – atualmente, 444.814 federais autorizados na ativa e mais 425.348 de polícias estaduais (fora os inativos), forçando-os a se solidarizar em defesa da instituição a que pertencem.
O equívoco – irrecuperável erro estratégico – foi repetido pela Comissão da Verdade que igualou a responsabilidade política dos comandantes à culpa criminal dos executores.
O resultado é que o ponto de vista militar deixou de ser levado em conta onde deveria. A agenda progressista tradicional, que associava soberania e luta de classes, deslocou-se para abrigar as propostas identitárias e ambientais geradas e financiadas no processo da globalização (justamente para combater a luta de classes), sem limite, avaliação ou juízo crítico. Nosso povo mestiço foi ocultado: todos os que não parecem brancos passaram a ser “negros” e o Brasil importou, por esse meio, o racismo estilo norte-americano. Pior: inventaram para ele um passado de casa grande e senzala, logo saudado com entusiasmo pelos herdeiros de imigrantes fascistas do Sul do país. A tolerância consevadora de nossa tradição dissolveu-se em promoções de exibicionismo sexual e beijo gay na novela das nove. A ciência vem sendo desprezada em campanhas retóricas em que impera a meia-verdade e a mentira.
A mentira é filha do relativismo.
A toda ação corresponde reação igual e contrária, diz a Lei de Lavoisier. Daí, a linha dura, mais radical, odiosa, grosseira e servil ao imperialismo, está de volta, conduzida por cegos e empurrada por milhões de mensagens de WhatsApp.
Qualquer que seja o resultado da eleição de amanhã, vamos todos pagar caro por isso. Dependendo dela, com democracia ou sem ela; com mais ou menos recursos para nos defender.

Fonte: Perfil no Facebook do autor

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Meu nojo, por Ricardo Gondim

Por Ricardo Gondim | Na noite do primeiro turno das eleições de 2018 escrevi que estava com nojo do segmento evangélico que apoiou o “coiso”. Recebi algumas mensagens de apoio e, logicamente, milhares de críticas. Não retiro uma só letra do meu tuíte. Explico:

  • Fui vítima da ditadura de 1964. Meu pai, um homem honrado, honesto, trabalhador e gentil padeceu cadeia e tortura. Ele foi preso na madrugada entre 31 de março e 1 de abril. Minha mãe, grávida de gêmeos, agonizou por meses. Resultado: uma dos bebês morreu; e os traumas perduraram por décadas. Os horrores se multiplicaram. Eu era adolescente. Me recordo, entretanto, em mínimos detalhes, o que significa viver sob censura, medo, pânico.
  • Sou cristão e não posso admitir que a mensagem bela e nobre de Jesus seja raptada por um sujeito vil, que advoga metralhar, perseguir, ou medir outras pessoas por “arrobas”. O “coiso” se coloca, diametralmente, contrário a tudo o que preguei, ensinei, vivi. Ele não cabe no evangelho que aceitei desde minha adolescência. Seu discurso é abertamente racista, abertamente misógino, abertamente preconceituoso. O ex-capitão não tem valores familiares, não possui conteúdos éticos e nunca mostrou caráter suficiente que possa defender a moral cristã.

Senti tristeza e desânimo nas véspera do primeiro turno. Minha desilusão se misturou a um enorme  desencantamento. Doeu notar que gastei meus melhores anos malhando em ferro frio. Me esforcei para ensinar, depois de muito estudo, muita oração e muita dedicação, o que entendo sobre a vida, o exemplo e a mensagem de Jesus. Vi que não consegui. A esmagadora maioria dos crentes com quem lidei a vida inteira bandeava para uma pessoa que considero asquerosa.

Estou disposto a recomeçar na vida, no ministério e na igreja em que sou pastor. Não me importo de reiniciar a partir de um punhado de pessoas. Não tenho medo da pobreza e do anonimato. Se necessário vou para as margens, para o exílio ou para as montanhas. Mas, jamais, em tempo algum, em qualquer hipótese, apoiaria o “coiso”; sequer passaria a mão na cabeça de quem o considera digno do voto.

Soli Deo Gloria

Source: Meu nojo | Ricardo Gondim

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