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AS VALIOSAS BUGIGANGAS DE DIVANIZE CARBONIERI(Eduardo Mahon)Em qualquer inventário, sobretudo o literário, importa…

Publicado por Eduardo Mahon em Segunda, 8 de outubro de 2018

AS VALIOSAS BUGIGANGAS DE DIVANIZE CARBONIERI
Por Eduardo Mahon | Em qualquer inventário, sobretudo o literário, importa tanto saber o que está arrolado, quanto o que está esquecido. É que o que o autor não diz pode ser mais importante do que a própria escrita. Esse tipo de arrolamento é prazeroso em autores que escondem propositalmente a intenção, ou ainda, escondem-se nas palavras. Talvez tenhamos aí um bom termômetro para mensurar a densidade de uma obra e, por isso, quero destacar a poeta Divanize Carbonieri que pipocou pronta para o consumo nacional, temperada com sal e pimenta, nas duas obras publicadas recentemente pela Editora Carlini e Caniato – Entraves e Grande Depósito de Bugigangas.
Os títulos são complementares, não coincidentemente. Há uma estrutura que sustenta a lógica autoral – não existe um depósito de bugigangas que não sejam, de certa forma, entraves. O entrave é o que atrapalha, impede, obstrui. Pode ou não ser uma bugiganga. Sendo ou não, o que importa é que Divanize quer cantar o excesso acumulado, colocando o subjetivo e o objetivo no mesmo patamar de quinquilharias. Ocorre que, em meio a tanta coisa inútil que incomoda e está confusamente superposta, a autora esconde uma ausência – e é aí que a poesia torna-se maior. Pergunto: como a poeta faz caber em si tanta coisa?
Divanize começa o poema Inventário (em algum momento, em meio à montanha de itens poéticos, a mania de listagem iria surgir) referindo-se à desimportâncias tão caras a Manoel de Barros: “um inventário de/ pequenas coisas/ cachos de açucenas/frascos de alfazemas/ caixas de brinquedos/ bonecas e bodoques”… e termina por negar-se à faxina: “poucos são os badulaques/ realmente necessários/ mas dispensá-los/ é uma sabotagem/ para o espírito/ inventariante e/ catalogador”. O discurso da eficiência é descartado pela poeta. Ela é uma acumuladora de memórias, de sentimentos, de impressões. Romântica? É muito provável. No ato acumulativo, a sobrevalorização do passado, a conservação próxima dos antigos significados, a resistência por desembaraçar-se de velhos hábitos são práticas comuns.
Na rica linguagem de Entraves, Divanize enumera toda a sorte de “embaraços”: flores pisadas, homens de terno, animais vagabundos, guarda-roupas e mesmo paquidermes de toda a sorte. Chama particular atenção como a poeta enxerga o corpo obeso do paquiderme, ele mesmo mais um entrave entre tantos outros. A composição Paquiderme é repleta de duplos sentidos, enriquecida por um vocabulário denotativo: “a pele do paquiderme/ padece na secura do deserto/ ranhuras prenhes de pó/ sulcos desenhados como/ quadrados na epiderme/ enquanto pasce ressequidos/ ramos sem se impacientar/ em súbita e sibilante sequência/ na sediciosa intempérie/ uma tempestade de areia/ delineia-se diante dele/ sente o impulso de desertar/ mas empaca apalermado/ tomado de paralisia suicida/ permanece parado e quieto/ em pouco tempo se alquebra/ enterrado no granito cristalino/ sucumbe na grande estrutura/ arquitetônica de seu corpo/ uma catedral de carne rota”.
É comum observar a relação entre as contradições do vazio e cheio – tudo se transforma: a pele em piso, o osso em ogivas e o corpo, em igreja. O jogo travoso entre a proximidade vernacular – epiderme, paquiderme, apalermado, intempérie – causa admiração pela erudição da autora. O binômico deserto/desertar também soma qualidade estética ao entrave vocabular e estético de Divanize Carbonieri. Nesse mesmo sentido, a pele é um tema recorrente. No poema Entraves, por exemplo, “um talho rasgado em plena epiderme/ não é qualquer falha de caráter que torna/ arrastado o existir por entre trastes/ é o completo sequestro da sanidade/ que arruína para sempre toda a chance/ de se desentulhar os últimos entraves” e, também em Riscos: a pele não é mais pintada nem riscada/ sua aspereza não se dá pelo sulcos/ arranhados por poucos espinhos e ossos”. Por fim, cito um trecho de Mestiça: “cicatriz herdada/ bordada na epiderme/ o verme que devora/ rememora o ancestral/ espectral ascendente/ resplandecente rama/ da trama antiga”. Finalmente, pinço do poema Lacuna: “a tez do tecido igual ao tema urdido/ da derme rota dessa menina morta”. Percebe-se a obsessão com a comparação entre pele e morte.
Chamo atenção para o “jogo travoso” de Divanize porque quase todas as composições são hostis à primeira leitura. É como os “tigres tristes atravessando o trem das três” ou “o rato roendo a roupa do rei de Roma”. Os entraves começam na linguagem truncada, abusando de proparoxítonas: súbito, decúbito, espírito, moléstia etc. Vai truncando, truncando até chegarmos no violento poema Úvula: “ululando/ a úvula/ uma válvula/ volátil/ da voz/ lamentosa/ o látego/ do grito/ regurgitado/ gira e atinge/ três/ tons/ timbres/ brados/ brutos urros/ roucos/ rosnados/ o couro/ cru da/ dor”. E também no poema Gatas do qual seleciono um trecho: “tigradas/ tricolores/ chitadas/ ciciando/ no colo preguiçosas/ esticando/ as garras/ estreitando/ as presas/ sorrateiras/ no assoalho das casas/ cascalho/ areia/ saltando nos galhos/ das goiabeiras”. Ainda: “mulher é a trava/ ataviada/ travestida/ avestruz/ atroz”.
Toda essa riqueza de entraves poéticos, estorvos fonéticos, de inutilidades subjetivas, esse entulho cuidadosamente inventariado por Divanize Carbonieri (vide o poema Utensílios), quer esconder uma falta – a falta do amor. O que sobra inevitavelmente sublinha o que falta. No Grande Depósito de Bugigangas, é possível rever os gatos, os utensílios, as roupas, as fotos, um conjunto sufocante. Mas, entrelinhas, a poeta acaba por se confessar: “muito eu amei/ como se animada/ por uma mania”, do poema Melodia. Ou ainda: “cumpre-se o fado/ admirável sina/ de dardejar/ o alvo que se quer/ sobejamente amar”. No poema Empório, a poeta arrola “desse grande depósito de bugigangas/ilusões empoeiradas à escolha/ de todos os catadores de destroços/ que emprestam seus esforços/ para a recolha dos cacos de sonhos”. Tantos trastes colecionados podem ser decepções que se colecionam em cartas extraviadas, em fotos amarelecidas, em pequenas lembranças opacas.
Já no final do segundo livro, Divanize entrega-se completamente: “um formidável espécime/ pusilânime caráter/ energúmeno exemplar/ imprestável indivíduo/ um infame mequetrefe/ matusquela infantil/ um cafajeste sem par/ errante meliante/ um patife de marca maior/ um amante/ amado cada vez mais e melhor”. Importante sublinhar o “matusquela infantil” e contrapor essa expressão de desejo/rejeição com o poema Corpo: “corpo é empecilho/ um castigo/ no meio uma chaga/ encharcada/ uma parelha errada/ para o macho/ menor na estatura/ piorada por todo o lado/ pelo corpo se mensura/ a capacidade/ dimensiona-se o préstimo/ e a utilidade/ com o corpo/ faço um pacto/ de ser amotinada/ desengonçada/ desgraçada/ escapando ao corpo/ posso ser de verdade”.
Na poesia de Divanize Carbonieri há muitos empecilhos contemporâneos. O corpo é o maior deles, sem nenhuma dúvida. Sua relação com outros corpos, com o espaço exíguo, com a vida e com a morte, faz do corpo o protagonista (talvez antagonista) da pós-modernidade, onde se pode riscar, traçar, tatuar, compor, recompor, fustigar, identificar. É provável que a própria Divanize inclua-se nesse grande depósito de bugigangas, no mais das vezes como um entrave, ela que incorpora o espaço de acumulação e preenche esse enorme vazio que há em todo grande poeta.

Eduardo Mahon é escritor.

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SEC corre contra o tempo e marca para a próxima quarta-feira, 25, a entrega dos prêmios aos contemplados do MT Literatura

Depois do chabu da Literamato e sua planejada apoteose que custaria R$ 3 milhões aos cofres públicos, autores participarão de noite de autógrafos coletiva no Paiaguás

Por João Bosquo | Quando seria a entrega dos prêmios e cheques aos vencedores do II Prêmio MT Literatura? Eis a pergunta que não queria calar. Os vencedores do certame, depois de idas e vindas, ficaram todos entusiasmados, diria até eufóricos, enfim tornariam público os seus trabalhos, com o anúncio que o mesmo aconteceria no dia 20, sexta-feira, dentro programação da LiteraMato, que prometia ser o grande evento literário de 2017, quiçá da década, com os 3 milhões de investimentos pretendidos pela Casa Guimarães, através de emendas parlamentares. Mas acabou dando chabu e não aconteceu.

A Secretaria de Estado de Cultura divulgou na manhã destas quarta-feira que premiação e lançamento das obras do 2º prêmio será no dia 25 de outubro, às 19h30 no auditório Cloves Vetoratto, no Palácio Paiaguás, como nas vezes anteriores. Presença garantida do governador Pedro Taques. A presença de representantes da Casa Guimarães não se pode garantir.

O cancelamento, vamos combinar, foi até providencial para a Secretaria de Estado de Cultura (SEC) que, no último dia 10, disponibilizou em seu site, para participação popular, a minuta do regulamento para a 3ª edição do MT Literatura, para que os “interessados possam ter acesso ao conteúdo e contribuir com críticas e sugestões até o dia 30 de outubro”.

A pergunta que fica no ar é se o lançamento será no dia 25, ainda com o regulamento sendo debatido pelos interessados, ou a participação popular é apenas um ‘faz de conta’? Fica o questionamento.

Os escritores anunciados como premiados no 2º MT Literatura na categoria poesia são Luiz Renato Souza Pinto, com o livro “Gênero, Número, Graal”, um conjunto de oitenta e cinco poemas que atravessam os anos 1990, 2000 e a década atual, divididos em cinco partes: Sinto, Corpo, Neutro, Azul, Face. Em Sinto (verbo) os poemas que simbolizam ação. Os dois substantivos (CORPO E FACE) reúnem os poemas que remetem às coisas substanciais em nossa vida. Os dois adjetivos (NEUTRO E AZUL) qualificando algumas iniciativas. “No conjunto buscam aliar o humor e a leveza com alguma profundidade analítica e existencial”, diz o autor.

Na poesia, a outra premiada foi Divanize Carbonieri, com o livro “Entraves” que, segundo a professora e escritora Flávia Helena, que assina o texto de orelha, “não é apenas sobre obstáculos. “Entraves propõe, principalmente, caminhos. Todos, claro, cheios de percalços”. O livro é um conjunto de 30 poemas escritos ao longo de 2016.

Na categoria prosa, os premiados foram Teodorico Campos de Almeida Filho, com o livro “Os mesmos”. Neste livro, segundo a professora Maria de Jesus Patatas – a mesma que levou Mario Cezar a ser professor – diz que “o autor estabelece uma relação entre a história de Cuiabá e a história universal, citando localidades e acontecimentos verdadeiros enredados com a ficção, nos coloca como participantes ativos dos destinos do mundo, com personagens que estão, simultaneamente, dentro do mundo da fantasia e do mundo real, envolto numa nuvem que carrega o fantástico e a realidade”.

Outro premiado é Marcelo Leite Ferraz, com a obra “O assassinato na Casa Barão”, que poderíamos dizer é um romance baseado em fatos reais. O livro resultou de pesquisas do autor no Arquivo Público. Nele o autor narra a vida de um jornalista que investiga uma organização criminosa que, por sua vez, subverteu os princípios éticos da Maçonaria para tentar omitir um segredo místico da instituição.

Afonso Henrique Rodrigues Alves, com o livro “Contos do Corte” reúne, em cinco capítulos (infância, escrita-criação, erótico, misticismo, morte e homem-natureza) uma série de contos partidos das vivências pessoais do autor. “A maioria das histórias veio por sonhos ou depois de meditações”, diz.

Fernando Gil Paiva Martins, também premiado na prosa com “As intermitências da água”, um romance que “narra a história de uma cidade que passa por um fenômeno atípico,chuva em excesso seguido de seca em igual escala. Com isso, muitos terão que decidir o seu presente e, logo, também o seu futuro. O que cada um escolhe para si é um mistério que se revela a cada página, a cada gota que não cai, a cada quilômetro percorrido”. A conferir.

Na categoria infanto-juvenil, a escritora e acadêmica Cristina Campos, com a obra “Papo cabeça de criança travessa”, que tem as ilustrações assinadas por Vanessa Prezoto. A obra construída a partir do registro etnográfico de coisas interessantes – as “tiradas” – que as crianças repentinamente falam quando estão descobrindo o mundo, com os olhos livres de uma linguagem acostumada. De certa forma, é uma coletânea reinventada pela autora, a fim de valorizar imagens poéticas e filosóficas, neologismos e construções sintáticas não usuais. O livro, é claro, voltado às crianças.

O outro premiado, na categoria é Victor Angels, com “Mundo dos sonhos – O ferreiro e a cartola”, cuja obra narra a missão confiada à pequena Rita que é a de salvar o Mundo dos Sonhos. Depois de aceitar a proposta de um desconhecido, após encontrar uma cartola caída em seu quintal, Rita decide salvar um mundo onde tudo pode acontecer, somente para ter o seu irmão mais novo e sua mãe de volta em casa.

Na categoria revelação temos os nomes de Alexandre Rolim, com “Tikare: alma de gato”. Alexandre é mato-grossense de Tangará da Serra, repórter de jornais, sites, rádio e TV desde 2004, e nesta “ficção que registra/recupera histórias, mitos e práticas de um povo indígena que vive no imenso Chapadão do Parecis-MT, propõe uma reflexão sobre os modos de contato entre indígenas e não indígenas e sobre a necessária garantia de espaço para a vida dessas comunidades”.

A outra revelação é Helena Werneck dos Santos, com “NU”, um compêndio com 80 poesias inéditas. “Apesar de ter 17 anos, Helena é uma escritora contumaz. Desde que aprendeu a ler e escrever demonstra amor pelos livros e, justamente na adolescência, o desejo de escrever poesias aflorou”, nos conta a mãe, a jornalista Keka Werneck. “No poema que dá nome ao livro, propõe que sejamos despidos de tantas regras ditadas por vozes alheias e que a gente tenha experiência íntima de ficar nu e escrever a própria poesia”.

Desses dez, oito publicados pela Carlini & Caniato / Tanta Tinta enquanto outros dois, de Afonso Henrique e Helena Werneck pela Entrelinhas.

Esses livros, sim, amigos leitores, seriam lançados durante a Literamato, mas o evento, por conta de seus altos custos, que atingiriam o citado montante de R$ 3 milhões, acabou sendo barrado pelos técnicos pareceristas da Secretaria de Educação. Enquanto isso temos entidades e produtores querendo receber menos, bem menos que isso.

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Os dez autores premiados do 2º MT Literatura e suas obras que serão editadas em breve

A segunda edição do prêmio contemplou 10 escritores e um valor total de R$ 300 mil em investimentos

A segunda edição do prêmio contemplou 10 escritores e um valor total de R$ 300 mil em investimentos – Foto por: Divulgação/SEC-MT

Da Assessoria 
Dez novas obras literárias chegam às mãos dos leitores mato-grossenses este ano. Vencedores do 2º Prêmio de Literatura, os títulos contemplam as categorias prosa, poesia, infanto-juvenil e revelação. Nesta segunda edição, foram inscritas 89 obras. A iniciativa é do Governo de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Estado de Cultura (SEC-MT) e tem por objetivo incentivar e apoiar a produção literária no estado. Cada uma das obras selecionadas irá receber R$ 30 mil, totalizando R$ 300 mil em investimentos.

Selecionado na categoria poesia, o livro Gênero, Número, Graal, de Luiz Renato Souza Pinto, reúne 85 poemas escritos a partir dos anos 80. A obra é dividida em cinco partes, identificadas por palavras que compõem o Poema do Ato Final.

“Esse livro é fruto de um apanhado geral da minha poesia depois da última publicação no gênero, Cardápio Poético, de 1993”, observa Luiz Renato, que também é autor dos romances Matrinchã do Teles Pires (1998) e Flor do Ingá (2014), além do livro de crônicas Duplo Sentido (2016), escrito em parceria com o pernambucano Carlos Barros. Continue Reading

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