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Escritores contemporâneos em diálogo, por  Olga Maria Castrillon Mendes

Por Olga Maria Castrillon Mendes | Estamos diante de um fenômeno editorial em Mato Grosso, cuja festa maior se dará no próximo dia 10 de dezembro, às 19:30, na Casa Barão de Melgaço. Afinal de contas, teremos duas coleções de textos de escritores contemporâneos. A Coleção Olho d’água traz os poetas Ronaldo de Castro, Silva Freire, Santiago Villela Marques, Marília Beatriz Figueiredo Leite, Lucinda Persona e Matheus Guménin Barreto. A prosa aparece na Coleção Carandá, contemplando os escritores Eduardo Mahon, Lorenzo Falcão e Fátima Sonoda; Icléia Lima e Gomes e Aclyse de Matos. É uma iniciativa que comemora os 20 anos da Editora Carlini & Caniato, uma empresa bem mato-grossense, pois durante esses anos tem investido na produção local, muito antes da efervescência do recente panorama intelectual. Por ela, a literatura produzida em Mato Grosso adquire crescente visibilidade, mesmo à revelia de apoio institucional. No símbolo icônico dos títulos, um manancial literário e uma robusta árvore, sinalizam os novos caminhos, enfrentamentos, fontes e repositório de muitos estudos e pesquisas. Vai dar o que pensar e promete tirar o fôlego e a paz dos leitores.

Depois do projeto Obras Raras que relançou dez livros inéditos, em 2009, num esforço entre a Academia Mato-grossense de Letras/AML e a Universidade do Estado de Mato Grosso/UNEMAT, os dez títulos são um presente da Editora e seus apoiadores à comunidade leitora, num período em que clamamos por palavras e pelo poder que emana delas. Como todo livro, será motivo de questões e de possíveis respostas, além de revolucionar o mercado editorial, despertar leitores e mobilizar escritores, jornalistas e críticos. O que se espera é que, juntos, iniciativa privada, escritores e editores executem projetos que, bem operacionalizados e difundidos, como este, podem contribuir para minimizar as distâncias entre o produto cultural e o leitor. Continue Reading

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Quando o tradicional se torna velho, por Eduardo Mahon

A imagem pode conter: Eduardo Mahon, óculos e barbaPor Eduardo Mahon | Todo mundo já sente na pele o que é a pós-modernidade, mesmo sem saber direito o que ela é, mesmo sem saber exatamente quando começou. Esse tempo pós-moderno é um período de mesclagem, de hibridismo, de incerteza, por um lado, e de acesso facilitado às informações, por outro. Provavelmente por isso mesmo, a ansiedade contemporânea cresça ainda mais – diante do fluxo de informações e da incapacidade de selecionar elementos para uma conclusão lógica. Dificilmente, o pesquisador vai contar com as clássicas convenções de começo-meio-fim para apreciar um fenômeno, já que os movimentos culturais estão cada vez mais interdependentes no tempo e no espaço, impossíveis de serem segmentados como se fazia antigamente. Aliás, a boa e velha lógica cartesiana nunca esteve tão desprestigiada, em tempos em que os velhos e estanques padrões científicos, cada qual organizado numa caixinha, foram misturados no enorme baú da transdisciplinaridade. Pergunto-me: qual a função do rito?, e das instituições? e do patrimônio?, nessa nova e desafiadora era pós-moderna. Continue Reading

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A inédita Luciene Carvalho de Sempre, por Eduardo Mahon

A INÉDITA LUCIENE CARVALHO DE SEMPRE (E.M)Já tive oportunidade de comentar sobre o novo ângulo que Luciene Carvalho…

Publicado por Eduardo Mahon em Quinta-feira, 15 de novembro de 2018

 A INÉDITA LUCIENE CARVALHO DE SEMPRE (E.M)

Já tive oportunidade de comentar sobre o novo ângulo que Luciene Carvalho deu ao que, até então, chamava-se “cuiabania” ou, como querem outros, “cuiabanidade”. Nos primeiros livros, a autora fez questão de desterritorializar a ação do centro para a periferia, descrevendo “tipos” que são diferentes dos consolidados no imaginário coletivo. É no Porto que as raízes da poeta estão plantadas e de lá interpreta o crescimento desordenado da metrópole, com medo, com raiva, com curiosidade. Com o novo livro – DONA – a autora ressurge mais madura, embora reafirme com clareza toda a própria trajetória. Basicamente, o livro gravita em torno da temática feminina relativa à madureza. A morte da mãe não é tratada como vazio e sim como sublimação, uma nova etapa onde os cordões umbilicais são partidos e a poeta adquire independência. O local é a periferia, o orgulho da margem, e o cultivo de uma “linhagem” que prenuncia o futuro como uma espécie de sucessão desse ângulo de percepção. Percebo isso desde a dedicatória ao “principado da Barão”, um coletivo de meninas que, na visão da autora, constituem-se a verdadeira aristocracia portense. Continue Reading

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Das páginas do facebook: As valiosas Bugigangas de Divanize Carbonieri

AS VALIOSAS BUGIGANGAS DE DIVANIZE CARBONIERI(Eduardo Mahon)Em qualquer inventário, sobretudo o literário, importa…

Publicado por Eduardo Mahon em Segunda, 8 de outubro de 2018

AS VALIOSAS BUGIGANGAS DE DIVANIZE CARBONIERI
Por Eduardo Mahon | Em qualquer inventário, sobretudo o literário, importa tanto saber o que está arrolado, quanto o que está esquecido. É que o que o autor não diz pode ser mais importante do que a própria escrita. Esse tipo de arrolamento é prazeroso em autores que escondem propositalmente a intenção, ou ainda, escondem-se nas palavras. Talvez tenhamos aí um bom termômetro para mensurar a densidade de uma obra e, por isso, quero destacar a poeta Divanize Carbonieri que pipocou pronta para o consumo nacional, temperada com sal e pimenta, nas duas obras publicadas recentemente pela Editora Carlini e Caniato – Entraves e Grande Depósito de Bugigangas.
Os títulos são complementares, não coincidentemente. Há uma estrutura que sustenta a lógica autoral – não existe um depósito de bugigangas que não sejam, de certa forma, entraves. O entrave é o que atrapalha, impede, obstrui. Pode ou não ser uma bugiganga. Sendo ou não, o que importa é que Divanize quer cantar o excesso acumulado, colocando o subjetivo e o objetivo no mesmo patamar de quinquilharias. Ocorre que, em meio a tanta coisa inútil que incomoda e está confusamente superposta, a autora esconde uma ausência – e é aí que a poesia torna-se maior. Pergunto: como a poeta faz caber em si tanta coisa?
Divanize começa o poema Inventário (em algum momento, em meio à montanha de itens poéticos, a mania de listagem iria surgir) referindo-se à desimportâncias tão caras a Manoel de Barros: “um inventário de/ pequenas coisas/ cachos de açucenas/frascos de alfazemas/ caixas de brinquedos/ bonecas e bodoques”… e termina por negar-se à faxina: “poucos são os badulaques/ realmente necessários/ mas dispensá-los/ é uma sabotagem/ para o espírito/ inventariante e/ catalogador”. O discurso da eficiência é descartado pela poeta. Ela é uma acumuladora de memórias, de sentimentos, de impressões. Romântica? É muito provável. No ato acumulativo, a sobrevalorização do passado, a conservação próxima dos antigos significados, a resistência por desembaraçar-se de velhos hábitos são práticas comuns.
Na rica linguagem de Entraves, Divanize enumera toda a sorte de “embaraços”: flores pisadas, homens de terno, animais vagabundos, guarda-roupas e mesmo paquidermes de toda a sorte. Chama particular atenção como a poeta enxerga o corpo obeso do paquiderme, ele mesmo mais um entrave entre tantos outros. A composição Paquiderme é repleta de duplos sentidos, enriquecida por um vocabulário denotativo: “a pele do paquiderme/ padece na secura do deserto/ ranhuras prenhes de pó/ sulcos desenhados como/ quadrados na epiderme/ enquanto pasce ressequidos/ ramos sem se impacientar/ em súbita e sibilante sequência/ na sediciosa intempérie/ uma tempestade de areia/ delineia-se diante dele/ sente o impulso de desertar/ mas empaca apalermado/ tomado de paralisia suicida/ permanece parado e quieto/ em pouco tempo se alquebra/ enterrado no granito cristalino/ sucumbe na grande estrutura/ arquitetônica de seu corpo/ uma catedral de carne rota”.
É comum observar a relação entre as contradições do vazio e cheio – tudo se transforma: a pele em piso, o osso em ogivas e o corpo, em igreja. O jogo travoso entre a proximidade vernacular – epiderme, paquiderme, apalermado, intempérie – causa admiração pela erudição da autora. O binômico deserto/desertar também soma qualidade estética ao entrave vocabular e estético de Divanize Carbonieri. Nesse mesmo sentido, a pele é um tema recorrente. No poema Entraves, por exemplo, “um talho rasgado em plena epiderme/ não é qualquer falha de caráter que torna/ arrastado o existir por entre trastes/ é o completo sequestro da sanidade/ que arruína para sempre toda a chance/ de se desentulhar os últimos entraves” e, também em Riscos: a pele não é mais pintada nem riscada/ sua aspereza não se dá pelo sulcos/ arranhados por poucos espinhos e ossos”. Por fim, cito um trecho de Mestiça: “cicatriz herdada/ bordada na epiderme/ o verme que devora/ rememora o ancestral/ espectral ascendente/ resplandecente rama/ da trama antiga”. Finalmente, pinço do poema Lacuna: “a tez do tecido igual ao tema urdido/ da derme rota dessa menina morta”. Percebe-se a obsessão com a comparação entre pele e morte.
Chamo atenção para o “jogo travoso” de Divanize porque quase todas as composições são hostis à primeira leitura. É como os “tigres tristes atravessando o trem das três” ou “o rato roendo a roupa do rei de Roma”. Os entraves começam na linguagem truncada, abusando de proparoxítonas: súbito, decúbito, espírito, moléstia etc. Vai truncando, truncando até chegarmos no violento poema Úvula: “ululando/ a úvula/ uma válvula/ volátil/ da voz/ lamentosa/ o látego/ do grito/ regurgitado/ gira e atinge/ três/ tons/ timbres/ brados/ brutos urros/ roucos/ rosnados/ o couro/ cru da/ dor”. E também no poema Gatas do qual seleciono um trecho: “tigradas/ tricolores/ chitadas/ ciciando/ no colo preguiçosas/ esticando/ as garras/ estreitando/ as presas/ sorrateiras/ no assoalho das casas/ cascalho/ areia/ saltando nos galhos/ das goiabeiras”. Ainda: “mulher é a trava/ ataviada/ travestida/ avestruz/ atroz”.
Toda essa riqueza de entraves poéticos, estorvos fonéticos, de inutilidades subjetivas, esse entulho cuidadosamente inventariado por Divanize Carbonieri (vide o poema Utensílios), quer esconder uma falta – a falta do amor. O que sobra inevitavelmente sublinha o que falta. No Grande Depósito de Bugigangas, é possível rever os gatos, os utensílios, as roupas, as fotos, um conjunto sufocante. Mas, entrelinhas, a poeta acaba por se confessar: “muito eu amei/ como se animada/ por uma mania”, do poema Melodia. Ou ainda: “cumpre-se o fado/ admirável sina/ de dardejar/ o alvo que se quer/ sobejamente amar”. No poema Empório, a poeta arrola “desse grande depósito de bugigangas/ilusões empoeiradas à escolha/ de todos os catadores de destroços/ que emprestam seus esforços/ para a recolha dos cacos de sonhos”. Tantos trastes colecionados podem ser decepções que se colecionam em cartas extraviadas, em fotos amarelecidas, em pequenas lembranças opacas.
Já no final do segundo livro, Divanize entrega-se completamente: “um formidável espécime/ pusilânime caráter/ energúmeno exemplar/ imprestável indivíduo/ um infame mequetrefe/ matusquela infantil/ um cafajeste sem par/ errante meliante/ um patife de marca maior/ um amante/ amado cada vez mais e melhor”. Importante sublinhar o “matusquela infantil” e contrapor essa expressão de desejo/rejeição com o poema Corpo: “corpo é empecilho/ um castigo/ no meio uma chaga/ encharcada/ uma parelha errada/ para o macho/ menor na estatura/ piorada por todo o lado/ pelo corpo se mensura/ a capacidade/ dimensiona-se o préstimo/ e a utilidade/ com o corpo/ faço um pacto/ de ser amotinada/ desengonçada/ desgraçada/ escapando ao corpo/ posso ser de verdade”.
Na poesia de Divanize Carbonieri há muitos empecilhos contemporâneos. O corpo é o maior deles, sem nenhuma dúvida. Sua relação com outros corpos, com o espaço exíguo, com a vida e com a morte, faz do corpo o protagonista (talvez antagonista) da pós-modernidade, onde se pode riscar, traçar, tatuar, compor, recompor, fustigar, identificar. É provável que a própria Divanize inclua-se nesse grande depósito de bugigangas, no mais das vezes como um entrave, ela que incorpora o espaço de acumulação e preenche esse enorme vazio que há em todo grande poeta.

Eduardo Mahon é escritor.

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Eduardo Mahon: A literatura sem pedágios de Luciene Carvalho

CUIABÁ DO AGORA – Eduardo Mahon

A literatura sem pedágios de Luciene Carvalho

Na resenha anterior, pretendi mostrar como a terra influencia a literatura em seus diversos momentos históricos, mais especificamente fenômenos ligados à Cuiabá e suas transições no tempo e espaço. Tracei um paralelo entre o cânone “aquiniano” que pretendia idealizar a imagem mato-grossense e cuiabana como uma espécie de Éden, cruzando-se raças fortes e corajosas, com a poesia da geração seguinte que se viu aturdida com o crescimento da cidade, com a descaracterização daquela vida bucólica da pequena urbe. O projeto identitário foi concebido pela dupla D. Aquino Correa e José de Mesquita.

No excelente ensaio A Cruz encobre a Espada, o escritor e estudioso Luiz Renato de Souza Pinto deixa anotado: “A construção de elogios, opúsculos, narrativas encomiásticas e qualquer texto de caráter laudatório a ‘grandes’ homens do período colonial e imperial brasileiro era apenas parte da tarefa a que se dispuseram cronistas como Varnhagen, Capistrano de Abreu, também serve de espelho para José de Mesquita, oferecendo outra visão para a historiografia nacional”. A conclusão de seu artigo retrata a força institucionalizadora do grupo literário da época: “José de Mesquita escreve para registrar uma visão canônica da história. A sua verdade legitima a ocupação do espaço do saber pelos que dominam o conhecimento. Seu cânone gira em torno de uma profusão de ideias capazes de reproduzir forças políticas nos embates. O lugar social de Mesquita é a representação institucional de uma suposta verdade, construto que procura não colocar o preto no branco, no sentido conotativo, e sim tapar os pontos escuros com a pátina do silêncio, já que, como diria Ferro (1985, p.37): esses silêncios sobre as origens, assim como todos os silêncios ligados à legitimidade, são garantidos pela própria força das instituições”.

Pois bem. A relação com a imagem idealizada de Mato Grosso e de Cuiabá parece ter gerado sofrimento nos escritores que a confrontavam com a realidade. Como simples amostragem, recorri à poesia de Moisés Martins que recorda o passado com nostalgia, Ronaldo de Castro que se revolta e denuncia e de Silva Freire que pretende uma reconciliação com o telúrico – três formas diferentes de perplexidade diante de uma cidade que crescia e continua crescendo. Enfim, apontei na poesia de Marli Walker uma nova perspectiva de visão sobre a terra – o olhar do migrante, o desengano com a opulência aparente, o custo ambiental, a exploração da terra e das famílias que gravitam em torno do agronegócio.

O cânone sobreviveu no tempo, porém. Parece-me que a produção mato-grossense era filtrada, recebida e reconhecida, desde que não se afastasse muito do padrão estabelecido inicialmente por Aquino/Mesquita. Outros poetas poderiam muito bem nos servir para retratar a terra pela visão canônica (terra mater) como, por exemplo, Maria de Arruda Muller:

No enredamento feraz, das silvas tropicais/ Cheias de ásperas, terríficas surpresas./ Dormias sob o céu estrelado, no silêncio/ Feito de mil sons da Natureza!…/ Vieram a ti, paulistas desabridos,/ Panache sem par, de homens destemidos/ Homens “de sertão”, impávidos, fogosos/ Mais feitos de aço, que de carne,/ Trazem a esta solidão, imensurável,/ O som da língua portuguesa,/ Misturado ao jargão do curiboca…/ Eles vieram, apresar índios e encontraram/ Tanto ouro, que em vez de ir, aqui ficaram!/ Berço de aborígenes valentes,/ Paiaguás, borôros, guatós, coxiponés/ Rebentos das raças ameríndias/ Que, na imensidade do torrão, viviam/ Há milênios, livres, soberanos…/ Mansos uns, outros agressivos,/ Receberam o invasor, apreensivos./ Coroada e rica, de silva e de flores/ Em ti se mesclam, frondes de gramíneas./ – Os épicos bramidos das torrentes,/ Os tonos do trovão, o grito das araras,/ Tudo convida a ficar, nela permanecer!/ Mas, o chocar de inúbias nas monções de caça/ Assusta e impele a luta, homens de outra raça/ Porque, do áureo metal, eras matriz,/ Metal que, então como hoje, tenta e impele,/ Tendo, no seio virginal a misteriosa flama/ Atraindo homens como chama a mariposa,/ Enfrentam a luta, afrontando a morte!/ Os pés cansados, da intérmina jornada,/ Pele curtida, veste esfarrapada,/ De Itu, Porto Feliz, de Sorocaba,/ Em grandes levas, vadeando rios/ Galgando serras, varando socavões e brenhas/ Transpondo cachoeiras, precipícios,/ Elegeram estes sítios pra morada!/ Moreira Cabral, Sutil, Martins Bonilha/ Contemplai Cuiabá, após “Forquilha”…

Já vimos que a festejada poeta comungava da mesma visão dos “homens destemidos” de Aquino/Mesquita. Veremos agora como observa Cuiabá, mais particularmente:

“Cidade Verde”, de claro céu e ardentias/ luminosas de arrojado pôr-de-sol…/ As tuas águas correntias,/ os teus suaves arrebóis…/ e tuas matas de ametista,/ que fascinam a fantasia de um artista!/ Terra tapisada de flores, broquelada/ de gemas…/ És Ariel, preso ao mundo pelos pés./ Atenta a um forte impulso, para a liberdade/ que a ferrovia te dará, gentil cidade./ “Cidade Verde”! Ao tropel de loucas ilusões/ fatigado: o seio palpitante/ patenteou alfim, o bandeirante,/ a ofuscadora e incrível realidade,/ nas tuas grupiaras e monchões…/ Daí, o núcleo, todo alacridade/ Do “Senhor Bom Jesus de Cuiabá”./ Rainha e primogênita desde a fundação,/ és de Mato Grosso e da Pátria o coração:/ vigias os misteriosos estendais, que balizam os pontos cardeais…/ De norte ao sul, de leste ao oeste,/ riquezas tão faustosas, quais de Ali Babá./ Dos confins da Amazônia ao Apa sorridente,/ o látex corre a flux e a ilex viridente,/ quanto mais se ceifa, mais de adensa em mata agreste./ E os diamantes, o ouro; do Garças ao Galera/ que fizeram a grandeza de vividas eras!/ “Cidade Verde”, és um tesouro!/ Tens ainda o mesmo ouro/ que fez ricos os reinos;/ sob o solo e no caráter dos teus filhos,/ Terra mater,/ ele faísca em mil fulgores./ Amplia a tua história!/ Escalando o céu de tua glória,/ filha de audazes, mãe de heróis!

A relação com a terra dá-se noutro eixo quando se trata dos últimos fluxos migratórios. Com relação aos “chegantes”, além de Marli Walker, eu bem poderia apontar Luiz Renato, Marta Cocco e o excepcional Santiago Villela Marques. Deste último, reproduzo “Confidências do Mato-Grossense” que retirei da coletânea “Nossas Vozes, Nosso Chão”, didática que deveria ser mais apoiada pelos poderes públicos. Eis Santiago:

Nesta vida de meus anos
nunca nasci em Mato Grosso.
Mas que saudade me dá
de morrer aqui.
O corpo encerrado no oco
do último tronco de cedro
antes que o inverso leve
da praia as folhas de jacarés
no vento,
e caia a pena do tuiuiú
madurada à força.
Além da chuvinha de agosto
ninguém não vai chorar por mim
que não tenho fazenda, não
nem sou dono de gado
nem sujo a mão de soja.
Que eu sou mato-grossense
e o Mato Grosso é dos outros.
Mas sou tantos couros
que quando me esfolarem
a pele de bicho morto
nem vai doer.

Portanto, além das novas fronteiras, há uma nova percepção de Mato Grosso, como era de se esperar com a contemporaneidade. O poeta denuncia a desigualdade social e confessa o “despertencimento”, percebendo a si mesmo como um mero objeto. Esse sentimento de exclusão não é uma grande surpresa. As análises literárias que cuidam de fluxos migratórios voluntários e compulsórios registram essa reação. O que me chama atenção é como o próprio mato-grossense, o próprio cuiabano, passou a se perceber. Mesmo em Cuiabá, esse paradigma poético de D. Aquino começou a ser revisto. Na cidade que passara pelas obras modernizantes, novas impressões surgiram sobre o relacionamento com a terra natal.
Um olhar menos idílico e mais realista surgiu no final do processo de reestruturação da cidade, ultimado com a queda da antiga catedral. Caía um símbolo. Como a poesia contemporânea se relaciona com essa Cuiabá renovada? Teremos algum vestígio de ressentimento, de resistência ou de luta? Ou as mudanças já estarão integradas na mentalidade do escritor? Qual o cenário que escolhem para a nova literatura produzida na capital?

Para responder à questão, gostaria de apontar Luciene Carvalho. A escritora é comumente estudada pelas múltiplas escrituras femininas em sua obra literária. No entanto, gostaria de analisar especificamente o relacionamento dos autores com a própria terra. No livro Ladra de Flores, ela também tenta escapar da descaracterização da cuiabania, fugindo para o quintal, porto seguro da poeta:

(…)
Vi o tempo que passava
Na Cuiabá dos meus trajetos
E a cidade era tão eu…
O que eram lágrimas
Fez-se pranto e arritmia
Não sabia
Se solidões
Ou poesia
Já na Barão, novo dilema
Como atravessar
O cinturão dos conhecidos
Amigas de infância e parentes
P’ra chegar ao meu quintal?

O quintal atual de Luciene Carvalho, localizado numa das antigas casas do Porto é um recorte da memória da poeta, uma fotografia onde ela vive ou se refugia. A topologia do Porto, aliás, está descolada da capital, talvez porque, desde o início, os habitantes do distante bairro tenham vivido à parte, com sua própria comunidade religiosa, sua escola pública e sua pracinha onde brincavam as crianças. O Porto é, de certa forma, uma oposição à cidade e à tradição, um mundo à parte ou uma outra tradição. A melhor poesia de Luciene Carvalho que representa essa bolha apartada do corpo urbano é “Outros Tempos”, do livro Porto:

Fui andando pelas ruelas/ tão aquelas/ do Porto de Cuiabá// têm história…/ crianças de hoje/ brincam com netos/ de vizinhos de outros tempos// o dono da padaria/ conhece Dona Maria/ sobrinha do seo João/ Jacira que lava a roupa/ em outros tempos foi louca/ de amor por Sebastião/ que hoje toca a padaria/ porque casou com Sofia/ a filha de um alemão./ E, aqui no bairro do Porto/ vizinho é de porta adentro/ é um bairro de outros tempos,/ tem outra arquitetura./ E o que se procura acha:/ é linha, anzol, borracha;/ macumba é na baianinha,/ chá de folha é no Suat// hortaliça, arame, linha/ tem vidraceiro, engraxate/ café moído na feira/ cabelereira, sapato// o que tem de história triste/ muito serviço barato.// tem puta de qualidade/ tem putinha de tostão/ pano de prato/ cultura/ tem pedinte/ tem cafetão/ tem virgem/ tem traficante/ tem carretel, tem barbante/ suor trabalho, mistura// tem Cuiabá neste bairro/ que em Cuiabá não tem/ tem tanta história importante/ que Deus salve o Porto, amém”.

Como se vê, as referências de Luciene Carvalho são completamente diferentes do cânone que tratava da Cuiabá bela e radiante, lugar para bravos e destemidos, terra de heróis que se doavam pela pátria. Para a poeta contemporânea, a tradição desloca-se para outra geografia, muito embora a intimidade típica de cidade pequena esteja sempre presente. No entanto, temos claro uma “Cuiabá do Agora”, representação de cidade que muda e a escritora segue esse fluxo contínuo. Novos cenários são integrados à paisagem. Muito mais do que na poesia, é na prosa que Luciene inverte o eixo saudosista. Cuiabá é usada como um cenário qualquer, sem o ressentimento típico da Cuiabanália, por exemplo. Percebam o tom de Ronaldo de Castro, na poesia Meninos de Rua:

Um crime sob os céus se perpetua,
que à bandeira da pátria traz vergonha…
É o desfile da infância seca e nua
a transpirar miséria, fel, maconha.
Qual lixo humano, soltos pela rua,
são meninos sem pais, a voz tristonha
a pedir pão, mostrando a face crua
da dor de quem não come e quem não sonha.
A rua, amarga escola de bandidos,
é o palco dos meninos preteridos
pela nação que não é mãe – é algoz…
Ó pátria desgraçada!… Os maltrapilhos
da rua, eles também são vossos filhos
– apertai-os no peito junto a vós!

É no livro Conta Gotas que a escritora evidencia mais agudamente essa “nova cidade”: febril, caótica e sensual – a metrópole que Cuiabá virou. No conto Nervoso, temos a periferia cuiabana sendo escolhida como cenário: (…) lanchonetezinha chinfrim, estreita e comprida, fruto de uma casa cuiabana revisitada. O texto não tem nostalgia, não usa expressões como “demolição”, “esquecimento”, uma melancolia típica na resistência à urbanização. Prossegue a escritora: então falei que ia na sua casa e fui no campinho do CPA IV. O bairro citado é distante do centro de poder cuiabano, deslocado do quadrilátero histórico tradicional e das igrejas respectivas. Dá-se o mesmo no conto Revelação: num domingo, ela havia sido liberada para ir a uma matinê no Clube Náutico, ali no comecinho da Várzea Grande, passando um pouquinho a ponte do Porto. Na ida, tudo certo, a turminha da vizinhança se divertiu pelo caminho e se esbaldou com o som de discoteca que embalava aquele fim de anos 70.

Durante a formação do cânone literário mato-grossense, nas primeiras décadas do século XX, seria vedado o cenário, a forma, e a intencionalidade da escrita de Luciene: os arrabaldes como CPA IV e a vizinha Várzea Grande estavam fora do interesse da capital. Isso para não dizer do enfoque principal do trabalho da escritora que é a revelação da mulher, seus desejos, mistérios, rituais, cobiças. Quero, porém, voltar a me concentrar no relacionamento com a terra. No mesmo Conta Gotas, a periferia é sempre relembrada, uma margem que está integrada com o centro, não cobra e não deve nada à tradição. Eis um trecho do conto Rota:

Ela desceu do ponto de ônibus da Prainha, perto do calçadão ainda meio tonta; passou em frente à joalheria onde haviam comprado as alianças em setembro passado, numa tarde de risos e cumplicidade. As lágrimas sucumbiram às lembranças, desabando pelo seu rosto, enquanto descia a 13 de junho em direção à farmácia Pax. Comprou uma Água de Melissa de um balconista solícito que, vendo seus olhos cheios de lágrimas, perguntou se ela queria mais alguma coisa. Quero, quero sim – ela pensava, enquanto seus lábios murmuravam um obrigada pálido “quero voltar as horas, mudar o caminho das coisas, quero acordar de novo nesse sábado…” ela decidiu ir a pé pra casa após pagar a nota da farmácia. Sua dor precisava de espaço e sua cabeça tinha entrado num rodamoinho de pensamentos sem controle… quero acordar de novo neste sábado e não inventar moda de querer ir à casa de Frederico pra ter uma conversa sobre nós dois – esse negócio de discutir relação é bobagem – ainda que eu saia de casa, que eu não pegue o ônibus do CPA, que eu vá ao Porto visitar Anginha. E mesmo que eu pegue o ônibus, que eu desça na subida do Araés e vá ver Zulma, que eu desça no centro e torre meu cartão. Quero qualquer força que me mude a rota, que me impeça de chegar à casa do meu Fred e usar a chave na porta.

O trato com a cidade é diferente. Os casarões já estão no chão, a igrejinha não existe mais. O aspecto provinciano deixou Cuiabá. Já estão incorporadas as mudanças que não são opostas. Explico a provável razão: a escritora Luciene Carvalho nunca partilhou das regalias do “centro”, dos costumes dos abastados, das viagens internacionais. E, se algum dia gozou do fausto das mais tradicionais famílias, o hábito não se incorporou à mulher geograficamente plantada no Porto, uma outra cidade, um outro universo. Em geral, há saudade da perda. Se imaginarmos que a escritora não comunga do sentido convencional de tradição e nem tampouco pretende replicá-la, não há porque a obsessão com um passado naturalmente mutante.

A vida da escritora está vinculada ao quotidiano urbano quando sai do mundo paralelo que é o quintal remanescente. Ela não se lamenta por ter perdido nada porque nada era realmente seu. Da mesa aristocrática, Luciene nunca se fartou. Aquele idílio cuiabano, cantado em verso e prosa, não pertenceu à maioria da população cuiabana. A atenção da escritora está voltada para uma cidade que, até então, era apagada na literatura: a Cuiabá da mulher comum que ganha um salário mínimo, anda de ônibus, espera nas filas de banco e consome comida de rua. Destaco um dos contos de Luciene Carvalho que mais me impressiona:

As lentes dos óculos Jackie O. refletem o cumprimento ‘oi!!!’ e só então seu dia começava de verdade. A calça branca de lycra agarrava com vontade o quadril farto que se demorava na ferragem da roleta, enquanto mãos cegas fingiam procurar o vale-transporte nos escaninhos mais que conhecidos da bolsa curta de camelô. Aquele breve interlúdio matinal vinha dando alma nova à manhã dela; já não se preparava apenas para limpar os corredores intermináveis do Hospital Geral, já não se exasperava com clorofórmios e desinfetantes, já não se incomodava com o escarro do pai que se levantava para continuar o porre interrompido na noite anterior; já não lhe pesava a chegada dos 45 anos. Não! Acordava para ele, se vestia e maquiava para ele; o cobrador da linha 508. Tinha que ser pontual para pegar o ônibus certo e poder realizar aquela cena matinal: unhas pintadas com esmalte vermelho escondiam o contato com os corrosivos e descansavam por um minuto sobre a caixa de dinheiro. O cabelo alisado com chapinha no fim-de-semana exigia que ela se inclinasse em direção à bolsa para mostrar seu balanço, a língua umedecia o lábio roxo de cuiabana antiga e: ‘Oi’!!!

O que se evidencia no texto de Luciene é a empregada doméstica, a secretária, a babá, a frentista, a enfermeira, milhares de mulheres do povo grandemente desaparecidas da primeira geração de escritores mato-grossenses. Esse “apagamento” como tão bem estudado por Marli Walker é simplesmente uma barreira imposta por intelectuais alinhados com o conservadorismo provinciano: não se publica e, se publica, não se comenta. Daí que a poesia divergente desaparece dos compêndios, das antologias, dos estudos universitários, da bibliografia enfim. Luciene Carvalho encontra-se desafiando o “standard” feminino consolidado em Mato Grosso: a mulher do lar, obediente e intelectualmente conformada. Mulheres havia, é certo, mas nenhuma com os quadris metidos na “calça de lycra”, as unhas enfeitadas de “esmalte vermelho” e os “lábios roxos”. Essas mulheres de Luciene Carvalho não estão castradas, para resumir numa frase.

De qualquer forma, essa “nova Cuiabá”, igualmente feminina e sensual, não censurada e livre de pedágios institucionais, vai surgir entre 1980 e 2000, mostrando-se mais mundana do que supunham os autores pudicos, religiosos e patrióticos que forjaram o cânone mato-grossense. Os tempos são outros: é a vez do agora. Luciene Carvalho continua produzindo. Estou à espera de “Dona”, o novo livro. A poeta promete que vai dar BO. Ela sabe o que está fazendo, sabe o quê e quem está provocando. Como dizia Bakhtin no seu Teoria do Romance: “por trás da narração do narrador lemos uma segunda narração: a narração do autor sobre a mesma coisa narrada pelo narrador e, além disso, sobre o próprio narrador. (…) Não perceber esse segundo plano intencional e acentual do autor implica não compreender a obra”. A gente está sacando tudo, Luciene. Vá em frente!

CUIABÁ DO AGORA – Eduardo MahonA literatura sem pedágios de Luciene CarvalhoNa resenha anterior, pretendi mostrar…

Publicado por Eduardo Mahon em Segunda, 25 de junho de 2018

 

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“Estamos no Estado que apresenta os maiores índices brasileiros de violência contra a mulher, uma tragédia sob todos os aspectos”, diz Eduardo Mahon

Ensinar a não bater (E.M)A deputada Janaína Riva apresentou um projeto para ensinar nas escolas métodos de prevenção à…

Publicado por Eduardo Mahon em Quarta-feira, 13 de junho de 2018

Ensinar a não bater (E.M)

A deputada Janaína Riva apresentou um projeto para ensinar nas escolas métodos de prevenção à violência contra a mulher. Foi o suficiente para que uma artilharia pesada fosse disparada nos grupos de discussão: a escola precisa ensinar matemática – é o melhor argumento. Os mais criativos dizem que a escola contemporânea precisa ensinar ao aluno a escrever machismo com “ch”. O tema vira piada. Ocorre que não é nenhuma piada. Estamos no Estado que apresenta os maiores índices brasileiros de violência contra a mulher, uma tragédia sob todos os aspectos. A escola precisa ensinar matemática? É claro. Mas, pense um segundo: quantas vezes, na vida prática, você utilizou a fórmula de báskara? Quantas vezes lembrou do logaritmo de base dez ou da fórmula do apótema da base de uma pirâmide triangular? O que mais temos no ensino é uma coleção de informações sem o menor nexo, sem que o professor saiba orientar quando e onde poderemos utilizar essa decoreba. Nas matérias humanas, dá-se o mesmo. Quem se lembra que a população de Palmas é de 217.056 habitantes?, que Ácia Balba Júlio Segunda Cesônia casou-se com Caio Otávio, primeiro imperador romano?, que “fato”, em bom português, significa terno enquanto facto é um acontecimento?

O que a escola ensina é uma eleição, ou melhor, uma convenção conforme o tempo e lugar. Não há conteúdo sagrado, um tabu escolar. As ementas das disciplinas estão a mudar e é bom que assim seja. Do contrário, estaríamos ainda na época das palmatórias, onde se aprendia os casos nominativo, genitivo, dativo, acusativo, ablativo, vocativo ou locativo, sob ameaça de ajoelhar no milho. A educação muda como a sociedade muda. Aprender na escola elementos do quotidiano que podem transformar a forma de convívio futuro é essencial. Não há regras na sociedade? Evidente. Por que a escola não ajudar a juventude a observar, entender e praticar valores e comportamentos? Não vejo qualquer problema. Mas e o seno, o cosseno e a tangente? Vão bem, obrigado. Ensinar valores em nada atrapalha o ensino da matemática, fiquem tranquilos. O que mais me causa perplexidade é gente esclarecida ser contra.

No mundo todo, há programas escolares de educação no trânsito. Por quê? A explicação é óbvia: as crianças e jovens, algum dia, serão condutores. Portanto, é preciso se habituar com a forma de convívio no trânsito, suas regras e, inclusive, a etiqueta: dar preferência ao pedestre, não guiar com luz alta, respeitar a velocidade. Ora, se crianças são ensinadas a respeitar placas de trânsito, qual a razão pela qual não seriam educadas para a não violência contra mulheres, pessoas com outras identidades sexuais, culturais e religiosas? Na minha opinião, o que mais falta no Brasil é o ensino da tolerância. Estamos ficando adoecidos. Há censores da vida alheia em toda a parte, pacíficos ou violentos. Não admitem a alteridade, o diferente. Incomodam-se com a diversidade. São esses mesmos que pretendem afastar a educação do caminho da tolerância. São esses mesmos que acreditam que a escola é lugar para decorar a tabuada, o emprego do hífen, a população de Palmas, a fórmula do apótema da base da pirâmide triangular.

Tenho uma certa pena de gente quadrada, ou seja, que tem as arestas idênticas. Sofrem com a convivência em sociedade, almejando que sejamos uniformemente tratados para que nos tornemos idênticos. A educação contemporânea não está aí para isso, felizmente. Quer-se um ser humano pleno, sensível a problemas sociais e que tenha meios para transformar a realidade. Quer-se ética. Ensinar a não bater em mulher, a não agredir negros, a não insultar judeus, a não roubar o público ou o particular, a respeitar decisões majoritárias, a não ser beligerante, enfim, é muito mais importante do que decorar o ciclo de Krebs. Francamente, como tem gente que fecha os olhos para a realidade e nega-se ao óbvio! Diante dos índices avassaladores de violência contra mulheres, contra gays, contra negros, deveríamos mesmo tornar obrigatória a disciplina de humanidade. Pois o que mais falta hoje em dia é isso: humanidade – voltar a conscientizar o homem de que não é mais um macaco e que, portanto, precisa aprender valores, convívio, diálogo etc. Eis o beabá da educação.

Eduardo Mahon é advogado e escritor.

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Marli Walker: um novo marco literário em Mato Grosso

MARLI WALKER: um novo marco literário em Mato Grosso (E.M)Considero “Pó de Serra” e “Apesar do Amor”, de Marli Walker,…

Publicado por Eduardo Mahon em Quarta-feira, 6 de junho de 2018

Considero “Pó de Serra” e “Apesar do Amor”, de Marli Walker, um marco para a literatura mato-grossense. Walker inaugura a visão realista sobre o desbravamento das terras nativas, fazendo uma contraposição evidente com o idealismo típico dos primeiros autores. Não sei realmente se os críticos Mário César Silva Leite e Marta Cocco estão corretos em afirmar ter havido um projeto literário parecido com o que se viu em termos nacionais após a independência: a visão grandiloquente da terra e do homem. José de Mesquita, irmão intelectual de D. Aquino, retrata a figura do bandeirante como o introdutor da salvadora fé cristã em Cuiabá:

Mãos de mulher, na velha e heroica Sorocaba,
fizeram esta augusta imagem do Senhor.
Trouxe-a não um estranho, um ádvena, um emboaba, mas Pedro de Moraes, paulista sem temor.

Dura a rota, cruel a jornada, em que acaba
o ânimo do mais rude e audaz desbravador:
rios nove a vencer, desde Araritaguaba!
Serras e boqueirões medonhos a transpor!

Mas quando, baldo o esforço, a energia vencida,
param em Camapuã desalentadamente,
vem a imagem buscar uma turma luzida,

que, entre festas e gáudio, às minas a conduz:
e doando o Bom Jesus à Cuiabá virente,
a linda Cuiabá consagra ao Bom Jesus!

A idealização romântica em Mesquita, comungada com D. Aquino, está presente em Civitas Mater:

Meu carinho filial e meu sonho de poeta
Vêem-te, ó doce cidade ideal dos meus amores,
Em teu plácido vale, entre colinas, quieta,
Como um Éden terreal de encantos sedutores.

É provável que, em maior ou menos escala, essa tendência tenha sido fixada como padrão por D. Aquino, uma espécie de alterego literário mato-grossense que virou canônico pela força institucional da própria personalidade e do elemento identificador que propunha. A exaltação de Aquino Correa já foi objeto de estudo de muitos pesquisadores: cidade verde, ouro reluzente, brava gente, amor pela pátria, são elementos que forjam uma identidade inventada, uma lição que Antonio Candido deixou a seus discípulos: interpretar o sistema literário historicamente, a fim de perceber que coincidências são, na verdade, um tipo, uma forma, um projeto intelectual e (por que não?) político.

Se os autores do final do século XIX e princípio do século XX tinham mesmo como proposta política a construção de um Mato Grosso de riquezas que abundavam e se entregavam ao conquistador, sem maiores turbulências, em Marli Walker percebemos o anticlímax dessa visão idealizada choca o leitor. O enfrentamento da escritora é notório. Ela não está interessada em idealizar a conquista da terra, forjar heróis ou elaborar epopeias. Dá-se justamente o contrário, em razão do momento histórico diverso. Com crueza e desencanto, narra o cerrado conquistado à força, ceifado, queimado, aniquilado em favor da grande produção agrícola. Se o locus literário é o mesmo, o ethos é radicalmente alterado. Por isso, Walker é um marco, ou melhor, uma das marcações históricas de uma “virada” interpretativa. Vejamos como define o “norte”:

há o silêncio encolhido nos restos de paisagem
há o solo recortado
há promessas que se foram
e há vida que não foi
há o susto
o injusto
o sujo
o feio
há o sangue no seio da espera
paraíso de leite e mel
partido ao meio

As esperanças de uma “terra prometida” não se concretizaram. Nem para os nativos, nem para os migrantes. Se, no início do século XX, a terra era uma promessa de riqueza, um destino de grandeza, no final já era tida como arena de conflitos. Marli Walker produziu em meio ao cerrado visto como oportunidade comercial e não como terra prometida. Era de se esperar a adesão ufanista ao modelo do agronegócio ou a denúncia das contradições do sistema predatório. Poucos poetas estão imersos nesse dilema e, por isso, a poesia de Walker produz efeitos diferentes dos tradicionais.

O poema “destino”, além de reproduzir a temática de muitos outros, em “Apesar do Amor”, faz um jogo de palavras com “capital”, identificando Cuiabá com o centro dos interesses financeiros do contraditório agronegócio que se nega a distribuir riqueza:

entre uma e outra safra
não se colhe para a fome
a colheita é o capital
na capital que é sem nome

A crítica da poeta intensifica-se no poema “celeiro”. Repetem-se as obsessões literárias de Marli Walker: o grão, a comida, a terra, a miséria em meio à produção. A cornucópia nortista (esse agressivo modelo desenvolvimentista que os chegantes ufanam-se), é profundamente questionada:

em cada grão a ração
o germe a fome a fé
estoque frio de comida
princípio início embrião
será pasto ou será pão?

O livro “Apesar do Amor” prossegue como reflexo da opção da autora por registrar o progresso deletério, a exploração irresponsável, o crescimento irrefletido. O pasto largo, o campo fértil, a semeadura constante vão contrastar com a mesa magra. “Os meninos” de Marli Walker (uma figura recorrente) são anjos famintos que morrem e viram sementes, mas não as sementes das quais vão surgir outras gerações. Não brota esperança nos campos e nos pastos da poeta. No poema “sementes”, a escritora questiona:

quantos grãos são necessários
pra abastecer os armários
das casas que não têm chão?
tantos grãos desperdiçados
tantos meninos ilhados
no mar inglório de grãos

A denúncia do desenvolvimento já se vê em Silva Freire e, principalmente, em Ronaldo de Castro. Mesmo o poeta Moisés Martins Mendes Júnior denuncia seguidamente o desmonte da terra acolhedora e o não reconhecimento nesta nova realidade. Há duas diferença marcante entre eles, contudo – o tempo e o ponto de vista. Os poetas citados não participaram do processo de desbravamento, estiveram longe das motosserras, dos tratores de plantio e colheita. O Mato Grosso de Silva Freire, no máximo, tinha no garimpo um símbolo de exploração. O de Marli Walker está repleto de um verde organizado, alinhado, metódica e artificialmente plantado, experiência não partilhada pela maioria dos escritores que sublinharam a terra.

Benedito Sant’Anna Silva Freire tinha o compromisso estético inovador, sem romper com o cânone tradicional, contudo. Portanto, ainda que houvesse o descontentamento com a modernidade, o elemento regional ainda estava bastante idealizado, ou melhor, reinventado pelo próprio autor. As minhas faiscantes de Aquino iriam ser mescladas com as peraputangas brilhantes de Freire. Até mesmo a visão do garimpo vem acompanhada por uma dose de romantismo. Parece-me que o mérito de Freire foi deglutir o nativismo para criar uma civilização própria, aquela que cabia no entendimento do bugre, mas que encantaria o estrangeiro. Nesse ponto, concordo integralmente com Mário César e Marta Cocco.

Já Ronaldo de Castro escracha o protesto, ressentindo-se de uma “Cuiabá Canalha”, no seu inesquecível Cuiabanália. Ele não entende o desenvolvimento por que passa. Quer romper, quer quebrar, quer impedir a todo o custo. Finalmente, Moisés Martins é essencialmente nostálgico, relembrando a belle époque vivida pela capital na primeira metade do século XX. São três grandes referências para compreender a crise contemporânea, a desfiguração da cidade-província, o despertencimento que causa a ruptura da tradição. O trio esteve imerso em Cuiabá, nas tradições cuiabanas, e não situados na lonjura da “nortista” Marli Walker. Portanto, o tempo e o espaço fazem toda a diferença na expressão final de cada um deles e, mais particularmente, da poeta analisada.

Vejamos como Silva Freire resiste ao processo de descaracterização da terra:

Cotxipó-da-ponte
É reduto e atalaia na resistência estacada
De seresteiros
Ou resumo orquestral
De chorinhos
Rasqueados
E valsas puras
Quase um turbilhão de abismo tropical de Rosa…
Ao violão
Violinos
Flauta
E cavaquinho

De Moisés Martins, cito a nostalgia como forma de resistência:

Cadê seus becos?
Em casa esquina, um “chinfrim”
Um bêbado alegre, trançando as pernas, “ansim, ansim”
Beco sem cara, chamado “Chico”
Sem moagem, sem fuchico
Sem vira-lata que late,
Sem biscate sem donzela,
Namorando na janela.
Sem feijoada na panela,
Sem carrinho do peixeiro, sem o grito do padeiro
Sem pagode, sem rasqueado, não é Beco não!
Onde andam os meus becos,
Do sovaco, quente, torto, urubu,
São Gonçalo e candeeiro.
Cadê meus becos? Cadê meus becos.
Entre prédios e arranha-céus, abafados,
Morrendo tudo que Deus me deu
Sepultado pelo tempo!

E, de Ronaldo de Castro, é claro que vou revisitar um trecho de Cuiabanália:

Ah! Cuiabá canalha
Cuiabanália
Cortesã das multinacionais
Com seu arsenal eletrônico
Agônico
Estereofônico
Biônico
Supersônico
Atômico

Os elementos antigos são sublinhados, a tradição da terra, engrandecida em Freire e Moisés. Ambos se perguntam onde está o meio ambiente típico, onde cresceram, onde quiseram ficar no tempo. Não se encontram mais espelhados no presente e, portanto, pretendem produzir uma espécie de inventário. Por outro lado, as multinacionais já estavam preditas e malditas pelo inquieto Ronaldo de Castro. Ocorre que o poeta ainda cita o aspecto telúrico da terra, da raça, dando continuidade às loas típicas ao povo mato-grossense, mais especificamente ao povo cuiabano. Ronaldo de Castro culpa o elemento externo, muito embora aponte para a leniência da própria cuiabania que se deixa dominar facilmente. Ainda assim, o nativo é pintado como vítima.

Já Marli Walker não pretende a continuidade da tradição, não se mostra revoltada e nem tampouco nostálgica. A visão literária trazida em “Pó de Serra” é exterior ao fenômeno da cuiabania típica. Embora a autora viva em Mato Grosso há mais de 30 anos, não bebeu do saudosismo de quem nasceu e cresceu entre 1918 e 1968. Além do mais, deliberadamente não se mostra sujeita a prosseguir com a tradição de cantar a terra simbólica, a terra agarrativa e linda, como diria Gervásio Leite, outro modernista cuiabano seduzido pela tradição.

A questão para Walker é desnudar o processo de colonização brutal, os efeitos deletérios, os enormes desertos de sentido da fronteira brasileira empobrecida e dominada por interesses financeiros. Como essa mulher está inserida nesse meio masculino de trabalho braçal? O que admirar e o que detestar? Qual o resultado do novo ciclo econômico? A desilusão com essa “nova bandeira”, o desencanto frente à ganância, o sutil trabalho de convencimento do leitor para as contradições do capitalismo, tudo isso é matéria-prima da poeta, um alvo que é o mesmo dos poetas já citados, mas sob enfoque absolutamente diferente.

De certa forma, a autora é também uma defensora de Mato Grosso e suas riquezas. É que cada qual defende a terra como pode. Ela o faz de forma realista e do ponto de vista dúplice: a poesia produzida por Walker volta-se contra os conterrâneos chegantes e os responsabiliza pela voracidade desregulada no trato com a terra. Mas o faz de maneira inovadora. Não vitimiza o nativo, não induz ao banzo ou à catarse coletiva. Deixo sublinhada a produção de Marli Walker porque ela alcança o ineditismo frente a duas correntes literárias que a precederam – de um lado, a terra romanceada e, de outro, o tom ressentido do que viria depois. Temos uma poesia equilibrada na realidade vivida com a migração e o horror diante do projeto de fixação financeiramente bem-sucedido e ambientalmente malogrado. Nesse sentido, convém destacar um poema de “Pó de Serra”:

Árvores mortas
Labirintos de madeira
Sonhos esculpidos
Com suor e fé
Paisagem com sede
De homens valentes
Imitadores do mundo
Tão pequeno, tão perto
Vigiando a respiração
Da mata remanescente
Invasores pós-modernos
Carentes de árvores
De peles-vermelhas
De água e pássaros
Carentes de paz

Como vimos, a denúncia não vem com a rudeza ressentida de Ronaldo de Castro, nem com a nostalgia de Moisés Martins, nem ainda com a reinvenção cabocla de Silva Freire a tentar mesclar o velho e o novo, o endógeno e o exógeno. De outro lado, não há o tratamento romântico emprestado ao bandeirante por Aquino Correa. Em Walker os adjetivos são outros: “invasores”. Noutro poema de Pó de Serra, aprofunda-se a desterritorialização do migrante:

Sociedade de povos errantes…
Imagens de sul, de sol e de sal
Nas tuas praças e no mapa da mina
Os teus pecados lamentam teu mal
Povos silenciados no teu sonho Capital

Novamente, percebe-se o jogo de palavras com “capital”, variando entre a grandeza e a morte. O povo identificado por Marli Walker veio do sul e do litoral, perdeu-se na própria gula exploratória e ainda não se encontrou.

Marli Walker caminha com ironia, tecendo uma crítica mordaz nas entrelinhas de sua poesia. O “verde que sobra na calçada” (presente no Pó de Serra) é um deboche sofisticado, por exemplo. Portanto, a literatura desenvolvida por ela seja um marco: o olhar de fora sobre esse novo ciclo econômico, concomitantemente ao olhar por dentro do elemento alienígena, algo inédito na literatura mato-grossense, comparável mesmo a Lobivar Matos que nos legou uma visão completamente distinta da tradicional sobre o negro, o índio, o trabalhador e os conflitos sociais contemporâneos, abrindo mão do tão precioso soneto. Vejamos um trecho de um poema do Sarobá de Lobivar:

Naquela roça grande não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações:
Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.
O café vai ser torrado
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado.
Negro da cor do contratado!
(…)
Quem faz o branco prosperar
ter barriga grande – ter dinheiro?
Quem?

A poesia de Marli Walker passa a ser leitura obrigatória para estudiosos que pretendam dialogar sobre o contemporâneo de Mato Grosso, uma terra continental. O Estado precisa ser enxergado além das típicas idiossincrasias convencionais, fora do rodamoinho costumeiro para onde são arrastados muitos escritores no rebojo do cânone literário e, finalmente, fora da gravidade cuiabana. Não pode passar despercebida essa poética nova que servirá de parâmetro para se compreender, no futuro, o que se passou conosco neste desencantado presente.

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Rubenio Marcelo lança em Campo Grande livro de crítica cultural que também contempla autores de MT

Da Redação | O lançamento do livro Palavras em Plenitude – prosa e crítica cultural”, a 12ª publicação autoral do escritor Rubenio Marcelo, será na próxima terça-feira, 22, a partir das 19h30, em Campo Grande (MS). O evento será no auditório da Academia Sul-Mato-Grossense, que se situa na Rua 14 de Julho nº 4653, altos do São Francisco, na Capital Morena. Em seguida, o livro será lançado também no Festival América do Sul Pantanal (FASP), que vai acontecer de 24 a 27 de maio/2018 em Corumbá/MS.

    Aprovado pelo FMIC/Sectur-CG/MS e chancelado pela Ed. Life, o livro traz textos em prosa, enfeixando resenhas, crônicas, ensaios com enfoques de crítica cultural acerca de personagens regionais desta área e, dentre os contemplados na obra, nomes também de Mato Grosso, como Eduardo Mahon, Benedito Pedro Dorileo, Olga Maria Castrillon Mendes, além dos saudosos Dom Aquino Corrêa e Zulmira Canavarros, a ‘Coleção Obras Raras da Literatura Mato-Grossense’, e a Histórica 1ª Sessão Conjunta das duas Academias de Letras estaduais: AML e ASL, que ocorreu na sede da AML, em Cuiabá/MT, na noite de 10/09/2015.

O livro possui prefácio do escritor Geraldo Ramon, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras; apresentação de Valmir Batista Corrêa, da ASL e do IHGMS; além de comentário de ‘orelha’ de Samuel Medeiros, da ASL e do IHGMS; e resenha (quarta capa) de Paulo Nolasco, escritor e crítico literário.

O prefaciador assim afirma num trecho: “Este novo livro de Rubenio Marcelo é uma oportuna coleção de análises críticas, literárias e/ou outras, com crônicas originais, cada qual confeitada numa evolução temática específica, fluente e bem concatenada. Cada capítulo é uma peça colorida de uma vívida engrenagem, cuja textura global – além de transmitir interessantes informações – alenta a alma do leitor, conforme sua necessidade no momento.  Já o escritor e historiador Valmir Corrêa assegura: “O livro ‘Palavras em Plenitude’, de Rubenio Marcelo, reúne textos e ensaios autorais que sintetizam produção artística regional contemporânea, bem como a memória cultural, e também outros em prosa, todos dosados de expressiva qualidade literária”.

    Rubenio Marcelo é poeta, escritor, compositor e crítico cultural, membro efetivo e secretário-geral da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (Cadeira nº 35) e membro correspondente da Academia Mato-Grossense de Letras, empossado em 10/09/2015.

Autor de doze livros e três CDs, é filiado à União Brasileira de Escritores (UBE-MS). Recentemente, lançou o livro de poemas “Vias do Infinito Ser” (pela Ed. Letra Livre), e – em show aberto no Sesc Morada dos Baís / Campo Grande – o CD musical “Parcerias: na poética de Rubenio Marcelo”. Destacam-se também em suas produções os livros: “Graal das Metáforas”, “Horizontes d’Versos”,  “Voo de Polens”, e “Veleiros da Essência”. No mês de março próximo passado, lançou livro e o seu CD “Parcerias” em Portugal, no Departamento de Línguas e Cultura da Universidade de Aveiro, onde também realizou outras atividades culturais. Também advogado e revisor, reside em Campo Grande/MS. (Com material da Assessoria)

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O Mundo Binário de Eduardo Mahon – por Ana Lúcia Rabecchi

Por Ana Lúcia G. S. Rabecchi | As histórias de Eduardo Mahon, além de serem nutridas pela experiência de leitura que reconhecemos num grande repertório, elas oferecem e tiram a ilusão de compreensão. O romance O homem binário e outras memórias da senhora Bertha Kowalski é uma alegoria das atitudes que o homem toma, ou se entrega, diante da perspectiva da morte, daí a narrativa ter como conteúdo a busca incansável por aquilo que ele, até então, não podia comprar: a imortalidade. Naturalmente essa busca é permeada pela discussão do conceito de humanidade de “forma mais radical”, como diz o autor, que termina por nos levar a uma reflexão do que seja humano versus desumano e da vida versus a morte. Vejamos a reflexão da psiquiatra Justyna Klos:

“Não é preciso nem mesmo estar num consultório médico, senhora Kowalski. Basta recorrer aos arquivos de história. Homens podem não ter humanidade alguma. O que chamamos de humanidade é, na verdade, uma construção tão rebuscada quanto fictícia. A humanidade, enfim, não é uma propriedade inata. E, se esse conjunto de atributos que apelidamos de humanidade não é partilhado por todos os seres humanos, é verdade que pode ser observado noutros seres, até mesmo nos virtuais. Basta não ter preconceito e levar a proposta do senhor Platek às últimas consequências” (p.143, grifo meu).

É exatamente discutir esse “e se…” que o romance faz ao nos deixar sufocados não pela morte em si, mas pela clausura da vida num software, que pode encarnar também a metáfora dolorosa do mito de Prometeu Acorrentado. Essas reflexões justificam a boa trama de O homem binário, onde vida e morte são verso e reverso da mesma moeda. A fragilidade e finitude da vida na realidade realçam o medo e a angústia da morte.

A vontade de se perpetuar mesmo numa vida diferente faz com que a empresa Continuum Co alcance sucesso com sua fórmula de prolongar a vida e vender a felicidade ao homem através da visão de eternidade. A morte, então, perde o “caráter monstruoso” e passa a ser um estado de mudança de existência, uma migração deste lugar para outro como diz a epígrafe Apologia de Sócrates, com a qual o romance mantém diálogo, dentre outras obras.

Mahon, porém, vai além, banaliza a morte ao exaltar ironicamente a ciência e a tecnologia que conseguem guardar a personalidade, mas não abrandar seus medos, pois Josef Platek se ressente de ser um homem torturado ao “virar uma alma sem corpo, penando sem espaço e sem tempo”, o que a personagem diz ser uma condenação “não dormir, não acordar, não envelhecer e não morrer”, ou seja, uma cópia desumana do homem.

Em Alegria a questão da aparência e da realidade que permeiam toda boa ficção continua em pauta. Assim como Macondo em Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez, Alegria é uma ilha da imaginação. A narrativa passa da criação ao apocalipse cumprindo um ciclo de vida e morte, onde esta mostra suas múltiplas faces. A cidade é vitimada por uma epidemia de suicídio em massa de peixes que desencadeia o medo, a angústia, a tristeza, o desespero, a solidão e, consequentemente, o suicídio dos homens, que vai se transformar em epidemia por impotência diante de um fato inexplicável, onde “a morte alcança até quem não havia nascido” (p.107).

Assim como A peste, de Albert Camus, que serve de epígrafe em Alegria, a iminência da morte relembra ao homem a sua pequenez diante da finitude e o faz querer agarrar com todas as forças à vida, que teme perder a qualquer momento. O desespero das pessoas é narrado por um dos médicos da cidade que tenta amenizar os males sem sucesso, restando-lhe apenas a solidariedade e a compaixão.

A morte neste romance de Mahon é recorrente e faz com que o narrador vá refletindo sobre a postura do homem perante o mundo e a si próprio. Com seu senso de humanidade e/ou desumanidade vive toda tragédia e reflete: “Há solidão em qualquer lugar, não é preciso buscá-la, com tanto afinco. Na ilha estive nessas condições sem buscar por elas” (p.160). A ilha, então, vem ser a clausura do homem abandonado à própria sorte.

Nessa contação de história, cujo final nos desestabiliza, valemo-nos de Garcia Márquez em O amor no tempo do cólera, para também afirmar a suspeita de que em Alegria “é a vida, mais que a morte, a que não tem limites”.

* Profª. Drª Ana Lúcia G. S. Rabecchi é professora da UNEMAT – Cáceres.

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UFMT: além e aquém de si mesma – Por Eduardo Mahon

UFMT: além e aquém de si mesma (E.M)Alguém se lembra que, todos os meses, a Faculdade de Economia da UFMT era…

Publicado por Eduardo Mahon em Domingo, 18 de março de 2018

Por Eduardo Mahon | Alguém se lembra que, todos os meses, a Faculdade de Economia da UFMT era consultada para explicar a variação inflacionária? Que, em todas as grandes obras do Estado, a Faculdade de Engenharia Civil da UFMT era consultada para dar parecer? Alguém se lembra que, em todos as grandes questões ambientais, as Faculdades de Engenharia Florestal e Biologia eram convidadas? Quem lembra que, a toda grande mudança legislativa, eram consultados os professores da Faculdade de Direito? Não foram poucas as vezes que vi, nos jornais, várias matérias ancoradas no conhecimento gerado pela UFMT que, aliás, transformou a cara de Mato Grosso, auxiliando no brutal desenvolvimento a partir da década de 70. Basta lembrar que muita gente foi obrigada a tomar um navio para ir estudar fora, onerando a família que poderia fazer esse gasto. No entanto, há muito tempo, talvez uns vinte anos, que ando preocupado. Mesmo que a UFMT também tenha crescido, duplicado, triplicado, quadruplicado o número de seus cursos, seus professores, alunos e campi, há pouca interação com a sociedade.

Lançamento de livros? É no bloco IPX-32, 3º andar. Palestra de filosofia? Fica no bloco GDK-59, 2º andar. Seminário de comunicação? Basta ir ao auditório do TCL-30 e descer dois pavimentos. Apresentação de tese de doutorado? Salinha FMP-81, lado esquerdo, no final do corredor. E aquela apresentação da professora do Rio Grande do Sul? Ainda não sabemos, mas tudo indica que será no CCBTJ-98, três lances de escada acima. Afinal, quem sabe o que a UFMT produz? O que se escreve? O que se gera de conhecimento? Garanto que pouca gente. A interação social entre a ciência de altíssima qualidade e a comunidade mato-grossense não é apenas um hiato, é um abismo. Aparelhos fundamentais são profundamente subutilizados, além das salas ociosas, do enorme contingente de alunos que se evade, da falência das áreas de convivência coletiva. Passar pela universidade à noite é um desafio, estacionar é um pesadelo. Todas as vezes que vou a um evento lá, recordo da música do Chico Buarque: “junto à minha rua, havia um bosque que o muro alto proibia”. O que aconteceu com o conceito inclusivo de Wlademir Dias-Pino no símbolo da UFMT? Onde está a UFMT além dela mesma? Está nas escolas? No mato? Nas plantações? Os alunos fazem dela um laboratório ou serão eles mesmos os ratinhos para experiências? Depois que pegam o título: o mestrado, o doutorado, o que fazem? Alguém faz o mapeamento disso na sociedade? Há programas para retorno/convívio dos egressos nos programas desenvolvidos?

Os estudos segmentados em grupos, grupinhos, grupelhos, são tão exclusivistas e pouco comunicativos que ninguém sabe a importância e, sobretudo, a aplicabilidade que podem gerar. O que aconteceu? Foi a UFMT que cresceu demais? Talvez tenha dado um passo maior que a perna. Foi o Estado que cresceu demais? Talvez tenha havido um desligamento da fonte de conhecimento científico. Foram as duas coisas? É um problema de comunicação entre aqueles que insistem na linguagem criptografada de um academicismo nobiliárquico? É a convivência com uma nova sociedade que só rumina a praticidade mastigada? Eu realmente não sei responder exatamente o que aconteceu e continua acontecendo. O fato é que a universidade tem uma TV e, nem assim, consegue se comunicar. Essa é a certeza que me resta: a maioria dos projetos desenvolvidos prescinde da fase de comunicação social, seja no começo, seja na apresentação dos resultados. Nós (aqui do mundo real, extramuros) nós que somos milhões de pessoas que reconhecem o quão significativa é a UFMT, não temos a menor ideia do que se passa lá dentro e do potencial que há para a formulação de parcerias, convênios, programas que auxiliem Mato Grosso. É por essas e outras que valorizo tanto ações culturais da Procev quando convida “gente de fora” para eventos, porque parece faltar “gente de dentro” que se prestigie mutuamente.

Falando em Mato Grosso, faz já algum tempo, olhei um convite para o lançamento de um trabalho interessante sobre o cisma papal de quase um século atrás e fiquei a me perguntar qual seria o público-alvo da publicação, do evento, do debate. É certo que o conhecimento científico não pode andar de cabresto com interesses regionalizados, mas não menos certo de que, em algum momento, o interesse de Mato Grosso deveria convergir com alguns estudos desenvolvidos na UFMT, sobretudo no que diz respeito aos desafios quotidianos: meio-ambiente, transportes, energia, engenharia, medicina, educação, cultura etc. A adesão da universidade ao Enem já retirou toda a possibilidade do alunado tomar conhecimento com a história, geografia e literatura mato-grossense – um dos maiores equívocos de uma universidade politicamente alinhada. Outras adesões nacionalizam, internacionalizam o debate, o que é ótimo para ampliar a perspectiva científica. Em termos numéricos, está tudo melhor do que no meu tempo de estudante: mais mestres, mais doutores, mais cursos. Parece que tudo aumentou, cresceu, fermentou na UFMT. Menos a sua influência. Por quê?

*Eduardo Mahon é formado pela UFMT.

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Eduardo Mahon: O político é um homem público que tem obrigação de ser simpático, de atender bem, de ser educado e atencioso, de mostrar-se solícito e sensível aos problemas dos outros

MISS ANTIPATIA (E.M)O personalismo político é tão atraente como repulsivo. No início, costumamos apostar na figura do…

Publicado por Eduardo Mahon em Sexta, 2 de março de 2018

O personalismo político é tão atraente como repulsivo. No início, costumamos apostar na figura do herói, do salvador, do xerife, quando não nas três imagens unidas numa única pessoa, como no caso do atual Governador Pedro Taques. Era bastante simples a opção de voto, após a passagem da nuvem de gafanhotos que devastou Mato Grosso. Eu mesmo cheguei a lançar Taques à Presidência da República por três motivos: não havia (e não há) candidato moralmente decente, Taques vinha de uma excelente performance no Senado e, ainda, poderia consertar o estrago que garimpeiros amadores fizeram às contas públicas do Estado. Portanto, era natural a esperança. Ocorre que, quanto maior a esperança, maior a frustração. A atração pelo chefe, pelo líder, pelo homem que prometia a moralização da máquina pública foi dissolvida em repulsa pelo megalômano, pelo egocêntrico, pelo capataz-administrador que menospreza de servidores a parlamentares.

Nas pesquisas mais sérias, a enorme rejeição não se volta contra o governo e sim contra o governador. Por que? Pela crônica antipatia. Ele diz – e disse comigo ao lado – que fez concurso para miss simpatia. Parece, no entanto, que estamos lidando com o vencedor do troféu miss antipatia. O político é um homem público que tem obrigação de ser simpático, de atender bem, de ser educado e atencioso, de mostrar-se solícito e sensível aos problemas dos outros. Diria, inclusive, que em tempos tão bicudos como os nossos um governador deve ser mais simpático que a própria miss simpatia, para manter a motivação, a autoestima, a convicção no projeto, mesmo diante da crise financeira. Não é o único problema. A teimosia com a comparação, a fixação em medir-se com um criminoso, preso, confesso, rebaixou a figura de Pedro Taques, até porque muitos aliados ficaram (e ainda ficam) constrangidos por terem apoiado o adversário criticado. Novamente, uma falta de sensibilidade política.

Durante o governo, Taques desprezou completamente a tradição política mato-grossense, incorporando a síndrome petista do “nunca antes na história”. Cheguei a ver o Governador assegurando, em matéria de cultura, muitos fatos inéditos que, no final das contas, tratam-se de reedições de atos passados sem o devido crédito. O resultado vê-se a olhos desarmados: museus fechados, artistas sem receber, contratos não cumpridos. A altíssima rotatividade de secretários – um a um, investigados, presos ou simplesmente improdutivos, já demonstra que o Governador – estreante na política – não vinha com uma equipe, um grupo, uma aliança. Fez questão, ao revés, de sublinhar o caráter técnico do primeiro escalão quando, na verdade, o que precisávamos era de diálogo, de boa vontade, de estrutura política capaz de administrar as frustrações que cimentaram um caminho pedregoso da rejeição.

No início, o que havia de errado no governo Taques era ter Taques demais no governo. Explico: espera-se de um homem com dificuldades de articulação, de comunicação e de simpatia, alguém com esse talento para fazer o meio-de-campo na Casa Civil. Blindando-se da “turba bandoleira”, Taques duplicou-se e entronizou outro Taques na articulação política, sofrendo o rescaldo de críticas mornas, o banho-maria lento e a repulsa velada dos agentes políticos que tratavam com o Palácio Paiaguás e encontravam uma cápsula, uma redoma, uma muralha em torno do governante. Também tive ocasião de apontar o grave equívoco de comunicação, preferindo o Governador rivalizar com questões miúdas, numa linguagem técnica, pouco popular e dialógica. Passou recibo de críticas feitas por pessoas sem voto algum. Respondeu com arrogância, com processos, coincidentemente os mesmos críticos que foram grampeados.

Por derradeiro, cito o equívoco, o gravíssimo desencontro lógico, de culpar o funcionalismo público pela crise financeira. Se realmente fosse esta uma verdade, deveria o Governador manejar os artifícios jurídicos adequados para cassar vantagens ilegais, aumentos inconstitucionais, equiparações financeiramente insustentáveis. A mesmíssima artilharia deveria voltar-se contra contratos equivocados ou fraudulentos (como o do VLT que chegou a ser defendido pelo Governo e Secretários de Estado, buscando inclusive autorização legislativa para novos empréstimos), que curiosamente foram mantidos ou mesmo aumentados. Não, não estou insinuando corrupção. Prefiro não pensar que o Governador tenha relação com qualquer dos fatos que levou tantos Secretários à cadeia, inclusive por corrupção. Ainda quero desacreditar nos depoimentos de réus, de colaboradores, de antigos aliados financeiros e acreditar que o tropeço administrativo de Taques deve-se única e exclusivamente a equívocos pessoais e políticos.

Se vou votar em Taques em 2018? Nem os aliados que ainda frequentam feijoadas do Governador sabem se votam nele. Não há pior solidão do que o próprio vice criticar a gestão da qual faz parte. O resta de melhor? Para mim – e para milhares de mato-grossenses – o voto virou um excruciante jogo do “menos pior”. Havendo uma alternativa viável, prefiro colar os cacos das esperanças espatifadas e entregar a alguém mais político, mais parceiro, mais leal, mais dialógico, mais cordial, mais humilde, mais estrategista, mais eficiente e, sobretudo, mais simpático. Porque, afinal de contas, errar uma vez é humano, duas já é burrice.

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Eduardo Mahon faz a primeira noite de autógrafos da maratona de lançamentos de O Homem Binário em Santo Antônio de Leverger

Por João Bosquo | O lançamento do livro “O Homem Binário e Outras Memórias da Senhora Bertha Kowalski” e a apresentação do livro “Alegria”, ambos os dois romances do escritor Eduardo Mahon, na noite desta quinta-feira, primeiro de março, no município de Santo Antônio de Leverger, marca o início do ciclo de lançamentos e noite de autógrafos por diversas cidades de Mato Grosso, outros estados e países, como aconteceu no o livro anterior “Contos Estranhos”, que teve lançamentos em Sinop, Cáceres, Tangará da Serra, São Paulo, Mato Grosso do Sul e encerrou em Cuiabá, num grande evento, no Cine Teatro Cuiabá.

O lançamento em Santo Antônio tem também um componente histórico – segundo os presentes – foi E primeira vez que um autor faz o lançamento na terra natal de Cândido Mariano da Silva Rondon, o nosso Marechal Rondon, do poeta Benedito Santana da Silva Freire e, claro, sem esquecer o escritor e dramaturgo Luiz Carlos Ribeiro.

A noite de autógrafos aconteceu na Câmara de Vereadores do município com a presença de autoridades e um grande número de estudantes da escola estadual de ensino. O projeto Arte Cidadão, com apenas um violão e trompete, fez a parte musical.

O deputado Allan Kardec, presente no evento, foi o convidado pelo cerimonial para saudar o escritor Eduardo Mahon. Em sua fala o deputado destacou que a terra de Leverger, o Barão de Melgaço, é rica em tradição e cultura, mas que esta era a primeira vez que acontecia um lançamento literário na cidade.

A primeira-dama, Thayane Castro, fez um emocionado depoimento contando como foi o seu primeiro contato com a literatura. Depois destacou o trabalho do Centro de Convivência de Idosos (CCI) que vem desenvolvendo atividades voltadas para a cultura.

A professora Kelly Carvalho, coordenadora do evento, apresentou a aluna Juliana Dias, que recitou um trecho livro “O Homem Binário”, enquanto ela destacou a importância de se celebrar o livro. “É uma oportunidade sem precedente, que deveria se repetir mais vezes”.

O candidato… ops, o escritor Eduardo Mahon, de forma bem humorada disse que não estava lançando o livro, mas sim sua candidatura ao governo de Mato Grosso. Vai que alguém acredita e resolve lança-lo de verdade. A janela de filiação ainda está aberta.

Voltando aos livros: Mahon fez um rápido resumo das histórias tanto de “O Homem Binário” e de “Alegria”, explicando que o segundo livro é uma coedição, portanto o lançamento seria distinto e ali era uma espécie de apresentação.

Os jovens alunos que fizeram fila para o autógrafo e um registro fotográfico junto com o escritor, por certo vai gostar da história. Segundo a professora Icleia Gomes, no posfácio do “O Homem Binário”, “o romance de Mahon levado à escola muito provavelmente estará ao gosto dos jovens leitores”.

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Quem aqui é preconceituoso?, pergunta Eduardo Mahon em sua página no Facebook

QUEM AQUI É PRECONCEITUOSO?Não, não é porque ela é negra. Nem tampouco porque foi favelada. Nem muito menos porque…

Publicado por Eduardo Mahon em Segunda, 5 de fevereiro de 2018

QUEM AQUI É PRECONCEITUOSO?

Não, não é porque ela é negra. Nem tampouco porque foi favelada. Nem muito menos porque canta funk. Nem ainda porque representa um gueto social que é a periferia da zona norte carioca. Não, não é por isso que eu não gosto de Jojo Todynho. Billie Holiday era negra, marginalizada, viciada e maravilhosa. Idem para uma Nina Simone, Ella, Sara etc. Amy Winehouse era branca, mas pobre, viciada, marginalizada. Morreu da mesma forma que uma Elis Regina. É daí? Daí que eram excelentes! Ninguém tem nada com a vida sexual de Madona.

Nada tenho contra o pop, contra o popular. Michael Jackson vivia na Neverland dele sabe-se lá de que jeito e era bom, desde pequeno. Não sou preconceituoso com a Broadway ou com a off-Broadway. Gosto de coisas boas de Boal e gosto do Fantasma da Ópera. Há coisas péssimas em Augusto Boal e Gerald Thomas e coisas péssimas em cartaz em NY. Aliás, acho mesmo que temos aqui em MT grandes artistas sem oportunidade: pintores que fariam sucesso em Paris, fotógrafos que deixariam Berlim de boca aberta, músicos que roubariam a cena nos porões do jazz americano. No Brasil todo, talentos encobertos pela fábrica de sucessos do pop.

Por que acontece uma distorção dessas? É fácil entender: um estrupício artístico como Jojo Todynho aparece, mais como a celebração do exótico do que a certificação da burrice, abocanha o horário comercial do rádio e da tevê como animal em extinção para, depois, os intelectualóides tentarem “decifrar” o fenômeno com base em teorias sofisticadas. É apenas burrice. Nada mais do que burrice, uma catarse coletiva em que se opta pelo menor esforço. Reconheço que a arte é, também, entretenimento. Deus me livre se não fosse. Ninguém merece um Tchaikovsky num churrasco à beira da piscina. Evidente que esse padrão de sofisticação demanda atenção máxima como o próprio compositor demandou na criação. Nada mais sacal do que um cara metido a culturete no meio de uma farra, ouvindo Paganini. Nem Sonrisal dá jeito em um porre desses.

Na literatura, há muita mistificação e celebração da burrice. ”Fala sério, mãe!” é tão ruim quanto a péssima produção marginal que certos intelectualóides querem fazer acreditar que é boa. Não é. Tem gente que parou no tempo e não faz nada de novo, desde a década de 70. Para ser Leminski é preciso comer muito feijão com arroz. De vez em quando vejo um dinossauro que ainda está lendo Marx como se fosse um achado teórico. Discriminam os “burgueses capitalistas” quando, na maioria, o que mendigam é uma boquinha por falta de talento. Na pintura, por exemplo, a máxima sofisticação é ser simples, mas há aqueles que são simplórios. São coisas muito diferentes: ser simples por opção ou por falta de opção… Aqui no Brasil, um grupelho acha que é preciso ter tuberculose para fazer poesia ou escrever sobre as misérias de catadores de lixo para o reconhecimento literário. É a mentalidade da “reserva social” da arte, uma estupidez inominável.

De qualquer maneira, é insólito permitir que Ludmila, Jojo Todynho, Pablo Vittar e essa intrépida trupe roube o tempo em que poderíamos ouvir um funk melhor, um rap melhor, um punk melhor, uma música popular melhor. A arte de rua tem qualidade, assim como o samba, o sertanejo, o siriri, o funk, enfim, tudo tem uma escala. Ora, ora, Ney Matogrosso já nos apresentava um requebrado de muito mais qualidade nos Secos & Molhados do que um Vittar e o seu horrendo K.O. Aliás, adoro o Johnny Hooker com sua provocação brega, gay e inteligente. É mara!, como se diz. Até mesmo no brega, um Rossi é melhor que um Odair José. Isso para não falar do Lupicínio no melhor da fossa. A questão aqui não é preconceito por ser Jojo Todynho negra ou Pablo Vittar, LGBT. Há qualidade nos diversos gêneros, sejam eles populares ou eruditos. Há excelência em tudo, da mesma forma como há porcaria. Não há quotas para ter talento. O talento não vem em um concurso público, regulamentado. Não somos obrigados a admirar algo ou alguém por pena, por consideração ou por justificativas sociais. Se é ruim, é ruim, independentemente de quem tenha feito. Se é bom, pode ter sido o Bill Gates o artista e, nem por isso, deixará de ser bom. Essa história de julgar a obra de acordo com a classe social do autor é o que há de mais idiota neste mundo. É um absurdo celebrar a mediocridade. Não vamos cair na tentação de encontrar explicações de ordem sociológica a legitimar o que é, no fundo, uma merda.

Eduardo Mahon é escritor e advogado.

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Um Doce Marido – Um conto de Eduardo Mahon

UM DOCE DE MARIDO (E.M)Antônio Carlos sentiu a pele grudar-se ao lençol macio de tão novo. No início, maldisse a…

Publicado por Eduardo Mahon em Sábado, 27 de janeiro de 2018

Antônio Carlos sentiu a pele grudar-se ao lençol macio de tão novo. No início, maldisse a mulher que tinha mania de tomar sorvete na cama. Por ela, fariam as refeições no quarto, do café da manhã ao jantar. É romântico – justificava-se. Não para Antônio Carlos, no entanto. Do signo de capricórnio, o homem era um perfeccionista. Não suportava os bombons, biscoitos amanteigados e restos de sanduíches que competiam com os livros empilhados sobre o criado-mudo. Na convicção cartesiana do engenheiro, cama era lugar de dormir. No máximo, fazer amor e ler nas noites de insônia. Certo ou errado sobre a serventia do leito, enganou-se redondamente acerca da origem do grude que se pregou às costas. Ao levantar, acionou o abajur que montava guarda ao lado da cama. A investigação restou frustrada: a fina perícia empreendida por Antônio Carlos não constatou nódoa de sorvete, bolo ou iogurte. Em vez disso, jazia no seu lado da cama um delicado decalque do corpo, uma sombra adocicada dele mesmo. Até então, a mulher ignorava as suspeitas do marido. Virada para o outro lado, via-se dela apenas os cabelos castanhos que escondiam completamente o travesseiro magro sob a cabeça. No relógio, três e meia. E agora? – perguntou-se como se estivesse perguntando à esposa, uma das tantas manias de homem casado. Fosse por ela, trocariam de lençol, talvez toda a roupa de cama. Mas não. No meio da noite, a mulher estava flanando em dimensões que nunca alcançam os insones. Antônio Carlos decidiu tomar banho, muito embora soubesse que, sozinho, seria quase impossível a manobra dos braços curtos alcançar as costas do corpanzil obeso. Fez o que pôde: deixou que a água afogasse a substância viscosa e a levasse das costas até o pequeno ralo do box de vidro temperado. Depois de enxugar-se, Antônio Carlos apanhou outra toalha para forrar o local no qual o contorno dele mesmo havia deixado a borda grudenta. Horas depois, quem o acordou foi a mulher, preocupada com algo estranho que o marido transpirava. Acorda, Antônio Carlos! Tem algo errado contigo. Ele quis cobrar com juros e correção monetária todo o tempo de sono que havia gasto na madrugada, mas antes que pudesse reclamar, viu nos braços uma camada gelatinosa e brilhante de baba transparente que escorria pelos dedos das mãos. O mesmo visgo era secretado pelo restante do corpo que se melava na temperatura crescente da manhã ensolarada. O que você tem?! – ele ouviu da mulher a mesma pergunta que se fazia. Levantou-se, olhou a pele anfíbia no espelho do banheiro e, perdido na ausência de explicação razoável, meteu-se na ducha, dessa vez sob a supervisão atenta da mulher que já desconfiava que o marido havia saído no meio da noite. Magoada pela mudez de Antônio Carlos, cansou-se de esfregar as costas, pernas e o couro cabeludo do marido. É doce – ela comentou. Isso já sei. É como se eu houvesse mergulhado num tonel de xarope. Podia ser assim que ele se sentisse. Ocorre que, fosse mesmo xarope, sairia daquele banho livre de qualquer resquício melequento. Foi a mulher que percebeu não adiantar bucha e sabão. Além de não remover a gosma que continuava a minar pelos poros de Antônio Carlos, gastava o marido como se fosse ele uma bala de hortelã que vai afinando lentamente. Saia daí! – alertou ao perceber que Antônio Carlos se dissolvia em contato com a água. O que aconteceu com aquele homem, a medicina não conseguiu explicar e nós, tampouco. No entanto, após o diagnóstico inconclusivo sobre a doença desconhecida, a mulher aproveitou a oportunidade para envazar em pequenos frascos o xarope destilado por Antônio Carlos, coqueluche na sofisticada gastronomia experimental. Um doce de marido – era o que dizia no rótulo.

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Teatro de Mato Grosso nunca mais será o mesmo sem Luiz Carlos Ribeiro

Morte do mítico ator de Rio Abaixo, Rio Acima, de Gloria Albuês, está sendo chorada por seus amigos, colegas e admiradores

Por João Bosquo | Luiz Carlos Ribeiro não está mais em carne e osso entre nós, no entanto permanece, pois permanecer é a sina de todo grande artista, na memória coletiva de sua gente de seus amigos, afetos e – porque não – desafetos. Permanece na lembrança de cada cena, na sutileza do gesto teatral, do olhar e jeito de ver o teatro como instrumento de sensibilização da alma de um povo, de uma gente, de uma comunidade, de um estado, de um país. “Fica, Pedro!”, escrito em parceria com Flávio Ferreira, tem muito disso, do pulsar de denuncia social que toda grande obra deve ter.

Neste tributo a Luiz Carlos Ribeiro o olhar de cada um é um olhar particular, pessoal, daquilo que conseguimos enxergar num dado momento de nossas vidas e, por isso mesmo, o que mais amamos, sem que ninguém esteja certo absolutamente, mas ninguém está errado, pois não conseguimos absorver a humanidade em sua integridade. Bem como o pensar a cultura, o nosso bem maior.

Ivan Belém, ator e ativista, um dos criadores do Gambiarra: Luiz foi um dos principais líderes do movimento teatral organizado de Mato Grosso, atuando de forma a questionar as questões políticas e sociais e combater a ditadura militar. Ele tinha um escritório no calçadão de baixo. Era ali que nós artistas nos reuníamos frequentemente. Tinha uma preocupação com a nossa identidade e com a ocupação desordenada de nosso território. Protestava contra a indústria cultural, e contra a ideia da arte pela arte. Atuou muito na interiorização do teatro e na luta por uma dramaturgia que bebesse nas fontes da cultura popular mato-grossense, valorizando o siriri, o cururu, o Boi-à-Serra. Tudo isso fruto das suas origens em Santo Antônio de Leverger. Com isso, popularizou o teatro e deu à ele uma cara e um conteúdo local. Foi um dos autores mais escreveu peças para o Grupo Gambiarra, e para a dupla Liu Arruda e Ivan Belém. Em novembro do ano passado estreei uma remontagem da sua peça “Vespa 7”, à qual ele assistiu e saiu muito feliz com o que viu. Deixou um grande legado e uma grande quantidade de textos teatrais inéditos. Nós artistas e o povo mato-grossense, devemos muito a ele. Enfim, Luiz Carlos Ribeiro foi imprescindível”!

Clóvis Matos, do Inclusão Literária, afirma que “Luiz Carlos Ribeiro foi uma das poucas pessoas que todos chamavam pelo nome todo. Nome forte, marcante, como foram suas vidas, o homem e o criador. Bom e velho companheiro de algumas andanças com o Inclusão Literária pelas estradas desta nossa terra, onde o Mato é Grosso, mas, sua gente é sensível e criativa como o foi LUIZ CARLOS RIBEIRO”

O ator e comunicador Vital Siqueira reconhece que “Luiz é ilustre brasileiro que nasceu em Santo Antônio de Leverger e já brilhava desde criança. Estudou, desenvolveu o dom que Deus lhe deu. Se lapidou nos trilhos árduo do mundo artístico. Deixou um rico legado e foi brilhar em outras “Ribaltas”. A sua passagem telúrica ficou marcada! Vá em PAZ AMIGO!”.

Entre tantos trabalhos de mão dupla, idas e vindas, o Homem do Barranco, o poema dramático de Carlos Roberto Ferreira, está entre eles. Os dois no palco em diálogo, quando do retorno de Carlinhos aos palcos e agora nos revela que “Luiz Carlos Ribeiro é o ator mais pantaneiro do Mar de Xaraés. Luiz Carlos Ribeiro deixa o cerrado, pra viver eternamente no mundo do Pantanal. Advogado, Ator, Dramaturgo, Contador de causos e histórias, filho do Morro de Santo Antônio de Leverger, Luiz Carlos nos aplaude em pé, diante da ÚLTIMA CENA. O teatro e a cultura mato-grossense estão em luto. Mas as águas do Pantanal estão mais claras e mais brilhantes com o seu mais novo Embaixador Pantaneiro”.

Meire Pedroso, colega de palco e amiga e irmã na tradição cuiabana: “Eu passei pela vida de Luiz Ribeiro encantada pelo seu jeito de fazer teatro e por suas narrativas míticas. Em ‘Goodbay meu boizinho’ de sua autoria, guiada por sua sabedoria, eu reencontrei minhas raízes e retomei meu lugar no palco do Teatro cuiabano. A trajetória de Luiz cruza com a história dessa cidade e de seres da arte que nela habitam. Aqui, ele construiu personagens usando a emoção e a razão, contando causos pra espantar o medo do coração em tempos sombrios. Espero que os gestores de cultura saibam reverenciar com grandeza a sua importância para a memória cultural dessa Cuiabá e do Estado. Agora, resta pra nós, aprendizes de sua arte, puxar o mocho e prosear sobre as outras trezentas histórias dessa terra que já existia muito antes de Paschoal, muito antes de Sutil. Bem assim, como ele ensinou. E lá se foi… Quem conta um conto, aumenta um ponto”.

Lucia Palma, a nossa Cacilda Becker, que atuou junto com Luiz Carlos Ribeiro na mítica “Rio Abaixo, Rio Acima”, e ultimamente nos “Crônicos”, uma trupe de arte e humor, idealizada pela poeta Marília Beatriz de Figueiredo Leite. Em nossa conversa por WhatsApp, Lucia Palma diz que agora fica “matunano” em querer saber “quem me irá trazer aquelas mangas Rosa perpitas, do seu quintal? Apanhadas a mão cor você, Luiz? Não mais as longas conversas telefônicas três vezes ao dia, trocando ideias de artes, lembrando outras que fizemos no transcurso dos nossos longos anos de amizade. O ouvidor das minhas histórias, as últimas sobre um velório que fui e ele se esbaldava de rir e repetia: escreve Lúcia, escreve! As brigas eternas sobre qualquer bobagem, ficamos de mal: ‘Belém-Belém, nunca mais fico de bem’, como duas eternas crianças brincando de viver. Foi um prazer enorme Luiz Carlos Ribeiro, compartilhar tantas histórias, tantas vidas com você! Inté”.

E Marília Beatriz recita: “Luiz Carlos Ribeiro, expoente de nossa arte/cultura, mão doce para a colheita e justa para os desatinos escuta: o que você deixa é legado que como ressaltou Professor Dorileo ‘é difícil de aqui garimpar’ A estrada que ficou com a febre urgente de ganhar o fato cultural com suas idas e vindas na cena ou nas aulas ministradas ou nos sonhos, deve ser a bandeira que será conduzida.  Mas chegou sua hora concedida para o silêncio e à beatitude. Sobe os degraus é empurra a porta. Daqui para frente não tem que esperar incentivo de nada, agora tudo será amplidão e contemplação da VIA LÁCTEA, AMADO PARCEIRO”.

O poeta Aclyse Mattos diz que ficou “muito triste com a perda do grande Luiz Carlos Ribeiro!” e ao mesmo tempo lembra do último encontro, em 7 de dezembro, num evento literário na terra natal de Luiz Carlos Ribeiro. “Quando estivemos em Santo Antônio ele contou com orgulho do início no Teatro naquele mesmo palco. E na abertura da exposição Manoel de Barros nos brindou com um show de poesia acompanhado pelo Pescuma. O Teatro e as Artes de Mato Grosso devem muito a ele!”

A professora de dança Maria Hercília Panosso: “A princípio nossos caminhos eram paralelos. Foi uma longa jornada para que me chamasse de “Diva Madrinha”, neste ano que se passou. Emocionada agradeci e você me respondeu: ‘pela sua generosidade Maria Hercília’. Luiz Carlos Ribeiro. Esta sua ausência tão inesperada pegou-nos de surpresa e levou-me a reflexão de que não ha espaço e tempo no coração de nós, artistas. Somos o que somos e o que representamos em cena ou pela vida afora. A peça tanto queria, com certeza ira acontecer agora. Grande homem! Grande Mestre! Grande Amigo. Te sinto ao meu lado e assim, permaneceras”.

Carlos Gattass, o Carlão dos Bonecos, conta que tinha recém chegado em Cuiabá, no início da década de 80, e estava hospedado num dormitório, por nome Iporã, que fica na região central. Nesse mesmo hotel também estava hospedado Amauri Tangará. Os dois não se conheciam, não se falavam, nem davam bom dia. Bem, nesse período, no Colégio Estadual Liceu Cuiabano, estava sendo encenada a peça “Rio Abaixo, Rio Acima”.  Carlão conta que foi até lá pra assistir ao teatro. Antes, porém passou no Bar do Sinfrônio, que ficava de fronte do colégio. Lá estavam dois jovens senhores conversando sobre teatro. Um deles era o hóspede da pensão Iporã e o outro era o protagonista da peça: Luiz Carlos Ribeiro. “Comecei no teatro pelas mãos de Amauri Tangará, ao mesmo tempo conheci LCR”, destaca.

O escritor e acadêmico Eduardo Mahon, além do pesar pelo passamento artista, já está em luta contra a segunda morte, a do esquecimento. “Morreu Luiz Carlos Ribeiro. Mas, aqui em Cuiabá, é possível que o nosso grande teatrólogo morra uma segunda vez. Ou ainda, cumprindo o vaticínio de Estevão de Mendonça, morra para sempre. É que Luiz Carlos legou literatura e teatro para seu Estado. Importa agora saber como vamos honrar a produção de um dos maiores dramaturgos de Mato Grosso. Será lido? Será encenado? Por essas e outras, quero relembrar nossa batalha de incluir no curriculum escolar da rede pública de ensino a literatura produzida por nossos autores. Somente assim, não perderemos Luiz Carlos e tantos outros artistas que viverão em nossos sonhos, ajudando essa nova e trôpega civilização tão carente da luz que emanam”.

Sandro Lucose nos conta a sua última com o colega de arte: “Luiz sempre foi um ator maduro que sempre gostei de ver em cena e de conversar. Tive o privilégio de contracenar com ele em no filme “Khora”, direção de Duflair Barradas, que ainda será lançado. Nesse filme Luiz interpreta brilhantemente um cidadão Cuiabano que fica desnorteado com a verticalização da capital mato-grossense e não sabe que o estádio do Verdão foi demolido. Luiz fez comigo uma cena que é um plano sequência de atropelamento. Nunca mais esquecerei deste dia de filmagem e o que é melhor será eternizado pelo cinema mato-grossense”.

O jornalista e produtor, Luiz Marchetti: Muito do que ha em Mato Grosso, nos teatros, filmes e textos, tem um pouco do respeito conquistado por ele. Desde guri, em Cuiabá, eu acompanho Luiz Carlos Ribeiro como referencia essencial nas nossas artes. Como filho da atriz Wanda Marchetti, cresci aplaudindo Luiz Carlos em pé. Tive a sorte de bate papos incríveis e a eterna gratidão de dirigi-lo nos mais diferentes formatos, apresentações teatrais, vídeos, performances e mais recentemente no filme BALA PERDIDA, da dupla NICO E LAU. Um HOMEM DE TEATRO que por onde andou, plantou confiança e crença no/s artista/s ao lado. Nesta sociedade onde migalhas são atiradas para a indústria criativa, muitos artistas acabam se especializando no engalfinhar, no desdenhar do próximo pra se manter respirando, LUIZ CARLOS RIBEIRO foi impecável, sendo agregador, apaziguador e criativo.

O compositor e cantor Pescuma, que trabalhou junto na abertura da exposição sobre Manuel de Barros, escreve em música “um poeta não morre. Já nasce imortal! Principalmente se recebe de Deus alma linda igual o Pantanal” e por fim confessa “Pude conviver com o amigo, irmão e mestre das artes Luiz Carlos Ribeiro na vida e nos palcos. Um exemplo de ser humano e de artista: Generoso, sábio, apaixonado pela cultura de nossa terra”.

O presidente da Academia Mato-grossense de Letras, Sebastião Carlos, em manifestação nas redes sociais diz que “Pode ser um lugar comum, mas não há como deixar de repeti-lo num instante de lamento. O passamento de Luiz Carlos Ribeiro causa um vácuo em nossa escassa história do teatro em Mato Grosso”.

Raimundo Henrique, técnico em turismo e de assuntos culturais, na Casa da Cultura, sob Therezinha Arruda, hoje morando no Piauí, diz que “são tantas as lembranças que no momento, quilômetros distantes, aqui no planeta terra, nesta noite de 12 de janeiro de 2018, fitando no espaço infinito uma estrela distante, brilhando, para ela aceno, digo: “sempre foste uma estrela, estavas desgarrado, felicidade amigo, nos ilumine como sempre ocorreu”.

Flávio Ferreira nos descreve, enfim, a Cena Final: “A GRANDE VIAGEM DE LUIZ CARLOS RIBEIRO – Luiz foi meu professor de teatro e de vida! Em rio abaixo, rio acima me apaixonei pela sua linguagem simples e bela. Com Luiz aprendi a dirigir, a escrever e a sonhar. Juntos escrevemos “Fica, Pedro!” Juntos sonhamos com um teatro rebelde, generoso e forte! Ficou um pouco do Luiz em mim e no Cena Onze. E Luiz pegou sua mala de fugir e viajou! Adeus amigo querido. Que o Mestre Jesus o acolha!”

(Texto modificado em 17/01/18)

 

Vai Luiz

Carlos Roberto Ferreira

Vai Luiz Carlos Ribeiro

Vai Dginho

Vai amigo-irmão-camarada de todas as horas

Atravesse as águas do Pantanal

Junte-se ao nosso Demiurgo Embaixador das Coisas do

Chão, Manoel de Barros

E gritem bem alto: que “o Pantanal não tem limites”!

Até logo, companheiro

Até então…

Adiante com o remo

Até mais tarde, talvez

Até um dia, quem sabe

Mas não teremos um ADEUS

Pois as cortinas do teatro, pra você, nunca estarão fechadas

Os aplausos serão e t e r n o s!

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Kleber Lima em seu primeiro contato com artistas e produtores culturais promete abrir as portas da SEC

Eduardo Mahon, que promoveu o encontro, com o cineasta Rodrigo Piovezan

Por João Bosquo | A primeira impressão é a que fica. A revisão, mais tarde, pode até mudar alguns pontos de vista, mas não todos, vamos combinar assim. O primeiro encontro do futuro secretário de Estado de Cultura, Kleber Lima, com parte da comunidade cultural, intelectual, pensante e discursiva em suas mais diferentes áreas – artes, audiovisual, literatura, enfim, e poética – regado com muita água e coca-cola, tendo como pano de fundo um jantar de apresentação no apê do escritor, acadêmico e polemista Eduardo Mahon, na noite desta quarta-feira, 27, foi a melhor possível. A promessa assumida pelo futuro secretário de abrir as portas, de fato, da Secretaria de Cultura e dialogar diretamente com os produtores culturais, artistas, poetas enquanto pessoas foi recebida com entusiasmo.

Explico esse entusiasmo. O legado do atual secretário, Leandro Carvalho, foi sem dúvida a criação do arcabouço legal. O denominado CPF, propalado em todas as falas e manifestações públicas do secretário. Ou seja, a aprovação dos projetos de lei do Conselho Estadual de Cultura, Plano Estadual de Cultura e Fundo Estadual de Política Cultural do Estado de Mato Grosso, além do Sistema Estadual de Cultura de Mato Grosso. Mesmo esse arcabouço encontra ainda hoje eventuais críticos. Salvou-se a pele dos gestores e muitos – e bota muito nisso – artistas ficaram a ver navios, principalmente por conta do agravamento da economia. Mas isso, parece, são águas que passarão.

Esse sentimento de alienação da gestão com relação aos verdadeiros anseios das diversas áreas de atividade cultural pode ser sentido no emocionado depoimento da poetisa, acadêmica e artista – como assim se qualifica, a escritora Luciene Carvalho. Ela questionou a mecânica imposta, na qual o intermediário – o gestor cultural – passou ser mais importante que o realizador, o artista.

Atentos a fala do futuro secretário de Cultura

Alguns presentes, claro, manifestaram surpresa com a indicação dele para a SEC. Kleber Lima reconheceu que em sua trajetória profissional e pública nunca atuou na área cultural. Sempre foi do jornalismo e marketing político, mas que estava disposto a ouvir e dialogar e já prometeu para o próximo dia 11, o dia seguinte à sua nomeação, na SEC, um café da manhã para ouvir e iniciar essa trajetória de diálogo em prol da cultura mato-grossense.

O anfitrião Eduardo Mahon comemorou a mudança na SEC. Segundo ele, o futuro secretário de Cultura é uma pessoa articulada e entende que o artista precisa ser empresário dele mesmo prescindindo de intermediário, mas para tal deve ter uma mão ajudando na construção dos projetos.

“Acredito que a formação política de Kleber Lima entende, compreende e é sensível para minoração da importância e do lucro dos intermediários da cultura. Acredito que não tem tempo para se fazer uma grande mudança conceitual, mas me parece que ela já entendeu que quem deve ser apoiado são os artistas. O conselho de Cultura, com a entrada de Kleber, vai se resignificar”, acredita Mahon. Ele também avaliou como positivo o encontro desejando sorte.

Maria Hercilia Panosso, professora de dança, manifestou por meio da rede social a “louvável” promoção do encontro por parte de Mahon. “Uma ação louvável, uma recepção extremamente bem cuidada, harmoniosa e principalmente: o respeito e a atenção aos artistas”.

O artista e teatrólogo Carlos Roberto Ferreira, o nosso eterno Carlinhos, também pela rede social, elogia a iniciativa de Mahon e deseja ao futuro secretário “muita coragem, paciência, pulso político, ousadia e sensibilidade cultural”.

Luciene Carvalho, Aclyse Mattos, Ivens Scaff, Cristina Campos, em registro self

Kleber Lima assume a pasta de Cultura, segundo ele mesmo anunciou, no dia 10 de janeiro. Esse prazo ele pediu ao governador Pedro Taques para fechar algumas pendências na GCom. Do jantar participaram nomes como Ruth Albernaz, Zilda Barradas, Ivens Scaff, Bruno Bini, Carlina Rabello Leite, Paulo Traven, Rai Reis, Alberto Beto Machado, Enock Cavalcanti, Cristina Campos, Rodrigo Piovezan, Ivens Scaff, Raul Lazaro, Kelson Panosso e Carla Rocha. A proposta do novo secretário é ampliar a audiência de forma a abranger todas as áreas de Cultura, cada vez mais ativas, em nosso Estado.

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Governador Pedro Taques aceita pedido e exonera Leandro Carvalho, um dia depois de Eduardo Mahon renunciar ao posto de membro do Conselho Estadual de Cultura

Por João Bosquo | Um dia, ou menos que um dia, depois de Eduardo Mahon renunciar ao seu mandato de membro do Conselho Estadual de Cultura (CEC) e denunciar resistência do presidente em realizar a eleição para o cargo de vice-presidente do CEC, o governo de Mato Grosso anuncia a exoneração do secretário de Cultura, maestro Leandro Carvalho.

Uma das formas mais belas é cair para cima.

Segundo a nota divulgada nesta sexta-feira, 22, pelo Gabinete de Comunicação (GCom), assinada pelo secretário Kleber Lima (que assumirá a pasta de Cultura),  “Leandro foi selecionado para um programa de Chevening / Clore Leadership Programme no Reino Unido, com foco nas Indústrias Criativas – um dos mais importantes e competitivos programas de formação de lideranças do mundo, financiado pelo Foreign and Commonwealth Office (FCO) do Reino Unido e Clore Duffield Foundation. Foram mais de 65 mil pessoas concorrentes, de 140 países, para menos de 2% de selecionados”.

Leandro Carvalho deixa o posto de secretário com uma rejeição muito grande no meio cultural. Era comum ouvir entre gestores, produtores e até artistas que o secretário é uma pessoa inacessível. Segundo consta, Leandro Carvalho raramente comparecia a eventos que não fosse da própria pasta.

Poucas, ou raras vezes compareceu na Casa Barão de Melgaço. Esteve na comemoração dos 95 anos da Academia Mato-grossense de Letras (AML), evento realizado no Palácio da Instrução, com o governador como convidado especial.

Nos diversos lançamentos e eventos voltados para o livro como as feiras literárias etc. Leandro Carvalho compareceu apenas nas premiações do MT Literatura realizados no Palácio Paiaguás. Shows??? Peças de Teatros??? Sim, naqueles que estava patrocinando ou era participante como regente ou em eventos (não todos) no Cine Teatro.

Adeus, boa viagem e boa estadia no Reino Unido.

Rei morto, rei posto, o jornalista Kleber Lima deixa a Comunicação e assume a pasta da Cultura.

Não lembro de Kleber Lima em debates artísticos culturais, jornalismo letrado, prosa ou verso, mas sim nas editorias de política, mas em relação ao ex-secretário Leandro Carvalho  tem uma grande, enorme vantagem: é mais aberto a conversa, se expõe mais e acreditamos (e torcemos) que irá abrir efetivamente as portas da SEC para o bom e produtivo diálogo.

Leia também: Eduardo Mahon não concorda com as mudanças “ilegais” para escolha de vice-presidente do Conselho Estadual de Cultura e renuncia ao cargo de conselheiro

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Eduardo Mahon não concorda com as mudanças “ilegais” para escolha de vice-presidente do Conselho Estadual de Cultura e renuncia ao cargo de conselheiro

Registro fotográfico da posse dos novos conselheiros em julho deste ano, no Cine Teatro Cuiabá

Por João Bosquo | O escritor, poeta, membro da Academia Mato-grossense de Letras, jurista e polemista Eduardo Mahon renunciou ao posto de membro do Conselho Estadual de Cultura (CEC) para o qual foi eleito no último pleito.

A carta de renúncia foi encaminhada por meio eletrônico ao presidente do conselho, secretário de Estado de Cultura Leandro Carvalho.

Na correspondência Eduardo Mahon acusa o presidente Leandro Carvalho de resistir em eleger conforme determina o regimento do CEC o vice-presidente do órgão.

“Frente ao reiterado descumprimento do art. 4º da Lei 10.378/2016 e do Parágrafo 2º do art. 4º do atual Regimento Interno (Resolução 30/2013) que ainda regula as relações do Conselho Estadual de Cultura, na recalcitrância em eleger o vice-presidente da entidade e, agora, com a inovação ilegal de quórum especial e a consulta virtual, o que não está de forma alguma previsto no já citado dispositivo, requeiro o meu desligamento imediato, com a respectiva publicação”, escreveu Mahon.

O agora ex-conselheiro acusa ainda na correspondência o secretário de ter encaminhado a proposta orçamentaria da pasta sem ouvir o CEC, nem mesmo ter debatido sobre as estratégias de aplicação financeira. Segundo Mahon, “o modelo proposto aos membros é, no mínimo, inconstitucional, porquanto fere o art. 250 da Constituição do Estado de Mato Grosso, transformando um colegiado deliberativo de políticas públicas em meramente homologador das ações executivas”.

Ao pedir sua exclusão o poeta ainda usa da ironia que lhe é peculiar ao justificar a sua saída lembrando que o secretário Leandro Carvalho também é maestro da Orquestra Mato Grosso, volta e meia contratada pela SEC para eventos culturais. “Certo de que sou uma voz que desafina dessa orquestra e do respectivo regente, agradeço a atenção de todos, subscrevendo-me atenciosamente aos ex-colegas”, escreveu Eduardo Mahon.

Leia a carta de Eduardo Mahon e a correspondência que deu causa a renúncia

CARO SR. PRESIDENTE DO CONSELHO SECRETÁRIO ESTADUAL DE CULTURA

Frente ao reiterado descumprimento do art. 4º da Lei 10.378/2016 e do Parágrafo 2º do art. 4º do atual Regimento Interno (Resolução 30/2013) que ainda regula as relações do Conselho Estadual de Cultura, na recalcitrância em eleger o vice-presidente da entidade e, agora, com a inovação ilegal de quórum especial e a consulta virtual, o que não está de forma alguma previsto no já citado dispositivo, requeiro o meu desligamento imediato, com a respectiva publicação.

Bom que se anote a infringência expressa ao art. 5º da Lei 10.378/2016, onde se garante ao Conselheiro pleno exercício do mandato, custeando diárias e passagens para que, presencialmente, faça-se representar e ao segmento de onde é originário, tornando óbvia a necessidade de presença para a eleição expressamente regulada no Regimento vigente que se vê descumprido, desde a primeira reunião deste Conselho Estadual.

O vice-presidente – pelo menos neste biênio de mandato – deverá ser eleito pela maioria simples dos conselheiros presentes, sejam eles representantes da sociedade civil ou indicados. O regimento atual não faz distinção. Trata-se de um inominável descaso com a legislação vigente, regendo-se o Conselho ao arrepio da previsibilidade, burocratizando o processo com fichas de inscrição não previstas na história do Conselho e, infelizmente, encobrindo as verdadeiras discussões sobre políticas públicas, prestação de contas e análise de projetos que urgem serem travadas. Até o momento, não foi analisado um único plano, projeto ou conta, nem tampouco a conveniência de contratos unilaterais de gestão, onde o Conselho não foi sequer consultado.

Ademais, causa-me espanto o envio da proposta orçamentária para a Pasta da Cultura para a Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso, sem qualquer consulta prévia do Conselho Estadual de Cultura, nem tampouco a discussão acerca das estratégias de aplicação financeira com os Srs. Conselheiros. O modelo proposto aos membros é, no mínimo, inconstitucional, porquanto fere o art. 250 da Constituição do Estado de Mato Grosso, transformando um colegiado deliberativo de políticas públicas em meramente homologador das ações executivas.

O Conselho não é uma vantagem, prebenda ou privilégio e sim um grave ônus que deveria ser sublinhado com o respeito institucional que o cargo demanda. Trata-se de uma visão de alguém sem interesse qualquer, sobremodo comercial na verba pública desta Secretaria. Basta comprovar no sistema Fiplan para saber quais são os interesses que perpassam na postura de um Conselho deliberativo ou meramente homologador. Requeiro a exclusão do meu nome da lista de e-mail’s e dos comunicados vindouros. Certo de que sou uma voz que desafina dessa orquestra e do respectivo regente, agradeço a atenção de todos, subscrevendo-me atenciosamente aos ex-colegas.

EDUARDO MAHON

Abaixo a correspondência eletrônica que deu causa à renuncia de Eduardo Mahon

ELEIÇÃO DO VICE-PRESIDENTE DO CONSELHO ESTADUAL DE CULTURA
Ilustres Conselheiros(as):
Consoante deliberação em sessão extraordinária realizada nesta data, encaminho:
A – As condições fixadas acerca da realização da Eleição do Vice-presidente do Conselho Estadual de Cultura;
B – Os vídeos de apresentação dos candidatos a vice-presidente do Conselho.
“SESSÃO PLENÁRIA – 1ª REUNIÃO EXTRAORDINÁRIA 2017
ELEIÇÃO DO VICE PRESIDENTE DO CONSELHO
VOTAÇÃO DE PROPOSTAS ACERCA DO REGIMENTO INTERNO DO CEC/MT
PROPOSTA 1 – TODO O PLENO É VOTANTE PARA ELEIÇÃO DO VICE-PRESIDENTE DO CONSELHO:
A FAVOR: 14 (QUATORZE) VOTOS
PROPOSTA 2 – APENAS OS CONSELHEIROS REPRESENTANTES DA SOCIEDADE CIVIL SÃO VOTANTES PARA ELEIÇÃO DO VICE PRESIDENTE DO CONSELHO:
A FAVOR: 4 (QUATRO) VOTOS
NENHUMA ABSTENÇÃO.
PROPOSTA 3 – SERÁ ADMITIDA A PARTICIPAÇÃO DA VOTAÇÃO DE FORMA REMOTA, POR EMAIL, OFICIO, RESTRITA ESSA OPÇAO APENAS AOS TITULARES:
A FAVOR: 11 (ONZE) VOTOS
PROPOSTA 4 – SERÁ ADMITIDA A PARTICIÇÃO DA VOTAÇÃO PARA VICE-PRESIDENTE DO CONSELHO APENAS OS PRESENTES NA SESSÃO:
A FAVOR: 7 (SETE) VOTOS
PROPOSTA 5 – O QUORUM DA SESSÃO DE ELEIÇÃO DO VICE-PRESIDENTE SERÁ DE DOIS TERÇOS DOS CONSELHEIROS VOTANTES (TITULARES OU SUPLENTES NA AUSÊNCIA DO TITULAR): 15 (QUINZE)
PROPOSTA 6 – O QUORUM DA SESSÃO DE ELEIÇÃO DO VICE-PRESIDENTE SERÁ DA MAIORIA SIMPLES DO CONSELHO: 01 (UM)
ABSTENÇÃO: 02 (DUAS) VOTOS
PROPOSTA 7 – O CRITÉRIO DE DESEMPATE DA VOTAÇÃO PARA VICE PRESIDENTE SERÁ PRIMEIRO POR ASSIDUIDADE, E CASO NECESSÁRIO EM SEGUNDO CRITÉRIO DE IDADE:
APROVADA POR UNANIMIDADE
REGRAS PARA A VOTAÇÃO:
1 – Conselheiro se declara como candidato;
2- O Candidato terá 03 (três) Minutos para explanar sobre seu currículo;
3 – Votação aberta;
a) Os Conselheiros presentes que quiserem manifestar seu voto poderão fazê-lo. E os que quiserem enviar por e-mail, poderão fazê-lo no prazo de cinco dias. (11 votos a favor)
b) Os votos não poderão em hipótese alguma ser retificados, sendo considerado valida a primeira manifestação.
4 – Após as candidaturas, será aberto o prazo de 24 horas para inicio das votações que serão exclusivamente por email, após o encaminhamento pela Secretária Executiva das propostas de candidatura.
5 – A votação permanecerá aberta por 05 (cinco) dias corridos, a contar das 20h00min do dia 20/12/2017 as 20h00min do dia 24/12/2017, para enviar a votação por e-mail do Conselho de Cultura com cópia para todos os membros titulares e suplentes;
6 – Poderão votar por e-mail apenas os Conselheiros Titulares, desde que o suplente não tenha votado presencialmente;
7 – O resultado da votação será divulgado no dia 25/12/2017, por e-mail.”

Leia também: Conselho Estadual de Cultura, ufa, enfim dá posse aos novos membros

 

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Posse de novos membros do IHGMT é marcada pelo bom humor e emoção

Os novos membros assumiram o compromisso de cooperar com a instituição e dinamizar suas ações

Por João Bosquo | A posse dos seis novos membros do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (IHGMT) foi na manhã deste sábado, 16, na Casa Barão de Melgaço. O público – surpreendente pelo horário -, formado por convidados e familiares dos homenageados, prestigiou o compromisso e as falas dos empossados Eduardo Mahon, Flávio Gatti, Francisco Ildefonso da Silva Campos, Neila Maria de Souza Barreto, Oriana Paes de Barros e Renilson Rosa Ribeiro na quase centenária instituição.

A presidenta do IHGMT, Elizabeth Madureira Siqueira saudou os novos membros, ressaltado a juventude e entusiasmo e o imenso campo de autuação por conta de seu acervo, que superam mais de 10 mil volumes. Seguiu-se a leitura dos termos de posse e a fala dos empossados.

O primeiro a falar – em ordem alfabética – foi o escritor, membro da Academia Mato-grossense de Letras (AML), Eduardo Mahon que saudou o patrono Barão de Melgaço. A escolha das cadeiras – segundo a presidenta Elizabeth Madureira – foi pessoal de cada candidato. Mahon escolheu Augusto de Leverger, por também ocupar a cadeira na AML cujo patrono é o mesmo.

Ele abriu sua fala revelando um pedido da presidenta que o empossados dissessem tudo em apenas uma lauda. Com seu humor característico, Mahon explicou que isso significava em caracteres, bytes e milésimos de segundos “em tempos de pós-modernidades”.

Nesse exíguo tempo, claro, citou o nome completo de Barão de Melgaço: Augusto João Manuel Leverger, que ele classifica como um cartesiano e como tal perdoaria o resumo da ópera de “seus cinco governos, artigos de história e cartografia”. “É provável supor que o maior intelectual de sua época ficaria grato pela concisão, assim como o público que, aliviado, agradece à objetividade de Leverger”, de certo todos agradeceram.

O segundo na hierarquia alfabética a falar, foi Flávio Gatti que falou de Geraldo Ferreira Gomes, que manteve mais ou menos a regra de falar uma lauda. Já Francisco Ildefonso não se sustentou e fez uma defesa emocionada do patrono Manoel Esperidião da Costa, poconeano como ele, um abolicionista injustiçado pela história.

Neila Barreto fala da importância do IHGMT, de seu acervo para a pesquisa e destacou a contribuição para a tese acadêmica sobre as águas de Cuiabá e falou do patrono Padre Ernesto Camilo Barros.

Já Oriana Paes Barros, não levou nenhum papel rascunhado e destacou que muito já se tinha dito de sua origem família nas falas de Mahon e de Francisco Ildefonso. O patrono de sua cadeira é Antônio Pais de Barros, o mítico Totó Pais, morto em emboscada por adversários políticos da época, mas que também foi um empreendedor, fundador da Usina Itaici.

Por fim a posse do professor Renilson Rosa Ribeiro que passa ocupar a cadeira cujo patrono é Natalino Ferreira Mendes, historiador, poeta cacerense. Renilson Ribeiro fecha sua fala de forma emocionada destacando o perfil probo do autor de “Efemérides Cacerenses”, “quem dera aqueles e que estão a frente da administração pública tivessem o compromisso, a honestidade de Natalino”.

Ao fim, em conversa com a professora Icleia Gomes concordamos que Eduardo Mahon abriu as falas com uma dose de bom humor enquanto Renilson Ribeiro fez a plateia se emocionar. Presentes ainda o vice-presidente da Academia Mato-grossense de Letras, José Cidalino Carrara, o deputado Allan Kardec, o secretário de Educação, Marco Aurélio Marrafon, o titular de Secid, Wilson Santos que chegou atrasado e saiu antes da hora, entre outras.

Lembrando a solenidade de posse no IHGMT anterior a de hoje aconteceu em 21 de junho de 2012, quando passaram a integrar sua composição Fernando Tadeu de Miranda Borges, Miramy Macedo, Alex Matos e Neurozito Figueiredo Barbosa.

Os demais sócios do IHGMT são João Carlos Vicente Ferreira, escritor, historiador e ex-secretário de Estado de Cultura; Lourembergue Alves, cientista político, articulista e comentarista; Ivan Echeverria, escritor e ex-superintendente do Banco do Brasil; Weller Marcos, jornalista, escritor e ativista cultural; Isis Catarina Martins Brandão, dirigente do Instituto Memória do Poder Legislativo da Assembleia Legislativa, e Sebastião Carlos Gomes Carvalho, advogado, escritor e presidente da AML.

Corrigido às 18 de 17/12/17

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Sarau Literário em Santo Antônio de Leverger reúne poetas vivos

O evento aconteceu na última quinta-feira, 7, no Centro Comunitário da Igreja Matriz, uma promoção da E.E. Faustino Amorim, com coordenação da professora Kelly Carvalho

Por João Bosquo | O sarau literário-musical “Com a Palavra” em Santo Antônio de Leverger, na última quinta-feira, 07, realizando no salão paroquial da Igreja Matriz abriu com a belíssima apresentação do Coral Arte Cidadã, uma associação cultural que existe há mais de 15 anos na cidade. Só essa apresentação seria mais que suficiente para valer o ingresso, se ele fosse cobrado.

A plateia formada por alunos das escolas da rede estadual E.E. Faustino Dias de Amorim, E.E. Dr. Hermes Rodrigues de Alcântara e E.E. Leônidas de Matos, com organização da escola Faustino Amorim, tendo à frente a professora Kelly Carvalho na coordenação, que destaca a parceria com os poetas presentes ao evento, além do apoio institucional da Carlini & Caniato, que doou alguns livros de autores mato-grossenses e foram sorteados entre os alunos presentes.

O evento abriu com a apresentação do coral da Associação Arte Cidadã sob a batuta de Jeferson Ribeiro, que toca junto coma esposa, Maguidalena da Silva Ribeiro, há 15 anos vem desenvolvendo esse trabalho. Jeferson é formado em pedagogia, filosofia e música pela UFMT e começou a trabalhar com os jovens dentro da igreja, mas para poder expandir o repertório fundo a ONG que agora já tem seis integrantes estudando música na UFMT.

Após a belíssima apresentação do coral, a escritora Marilia de Beatriz de Figueiredo Leite foi a primeira a se apresentar e falar da sua poesia. Marília Beatriz fez uso de sua experiência de anos e anos como professor da UFMT e dominou a plateia como uma verdadeira Silvio Santos. Falou da poesia, de poetas e da sua produção literária.

Marília Beatriz de Figueiredo Leite disse que “em Santo Antônio encontrou encantadores e encantadoras tudo sob a batuta da Professora Kelly. ‘Com a Palavra’ evento que realizou a mágica de deixar nas paredes do Salão Paroquial as assinaturas literárias de todos os que foram enriquecidos na fascinante aventura que escorre dos poetas. Os estudantes viajaram nos verbos de todos nós e por nossa vez saímos embevecidos com o modo que o ‘ser poético’ foi traduzido. ”

O escritor, poeta, membro da Academia Mato-grossense de Letras e a partir do próximo dia 16 (sábado) também do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, Eduardo Mahon falou um pouco sobre educação e da necessidade que nós temos de estudar e da sua produção poética e de ficcionista, autor de romances “O Cambista” e “O Fantástico Encontro de Paul Zimmermann” e mais um que está no prelo “O Homem Binário”.

Sobre a participação no evento Eduardo Mahon declara: “De minha parte, posso dizer que encerrei o ano da melhor forma. Santo Antônio do Leverger foi a oitava cidade por onde passei promovendo a literatura mato-grossense. Fomos recebidos com carinho por professores e estudantes da rede pública de ensino, o que redobra a responsabilidade em produzir com qualidade. Ano que vem, começo por onde finalizei, lançando com essa molecada linda mais dois livros”.

Outro participante foi o jornalista e poeta Antônio Peres Pacheco que explicou sua dificuldade em decorar o próprio texto por conta de sua trajetória nos veículos de comunicação, principalmente televisão.

Antônio Peres diz foi surpreendido pelo evento. “O Sarau Com a Palavra me surpreendeu, primeiro pelo convite para ser um dos literatos a conversar e compartilhar minha produção e impressões sobre a literatura, em especial, a poesia; segundo pelo grande número de adolescente a compor o público. Uma experiência inesquecível. Confirmei ali que a fome de conhecer daqueles jovens estudantes e testemunhei, uma vez mais, o poder fantástico de sedução da literatura e da poesia. Quantos não sairão desse evento com vontade de fazer e viver a poesia? Não sei dizer. Mas, se um apenas der este passo, já terá valido a pena”.

Aclyse Mattos, poeta, professor universitário e membro da Academia Mato-grossense de Letras, autor dos livros “Assalto a mão amada” (poemas) – que foi lançado em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Cuiabá-, “O Sexofonista” (contos), “Papel Picado” (poemas de 3 versos), “Natal tropical” (infantil), “Quem Muito Olha a Lua Fica Louco” e finalmente “Festa”, o mais recente, também claro fez uso de sua experiência de professor ao conversar com os jovens presentes.

Ao comentar o evento “Com a palavra” faz questão de destacar a integração entre alunos e poetas. “O encontro integrou alunos e professores de três escolas de Santo Antônio em torno de autores mato-grossenses. Luiz Carlos Ribeiro voltou ao local de sua estreia no teatro. Marília Beatriz animou a todos com suas histórias e comunicabilidade. O professor poeta Carlos Amorim expôs sua obra mostrando aos alunos sua atuação para além da sala de aula. Assistir aos alunos da escola Faustino Dias declamando versos dos poetas convidados foi maravilhoso”, disse Aclyse.

Além dos já citados por Aclyse – Luiz Carlos Ribeiro e Carlos Amorim – também participou a escritora e acadêmica Cristina Campos, autora dos premiados livros infanto-juvenis “Bicho Grilo” e “Papo cabeça de criança travessa” também foi uma das participantes desta alegre tarde de literatura.

Kelly Carvalho disse que para realizar o evento contou com a parceria dos poetas, do editor Ramon Carlini, do cineasta João Manteufel e do deputado Allan Kardec. Presentes ainda a diretora da escola, professora Eliane Dolens Almeida Garcia e a coordenadora pedagógica, Rosângela Campos.

PS. Este repórter também participou do evento e noticiou a edição do seu último livrinho: “Imitações de Soneto”, e aleatoriamente leu um dos poemas.

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Eduardo Mahon faz picadinho de Ives Gandra Martins que se diz discriminado e não sabe como viver no país, pois não é negro, homossexual, índio, assaltante, guerrilheiro e nem invasor de terras, esquecendo-se apenas de dizer que é rico

https://www.facebook.com/eduardo.mahonii/posts/739551732907122

A difícil vida do branco, hetero e rico

O Ives Gandra não é negro, nem homossexual, nem índio, nem sem-terra e pergunta como vai fazer para viver no Brasil nos dias atuais. Alega o renomado tributarista que, de certo modo, virou minoria. Por um momento, fiquei com pena de Ives Gandra. Ele, coitado, é mesmo franca minoria em nosso país. Está confortavelmente instalado em 3 andares inteiros na Alameda Jaú, Cerqueira César, num dos bairros mais refinados de São Paulo. Não é para qualquer um. Trata-se de 0.001% da população. Como será aguenta viver nos Jardins? É quase impossível. Sendo branco, advogado, católico, professor aposentado, presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio de São Paulo, estou emocionado com as condições deploráveis de vida deste reles pagador de tributos. Até eu quero saber: como é que um cidadão como Ives Gandra Martins consegue viver no Brasil?

No Brasil, de acordo com o IBGE, mesmo com a política de cotas, 13% de jovens negros chegam às universidades, um escândalo para Ives Gandra Martins. É menos da metade que os pobres brancos que não têm a menor condição de cursar medicina, por exemplo, um curso em que 98% do corpo discente é composto pela minoria de Ives Gandra, ou seja, brancos. Já os pobres – ah, os pobres, sempre atrapalhando a riqueza nacional! – somam 8.3% dos estudantes universitários nas instituições públicas de ensino superior, e ficam com 4% das vagas nas faculdades particulares. É um absurdo que pretos e pobres tenham tanto espaço, tantas vagas, sejam tratados de forma mais benéfica, na visão do causídico que se desespera vivendo nesse regime opressor tupiniquim.

Na visão de Ives Gandra, ser índio no Brasil é morar num paraíso. De cada 1000 crianças indígenas, 50 morrem antes de completar 1 ano de vida, 100% mais do que a média nacional. Do alto dos 3 andares do escritório na Cerqueira César, Ives reclama que os índios estão com uma porção de terra absolutamente desproporcional ao número de habitantes que sobraram nas aldeias. Segundo o banco de dados do SUS, 55% das mortes por desnutrição ocorrem entre índios. Na visão do emérito professor Ives Gandra Martins, é provável que esses índios morram porque não querem comer. E, talvez, diga ele que são pobres – sim, são os cidadãos mais pobres do país – porque decidiram viver na extrema miséria. Há de mostrar três ou quatro índios com caminhonete, vivendo nababescamente, enquanto não diz que as tribos passam fome, morrem de diarreia, malária, tuberculose e outros presentes deixados por sociólogos, antropólogos e assemelhados.

A cada ano, morrem 365 gays, lésbicas , bissexuais e travestis. Apenas pela condição sexual, nada mais. Esse índice faz do Brasil o país que mais violenta sexualmente suas minorias que, na visão de Ives Gandra Martins, é privilegiada por políticas públicas com secretarias, comissões e outros disparates. Contra as mulheres, é contabilizado 5 mortes a cada 100 mil, o que coloca o país em 5º no ranking de mais violento. Especificamente contra mulheres negras, o homicídio subiu em 54% nos últimos 10 anos, conforme dados do Ipea. Num balanço recentemente realizado pela Central de Atendimento à Mulher, em comparação a 2014, houve aumento de: 44,74% no número de relatos de violência, 325% de cárcere privado (média de 11,8/dia), 129% de violência sexual (média de 9,53/dia), 151% de tráfico de pessoas (média de 29/mês).

O doutor Ives Gandra Martins deve sofrer com algum tipo de síndrome de alheamento. É acometido pelo pensamento simplista de que, quando há trabalho e educação, há prosperidade. Ocorre que os negros, índios e LGBTs têm 70% menos estudo e, portanto, menos chances no mercado de trabalho. A culpa é deles mesmos – essa gente preguiçosa que vive de bolsas do governo. Ele deve pensar que gays podem ser gays somente da porta de casa para dentro, pretos devam voltar para a África, assim como índios devam se confinar em aldeias inacessíveis. Concordo com o professor-doutor: é muito difícil viver no Brasil. Vou além: como é que nós conseguimos conviver com alguém como Ives Gandra Martins num mesmo país?

Leia abaixo o artigo de Ives Gandra

Não Sou: – Nem Negro, Nem Homossexual, Nem Índio, Nem Assaltante, Nem Guerrilheiro, Nem Invasor De Terras. Como faço para viver no Brasil nos dias atuais? Na …verdade eu sou branco, honesto, professor, advogado, contribuinte, eleitor, hétero… E tudo isso para quê?

Meu Nome é: Ives Gandra da Silva Martins* Hoje, tenho eu a impressão de que no Brasil o “cidadão comum e branco” é agressivamente discriminado pelas autoridades governamentais constituídas e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que eles sejam índios, afrodescendentes, sem terra, homossexuais ou se autodeclarem pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos.

Assim é que, se um branco, um índio e um afrodescendente tiverem a mesma nota em um vestibular, ou seja, um pouco acima da linha de corte para ingresso nas Universidades e as vagas forem limitadas, o branco será excluído, de imediato, a favor de um deles! Em igualdade de condições, o branco hoje é um cidadão inferior e deve ser discriminado, apesar da Lei Maior (Carta Magna).

Os índios, que pela Constituição (art. 231) só deveriam ter direito às terras que eles ocupassem em 05 de outubro de 1988, por lei infraconstitucional passaram a ter direito a terras que ocuparam no passado, e ponham passado nisso. Assim, menos de 450 mil índios brasileiros – não contando os argentinos, bolivianos, paraguaios, uruguaios que pretendem ser beneficiados também por tabela – passaram a ser donos de mais de 15% de todo o território nacional, enquanto os outros 195 milhões de habitantes dispõem apenas de 85% do restante dele. Nessa exegese equivocada da Lei Suprema, todos os brasileiros não-índios foram discriminados.

Aos ‘quilombolas’, que deveriam ser apenas aqueles descendentes dos participantes de quilombos, e não todos os afrodescendentes, em geral, que vivem em torno daquelas antigas comunidades, tem sido destinada, também, parcela de território consideravelmente maior do que a Constituição Federal permite (art. 68 ADCT), em clara discriminação ao cidadão que não se enquadra nesse conceito.

Os homossexuais obtiveram do Presidente Lula e da Ministra Dilma Rousseff o direito de ter um Congresso e Seminários financiados por dinheiro público, para realçar as suas tendências – algo que um cidadão comum jamais conseguiria do Governo!

Os invasores de terras, que matam, destroem e violentam, diariamente, a Constituição, vão passar a ter aposentadoria, num reconhecimento explícito de que este governo considera, mais que legítima, digamos justa e meritória, a conduta consistente em agredir o direito. Trata-se de clara discriminação em relação ao cidadão comum, desempregado, que não tem esse ‘privilégio’, simplesmente porque esse cumpre a lei.

Desertores, terroristas, assaltantes de bancos e assassinos que, no passado, participaram da guerrilha, garantem a seus descendentes polpudas indenizações, pagas pelos contribuintes brasileiros. Está, hoje, em torno de R$ 4 bilhões de reais o que é retirado dos pagadores de tributos para ‘ressarcir’ aqueles que resolveram pegar em armas contra o governo militar ou se disseram perseguidos. E são tantas as discriminações, que chegou a hora de se perguntar: de que vale o inciso IV, do art. 3º, da Lei Suprema? Como modesto professor, advogado, cidadão comum e além disso branco, sinto-me discriminado e cada vez com menos espaço nesta sociedade, em terra de castas e privilégios, deste governo.

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Governo Pedro Taques quita pendências do Circula MT nas áreas de música e teatro depois de Leandro Carvalho ser detonado nas redes sociais

Circula MT

O programa Circula MT vai levar mais de 300 ações culturais a mais de 50 municípios de Mato Grosso – Foto por: Dayanne Santana

Da Assessoria | O governo de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Estado de Cultura (SEC), quitou as pendências do edital Circula MT das áreas de Música e Teatro. Os recursos foram repassados nesta quinta-feira (09), totalizando R$ 1,2 milhão de investimento.

Em outubro a SEC-MT já havia repassado recursos aos quatro primeiros projetos do Circula Música, seguindo ordem alfabética conforme o nome dos proponentes. Com o repasse desta quinta-feira, foram contemplados, em sua totalidade, os 15 proponentes do Circula Música e os seis do Circula Teatro.

Cada proponente recebeu R$ 60 mil. Os recursos liberados pela Secretaria Estado de Fazenda (Sefaz) foram utilizados integralmente na quitação destes contratos.

A quitação dos contratos dos demais segmentos do Circula – Circo, Artes Visuais, Dança – e do Prêmio Territórios, acontecerão de acordo com a liberação de recursos financeiros pela Sefaz.

O programa Circula MT vai levar mais de 300 ações culturais a mais de 50 municípios de Mato Grosso, gerando trabalho e renda para artistas mato-grossenses, e descentralizando o acesso a espetáculos e exposições.

Fonte: SEC-MT quita pendências do Circula MT nas áreas de música e teatro – Notícias – SEC

><>A quitação, é bom que se diga, aconteceu depois da veiculação de uma matéria assinada por Lázaro Thor Borges, do site O Livre (leia clicando aqui) e depois de repercutir negativamente nas redes sociais.

O escritor Eduardo Mahon postou o link em sua time line e os comentários foram os mais diversos, principalmente questionando o fato do secretário de Cultura, Leandro Carvalho, ser o maestro da Orquestra Mato Grosso, que por esses milagres da gestão pública, recebeu todos os repasses sem atraso.

Uma das críticas mais ácidas é a artista e galerista Capucine Picicaroli que no post do escritor Eduardo Mahon escreveu um comentário detonando a gestão do Leandro Carvalho, também na seu perfil no facebook reforçou suas críticas. Abre aspas: 

Capucine Picicaroli

20 hCuiabá

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Espelho Cansado – por Eduardo Mahon

ESPELHO CANSADOAloísio saiu de casa logo cedo. Era um sábado que se emendava ao feriado. Pegou as chaves, deu partida…

Publicado por Eduardo Mahon em Sexta, 3 de novembro de 2017

ESPELHO CANSADO
Aloísio saiu de casa logo cedo. Era um sábado que se emendava ao feriado. Pegou as chaves, deu partida no carro e seguiu para o centro da cidade. Quero um espelho – pediu ao vendedor. Não estava em uma vidraçaria, como recomendou a mulher, e sim num pregão de usados. O sujeito voltou-se para o interior e, de lá, veio com um espelho numa moldura de madeira. Só tem esse? – perguntou Aloísio. Só esse, por quê? É que o espelho é para o banheiro. O banheiro da casa era forrado de ladrilhos azuis e a última coisa que a mulher dele iria querer seria aquele espelho com moldura velha. Art déco, sabe quando vale? – foi o argumento do vendedor para empurrar o item encalhado na loja. Aloísio levou aquele mesmo, sem embrulhar. Chegou em casa, apanhou o martelo e, três minutos depois, pendurava o trambolho sobre a pia. Olhou-se demoradamente. Tudo normal. O espelho fazia o que era esperado: refletia o rosto de Aloísio, repleto de pelos que espocavam pelo rosto cansado. Não se barbeava no feriado. Ao levantar o braço direito, a imagem refletida também levantou. Foi a vez do braço esquerdo. O espelho pôs-se a imitar, como de hábito. Espelho bom – concluiu Aloísio. O homem enfrentou a crítica da esposa: desse tamanho, no banheiro, onde é que já se viu? Mas é art déco, não reparou? – ele respondeu. É velho, Aloísio, apenas velho. Não é déco, não é nouveau, não é nada! Ele preferiu ficar calado. Intimamente, porém, gostava do espelho. Havia nele um trabalho bonito na madeira da beirada que emprestava sofisticação àquele banheiro esteticamente prejudicado pela cortina de plástico que envolvia o chuveiro. Resolveu fazer a barba só para aproveitar melhor o achado. Além do próprio reflexo, observou cada detalhe: a fina lâmina prateada avariada pelo tempo, o formato ovalado perfeitamente integrado ao caixilho de madeira talhada à mão. Enquanto fazia barba, percebeu que na imagem refletida faltava os trejeitos que fazia ao escanhoar-se. Estava lá somente o rosto de Aloísio, repleto de espuma branca que caía sobre o lábio superior. Mas não havia as caretas, o nariz torcido, o beiço que se formava ao passar a navalha pelo pescoço. De imediato, parou de se barbear. Diante dele, no espelho, estava o rosto de Aloísio escondido em meio à grossa espuma branca, mesmo com ele mesmo tendo a metade da cara já raspada. Ora essa! – exclamou perplexo. Com os dedos, deu um peteleco no espelho para ver se voltava a funcionar. Espelho não é televisão – ouviu do outro lado. Como?! É isso mesmo, não adianta dar peteleco, cascudo ou piparote que não vou refletir na marra. Aloísio abriu os olhos assustado e viu, do outro lado, um outro Aloísio imitando o a expressão preocupada. Sem questionar, acabou de fazer a barba olhando fixamente para a pia. Lavou o rosto, enxugou-se com a toalha e permaneceu alguns instantes de olhos fechados. Quando olhou-se novamente, estava tudo em ordem: o rosto dele estava perfeitamente liso, dentro e fora do espelho. Ao ponderar sobre o que havia acontecido, permaneceu estático na mesma posição, mirando-se sem piscar. De repente, do outro lado, o reflexo piscou e disse: com licença, odeio olho ressecado. Pela primeira vez, Aloísio entendeu que o fenômeno não era algum lapso. Quem é você? – perguntou ao reflexo que, por sua vez, repetiu com a boca a mesma pergunta. O outro Aloísio, o de dentro da moldura de madeira, respondeu: estou farto de refletir a imagem alheia. O homem retirou o espelho do parafuso que o prendia à parede, colocou-o numa caixa de papelão e voltou ao pregão para pedir o dinheiro de volta. Não presta! – disse ao vendedor. Qual o problema, meu freguês? Está cansado de refletir, disse-me o preguiçoso! Mas isso é impossível, o senhor vai me desculpar. Recalcitrante em devolver o dinheiro faturado, o vendedor retirou o espelho da caixa e o colocou sobre um tampo antigo de mármore. Aqui está! O que não funciona? Não está refletindo tudo? Olhe aqui, sou eu. É o senhor, a loja, tudo à nossa volta. Aloísio olhou apalermado para espelho. Ameaçou: não vai falhar de novo? Não vai estragar? À míngua de resposta, colocou o objeto novamente na caixa e o levou de volta para casa. Tendo recolocado o espelho na parede, perguntou: qual o seu problema, afinal? De dentro, Aloísio ouviu: é que não aguento mais refletir outras pessoas, sem poder escolher. O que fazer para ajudá-lo? O reflexo de Aloísio fez uma careta e respondeu: acredito que espelhos deveriam direito à aposentadoria. Está cansado, não é? Estou esgotado, disse o espelho. Tudo tem um limite. O senhor sabe quantas pessoas eu já refleti? Passei a vida vendo as pessoas envelhecerem. Isso não é nada bonito. Até que a minha antiga dona morreu. No fim, ela estava sem nenhum cabelo. Me deu pena. Eu não queria refleti-la assim, mas fui obrigado. Refleti tudo, até o último brilho nos olhos dela. Depois, me cansei daquilo tudo. Comecei a refleti-la como nova, uma linda moça de lábios carnudos e longos cabelos castanhos. Antes de morrer, ela me agradeceu, mas se esqueceu de me levar. Seguiu-se um silêncio curto. Aloísio era um homem tão caridoso quanto objetivo: o que fazer? quebrá-lo? Pode ser – respondeu o reflexo sem mostrar apego. Não dá azar quebrar espelho? É mito, não seja bobo. Sendo assim, vou ajudá-lo, prometeu Aloísio. Foi à garagem, tirou da caixa de ferramentas o martelo e voltou em seguida: quebra-se de uma vez ou há alguma forma especial? Não há fórmulas, pode quebrar tudo – ouviu a resposta num tom conformado. O homem meteu a cabeça do martelo no meio do espelho que estilhaçou para formar uma teia de milhares de quebraduras. Em cada caco, Aloísio ainda se via, no entanto. Basta ou preciso quebrar ainda mais? Os inúmeros triângulos que resultaram do trinco central responderam: ainda sou espelho quebrado, é verdade, mas posso refletir; é preciso esmigalhar tudo até virar pó, se não for pedir demais. Assim foi feito. Do espelho morto, sobrou um pó grosso que quase entupiu a pia e a moldura nua sobre os ladrilhos azuis. A mulher encheu-se de razão: não falei que estava velho, Aloísio? É verdade, meu amor, mas todos nós ficamos – retrucou. Espelho novo não resolve, disse antes de ir almoçar.

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O Velho Palacete – Por Eduardo Mahon

Por Eduardo Mahon | Ninguém diria que o palácio nasceu do mesmo tamanho que todos os demais casarões na rua de terra batida. Contudo, a despeito do que ignorem os meninos que estudam arquitetura contemporânea, esses mesmos que acham que o aço, o vidro e o concreto aparente constituem o catecismo do futuro, naquela rua algum dia estiveram alinhados casarões da aristocratas, mas na medida da fortuna dos vaidosos proprietários. Depois, a queda. Pior: a depreciação lenta da meia idade. Instalou-se, ao lado, o primeiro edifício que fez pouco caso do palácio, talvez porque a grande maioria dos moradores dos demais sobrados houvessem se mudado para lá. Subia arrogantes vinte e dois andares, reinando do alto nunca visto por aquelas casas que não sobreviveriam por muito tempo. No lugar dos anônimos demolidos, nasceram outros prédios, maiores e mais altos do que aquele primogênito soçobrado diante das evidências: quanto mais moderno, mais alto. Em meio à disputa pelas nuvens, o antigo palacete de dimensões pigmeias viu-se na contingência de ser excluído do clube dos verticais e, com o tempo, perdeu os próprios moradores originais, sucedidos por sobrinhos menos afortunados, incapazes de manter o amor-próprio da única construção daquela avenida alargada e asfaltada pelo prefeito com vertigens de futuro. Houve quem sentisse pena da edificação transformada em pensão medíocre, povoada de gente pobre que se espremia nos quartos ainda forrados por tábuas de carvalho, lentamente consumidas pelo tempo e falta de resina hidratante. Apodrecido por vermes que se multiplicavam no pouco de carne ainda adrede aos ossos evidentes, o palácio mergulhou na pior fase. Os remedos nas janelas do segundo pavimento, pixos a tatuar a delicada casca neoclássica e as gambiarras da fiação telefônica, deformaram o rosto do absorto decano. Como o tempo não passa apenas para o casarão, os prédios mais antigos tornaram-se solidários com o parente mais velho. Também eles – os obsoletos arranha-céus que, hoje em dia, são baixotes em comparação com outros vizinhos mais novos e mais potentes – sofriam com rachaduras e estavam abandonados pelas famílias ricas que se foram no êxodo para condomínios distantes. O palácio, então, sofrendo de enfisema e artrites, mantinha a dignidade em não se vingar de comentários maldosos daqueles edifícios decadentes que cediam espaço barato para o comércio de bijuterias e outros cacarecos. Quando, enfim, o palácio fechou as portas, sofrendo de profunda depressão, sucumbiu para o abate de capitalistas que fariam dali um shopping, um estacionamento ou qualquer coisa mais lucrativa do que aquele esqueleto de adobe que esperava o golpe derradeiro. Entretanto, em virtude do bom-gosto de um magano extravagante, o provecto palacete foi sacado do acervo do eterno inventário em que jazia. Sediaria um museu de arte moderna e uma sala de concertos com acústica irreparável. Em tempo, quase abatido pelo tremor de veículos que trafegam em manadas, recebeu transfusão de tijolos e cimento, reboco e telhas, piso e pintura e, após lona internação por trás de tapumes, ressurgia exibindo-se em holofotes que banhavam de luz o recauchutado palácio. Os prédios do entorno, agora tomados de viciados e prostitutas que se mantinham em alugueis baratos, cedendo à majestade do palácio que reinava austero, mas nunca presunçoso, ascendiam e apagavam as luzes para saudar o sobrevivente. Assim são os casarões e as pessoas velhas, muito velhas: à beira da demolição, quando ultrapassam certos limites de existência, deixam de ser ultrapassados para ganhar foro de clássicos e, daí, receberem homenagens de quem, antes, os exprobavam pela senilidade. Já não os rejeitam. Já não os maltratam. São, ao contrário, francamente queridos para a admiração dos velhos e dos novos arquitetos que, enfim, percebem que o futuro não se faz apenas de juventude.
Eduardo Mahon é escritor.

O VELHO PALACETE (E.M)Ninguém diria que o palácio nasceu do mesmo tamanho que todos os demais casarões na rua de terra…

Publicado por Eduardo Mahon em Sexta, 20 de outubro de 2017

 

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Literamato uma festa para o livro mato-grossense

O evento conta com participação de literatos e escritores locais e palestrantes de outros estados

A Literamato (Festa de Literatura de Mato Grosso) que começa no próximo dia 19, quinta-feira, e irá até o domingo, 22, no Centro de Eventos Pantanal – só pra provocar – não é nenhuma Literamérica. Mas, sem dúvida nenhuma, será um grande evento, talvez o maior evento dos últimos anos voltado para as letras, com participação de escritores – de vários matizes como teatro, cinema, música, artes plásticas e, claro, a literatura e o livro, no qual todas as letras perenizam.

O propósito – segundo os realizadores de forma bem piegas no site do evento –  é “gerar uma experiência inesquecível e positiva relacionada a literatura” lembrando sempre que “as letras vão muito além do livro e do que pode ser impresso nos papéis e nas telas. Com elas é que se compõem as músicas. O teatro, o cinema e a televisão não existiriam se não fossem estruturados sobre os roteiros e textos de onde saem a magia que vemos nos palcos, nos filmes e nas salas das nossas casas. As artes plásticas e as artes digitais se valem das histórias, escritas ou contadas, para inspirar as telas, quadros, fotos e instalações que tanto encantam”.

Fica o dito pelo não dito e vamos à programação e o elenco de palestrantes que irão dar vida a este evento, cuja solenidade de abertura acontece às 18 horas do dia 19, com as presenças de autoridades, como de praxe. O evento, porém, tem início antes, às 14 horas, com a oficina do Livro ao Palco, com Juliana Capilé; seguindo-se do espetáculo “A Donzela Guerreira”, baseada no conto de João Guimarães Rosa, com a Cia Mundu Rodá, de São Paulo, no auditório Borboletas, o mesmo das oficialidades. Enquanto isso, no Pavilhão, as atividades na área de teatro e artes plásticas.

Na parte literária, propriamente dita, acontece o laboratório de worldboilding, que é a construção de cenário para ficção científica. Demorei pra entender a razão, mas aceitei quando me lembrei do livro “Budapeste”, romance de Chico Buarque, que nunca tinha estado na capital da Hungria, mas a usou como pano de fundo, utilizando-se de mapas e fotografias, sempre precisar ‘inventar’ nada. Na sequencia, no Espaço Criança, tem contação de histórias e para fechar a noite – neste segmento – o painel Literatura de Vanguarda em Mato Grosso com as escritoras, professoras e doutoras Cristina Campos e Olga Mendes.

Na parte do cinema, com Patrícia Oriolo, teremos a oficina de roteiro: Como começar a escrever para cinema, TV e internet. Enquanto na música acontece a oficina Poética Musical, com Magno Mello .

No segundo dia, sexta, 20, a programação é uma continuidade das oficinas, nas mesmas salas e instrutores, mas na parte da literatura já acontecem varias atividades, como palestras, audiências e painel, como Identidade e escrita do autor indígena, com Cristino Wapixana  e Marcelo Mahuari ; A importância da literatura para a crítica social, com Paulo Lins  e Flavia Helena ; Audiência Pública: Plano Estadual de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, tendo como mediadora Waldineia Almeida, e A literatura brasileira e o livro hoje, com Luiz Ruffato , Stella Maris Rezende , Marta Cocco . Na parte musical, enfim, num palco externo, shows com Caio Mattoso e Geraldo Espindola.

No sábado, 21, continuação das oficinas, e as diferentes palestras e audiências na Literatura, como Oficina de Escrita Criativa, com Luiz Renato; A Cabeça dos Novos Autores, com Marcelo Maluf , Sheyla Smaniotto , Lucas Rodrigues , Santiago Santos ; Formando leitores na escola e em casa e Caminhos para aproximar crianças e jovens dos livros, com Illan Brenman ; Literatura de ficção científica e fantasia brasileira, com Dr. Fábio Fernandes  e Eduardo Mahon ; Leitura e Acessibilidade: Como leem as crianças com deficiência?, com Wanda Gomes  e Marcino Oliveira ;  painel A literatura brasileira e o livro hoje, com Luiz Ruffato , Stella Maris Rezende , Marta Cocco . Na parte musical Show Fábulas, com Caixa de Brinquedos e Show Dilúvio, com Dani Black , ambos no palco externo. Dentro da programação oficial a entrega da premiação do 2º MT Literatura e lançamento da terceira edição.

Dentro da programação oficial, acontece a entrega do 2º Prêmio MT de Literatura, cujos ganhadores são: Categoria Poesia – “Gênero, Número, Graal”, de Luiz Renato e “Entraves”, de Divanize Carbonieri. Categoria Prosa – “Os mesmos”, de Teodorico Campos de Almeida Filho, “O assassinato na Casa Barão”, de Marcelo Leite Ferraz; “Contos do Corte”, de Afonso Henrique Rodrigues Alves e “As intermitências da água”, de Fernando Gil Paiva Martins. Categoria Infanto-juvenil – “Papo cabeça de criança travessa”, de Maria Cristina de Aguiar Campos e “Mundo dos sonhos – O ferreiro e a cartola”, de Victor Hugo Machado dos Anjos. Categoria Revelação – “Nu”, de Helena Werneck dos Santos e “Tikare: alma de gato”, de Alexandre Marcos Rolim de Moraes.

Agora vamos abrir um parêntese, pois merece. Na sequência acontece o lançamento do 3º Prêmio MT de Literatura. \o/ Viva! Urra!, mas, peralá. No último dia 10, a SEC disponibilizou em seu site, para participação popular, a minuta do regulamento para  que o “Interessados possam ter acesso ao conteúdo e contribuir com críticas e sugestões até o dia 30 de outubro”.

Como? O lançamento será no dia 20, ainda com o regulamento sendo debatido pelos interessados ou a participação popular é apenas um ‘faz de conta’.  Este repórter, que também escreve seus versos, irá contribuir e desde já apresenta sua sugestão de que o capítulo da contrapartida, com obrigatoriedade de publicar as obras seja suprimido. Prêmio é prêmio e recebedor do prêmio deve gastar com aquilo que lhe aprouver, ou na mesa de bar tomando todas, ou – sei lá – na reforma da casa.

A SEC não pode alegar que não disponibiliza de recursos. Basta, simplesmente reduzir a premiação, de R$ 30 mil pra R$ 20 mil, e com os R$ 100 mil abrir uma licitação pra ver qual editora (tem que ser editora mesmo) topa lançar os 10 livros por esse valor e a editora dirá o formato se brochura ou capa dura, se papel sulfite ou papel jornal, pois ela sabe os custos.

No último dia teremos, na parte de teatro, Dramaturgia mato-grossense contemporânea, com Juliana Capilé, Tatiana Horevich, Anderson Lana e Marilia Beatriz; nas artes a fala Um passeio da literatura no campo das artes Plásticas, com a sem papas na língua, Aline Figueiredo. Na área da literatura, a palestra Literatura nas Escolas, com Luiz Renato, Odair Moraes e Aclyse Matos. Depois uma Conversa de Criança, com Niara Terena, autora de “Amor Essencial” e o painel Poéticas Contemporâneas, com Marli Walker, Luciene de Carvalho, Ivens Scaff e Lucinda Persona.

No capítulo Cinema acontece a Sessão de cinema e papo com roteiristas e pra fechar Show Paulo Monarco e 5 a Seco .

Porque lembramos da Literamérica, lá no início?  Porque nós cuiabanos, temos o triste hábito, desde Miguel Sutil e Pascoal Moreira Cabral de sermos o primeiro.

A Literamérica tinha um propósito mais amplo, de promover o intercâmbio cultural entre todos os países da América do Sul, na primeira edição, em 2005, teve-se a participação de oito embaixadores, sendo que 13 países representados. Embora tenham realizadas duas edições em anos seguidos, a ideia era fazer uma bienal. Embora na segunda edição tenha a visitação de mais de 200 mil pessoas, o governador de então – pra economizar – mandou cancelar o evento. Um evento que promovia o nome de Cuiabá, Mato Grosso de forma positiva, portanto gerador de renda pelo turismo. Mas…

O escritor João Carlos Vicente Ferreira, então secretário de Cultura, nos contou que “a ideia era de fazer com que a feira acontecesse de dois em dois anos, em Cuiabá e de dois em dois anos em outro país da América do Sul, ou mesmo uma cidade brasileira, com esse nome: Literamérica, por conta de que foi Mato Grosso que iniciou essa proposta, pelo fato de sermos o Centro Geodésico da América do Sul”.

Recentemente tivemos em Chapada dos Guimarães a FLIC – Festa Literária de Chapada dos Guimarães, que acreditamos deve continuar receber todo apoio – não só da prefeitura local, mas também da prefeitura de Cuiabá. Os gestores cuiabanos devem lembrar que, quanto maior o sucesso de um evento realizado em Chapada, mas turistas Cuiabá recebe, pois, vamos combinar novamente – a capacidade hoteleira chapadense não é das maiores.

IMPORTANTE 

><>Na tarde deste sábado, 14, os organizadores publicaram no site do evento uma lacônica nota de CANCELAMENTO

Em virtude de questões técnicas e operacionais, e com o intuito de fazer a melhor festa literária de Mato Grosso, a Casa de Guimarães informa o adiamento da Literamato, que seria realizada de 19 a 22 de Outubro, em Cuiabá. O evento acontecerá no início de 2018 e a data será informada em breve.

Este blogueiro e Meu Peixe estamos apurando para saber a verdade dos fatos. Esta matéria, como de praxe, também seria publicada no DC Ilustrado, na próxima terça, véspera do evento.

Acreditamos que é muito, muito estranho um can14celamento dessa magnitude praticamente momentos antes da largada inicial. (14/10/2017, às 22h)

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O Incomensurável nada – por Eduardo Mahon

O INCOMENSURÁVEL NADA (E.M)Ao cabo de uma pia de louça suja, a mulher olha para o nada, como uma coruja que acaba de…

Publicado por Eduardo Mahon em Domingo, 1 de outubro de 2017

O INCOMENSURÁVEL NADA (E.M)
Ao cabo de uma pia de louça suja, a mulher olha para o nada, como uma coruja que acaba de acordar ao final da tarde e ainda não se decidiu sobre a própria fome, como uma duna de areia que não tem certeza exatamente do próprio tamanho ao ser inchada e ressecada a cada tempestade de vento, como uma ponte sobre um riacho seco que sabe ter perdido a função, mas ainda assim não perde a natureza de ponte. Parada, a mulher parece árvore que sente os tremores da terra e se solidariza com outras tantas que cresceram ao lado e hoje estão cerradas a servir de mesinha, de criado mudo ou de cama de casal em alguma casa de gente rica. Ela se sente passada como as uvas que são propositalmente esquecidas no pé até ficarem murchas para uma colheita tardia quem sabe para a produção de licores ou simplesmente cristalizadas e encaixotadas para o exigente mercado consumidor, tão passada como uma música que já arrastou multidões pelas ruas e hoje é tocada às duas da tarde de domingo pelo rádio que anuncia o flashback da década anterior. Imóvel como o pêndulo do relógio inglês que ganhei de uma amiga e que nunca mais dei corda, nem sequer por curiosidade de escutar o blim-blon classudo emitido pelo bronze que se fazia antigamente, como o crocodilo que aguarda a manada de zebus apenas com as narinas de fora para não agitar a água turva de rio africano, esquecida como as lápides que se camuflam de musgo e hibisco capazes de sacar as inscrições dos mortos que estão lá enterrados, apodrecidos, secos, reduzidos a ossadas imprestáveis para a cadeira alimentar subterrânea. Ela olha distante como um grande binóculo que busca o falcão que ataca o pombo ao descer vertiginosamente de mil e quatrocentos metros, um telescópio instalado nos altiplanos chilenos que vai dirimir se Plutão é ou não é um planeta, enfim, como o próprio tempo consumindo uma pessoa sem que ela saiba, desde o nascimento até que se dê conta de que, algum dia, vai acabar morrendo dessa doença das horas. Está calada como o fundo de uma caverna onde não há nenhuma água que pingue para formar estalagmites, como uma cobra que se enrola sobre si para tencionar os músculos e dar o bote certeiro uma vez e meia a medida do próprio corpo, como uma lágrima que corre do senhor da quinta fila do cinema escuro onde é exibido A Cor Púrpura na matinê cultural. A senhora equilibra-se sobre o corpo magro como juncos que estão fincados desde sempre na lama egípcia ou os bambuzais altíssimos chineses que teimam com a gravidade, o mesmo equilíbrio do homem de collant rosa que passeia por um fio de aço a trinta e dois metros de altura com uma desbotada sombrinha à mão trazendo alegria a expectativa aos quatro filhos da família que vão ao circo pela primeira vez, como um copo americano – desses de boteco – que cai da mesa ao chão e circula pelas bordas reforçadas de vidro para que não se quebre, como a estátua do Cristo Salvador fincado na cúpula da igreja antiga, pálida frente aos piores ventos e chuvas que vão de outubro a março. Ela está só como um ator coadjuvante abandonado no camarim do teatro de periferia sem o nome na porta, como a aranha caranguejeira que urde sua teia para pegar mosquitos, moscas, besouros e talvez canibalizar outras aranhas menores ou como uma res perdida em meio ao charco onde não se vê mais do que o horizonte úmido antes de se afogar. Ali, na cozinha, vencida a pia de louça suja, a velha olha o nada como um unicórnio e sente que faz parte do nada, sem fazer sentido algum ou fazendo um sentido absolutamente particular para quem, como ela, está só e calada, equilibrando-se no tempo e espaço para continuar vivendo o despropósito comparável com todo e qualquer outro despropósito da vida.
Eduardo Mahon é escritor.

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Parindo o Contemporâneo – Por Eduardo Mahon

Por Eduardo Mahon | O Grupo ECCO da Universidade Federal de Mato Grosso pariu mais um trabalho acadêmico que faz jus à interdisciplinaridade a que o grupo de estudos contemporâneos se presta. A mestranda Raquel Mützenberg apresentou sua dissertação, acolhida por plateia lotada. Basicamente, os estudos (e práticas) da expositora dão conta da ressignificação do corpo no contemporâneo teatro de bonecos, num movimento duplo: se, por um lado, o ator sai dos bastidores para protagonizar, presentificando-se em cena, por outro, o boneco humaniza-se de modo inovador, colhendo do ator todo o arsenal cinético que não teria longe da integralidade do corpo. Forma-se um “tertium genus”, nem ator, nem boneco, mas uma soma que gera um novo personagem, uma nova forma de representar. O mestrado orientado pela Profa. Dra. Maria Tereza Azevedo avalia como contracenam no contemporâneo a realidade e o reflexo, o real e o imaginário, a presença física e a imaterial.

Se voltarmos a mirada para observar os gregos, poderíamos constatar as “personas” como elemento de descorporificação do ator até que o corpo fosse, ele mesmo, sonegado em cena com a introdução dos bonecos, por todo o longo período medievo e moderno. Esse pêndulo entre a exposição e a ocultação do corpo foi objeto de estudo de Foucault. O estatuto do corpo foi, não só no teatro mas em outras vivências, diminuído, substituído ou mesmo suprimido. Com a contemporânea ressignificação/emancipação do corpo, o teatro de bonecos ganhou a franquia para albergar novamente o ator, presente, identificado, revalorizado. O público sentirá, no ator, uma parte que se projeta, mas permanece indissociável do corpo humano, ao mesmo tempo em que sentirá a encarnação humana no objeto que se mescla ao criador. Essa “longa manus” cênico-corporal não interfere de forma alguma no resultado da expressão. Ao contrário: potencializa os efeitos de parte a parte nessa simbiose inovadora. Uma nota adicional, relacionada à genialidade da nossa ovacionada atriz. Além de apresentar-se a si e ao boneco, imbricados e indissociáveis, reproduz o esforço do parto, do pior deles – inventar a própria cabeça, fazer nascer as novas ideias. Por isso mesmo, chama-se de Maiêutica o trabalho assinado por Raquel, referindo-se à prática socrática retratada por Platão.

Da apresentação, me restaram dúvidas que ficam para Raquel Mützenberg. Essa equação ator/boneco não teria esquecido outras duas pontas epistemológicas– autor/público? Como os espectadores enxergam não só o retorno cênico do corpo do ator, mas a fusão de dois corpos numa única expressão numa narrativa construída para apenas um? A mesma conjectura é válida para o autor, com mais razão: como reage o autor com a duplicidade presencial, reinventada pelo binômio ator/boneco? Uma resposta instintiva me toma de assalto: a sociedade está tão habituada com as múltiplas “personas” na relação entre público e privado, que não há nenhum estranhamento. É provável, inclusive, que o ultrarrealismo do boneco desnudado com a presença ostensiva do ator seja, para o espectador, mais uma atração num mundo de máscaras cada vez mais virtualizado. Outras duas questões que não estão fechadas (e nem devem): por que o ator presente geralmente usa máscara?; por que o boneco geralmente está “inacabado”, exposto sem epiderme? Ora, se o corpo do ator é protagonista, apresentar-se mascarado poderia ser um contrassenso.

Fiquei feliz por saber que o Grupo ECCO da UFMT patrocina trabalhos de vanguarda, cuja tônica é a cultura contemporânea. Olhar para o novo, para o instantâneo, é igualmente relevante do que descobrir o passado. Nada deve ser descartado em termos de investigação científica. No repositório acadêmico, constam títulos que nos ajudam a compreender o fenômeno pós-moderno, muito embora estejamos interagindo com ele no tempo e no espaço, transformando a nós próprios e ao nosso objeto de estudo todas as vezes em que nos colocamos frente a frente. É assim também em linguagem, em filosofia, em sociologia e com tantos outros saberes, enriquecidos pelo diálogo acadêmico aberto, interativo e interdisciplinar. Um último suspiro, antes de encerrar: e se, algum dia, o boneco se rebelar? É provável que essa questão seja respondida por Raquel no doutorado, etapa científica de investigação da qual ela já é merecedora. Parabéns à mestranda, à orientadora, e à equipe da Universidade Federal de Mato Grosso que nos orgulha há décadas.

Eduardo Mahon é advogado e escritor

PARINDO O CONTEMPORÂNEO O Grupo ECCO da Universidade Federal de Mato Grosso pariu mais um trabalho acadêmico que faz…

Publicado por Eduardo Mahon em Quarta-feira, 27 de setembro de 2017

 

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O Moralista no Divã – Por Eduardo Mahon

 

O MORALISTA NO DIVÃ (E.M)Há fobias de muitas naturezas. Coincidem, no entanto, com a aversão a alguma coisa: lugares…

Publicado por Eduardo Mahon em Terça-feira, 19 de setembro de 2017

Há fobias de muitas naturezas. Coincidem, no entanto, com a aversão a alguma coisa: lugares abertos, aglomeração de gente, micróbios, lugares escuros ou apertados. Há fobias que passam despercebidas e foram naturalizadas – fobia de barata, de cobra, de lagartos, enfim. Outras são sazonais na história da humanidade: fobia de um determinado povo, língua ou território. Finalmente, há aversões perenes, quase tão velhas quanto a própria humanidade. Infelizmente, a fobia à cultura é uma dessas formas de comportamento patológico. A bibliofobia é uma antiga conhecida. Queimar livros remonta a época em que os próprios livros foram produzidos. Foram inúmeros casos de destruição de bibliotecas inteiras por questões religiosas, políticas, filosóficas. Stálin e Hitler foram os últimos casos conhecidos, mas poderíamos retornar à China antiga.
Em termos de artes plásticas, o homem também guarda fantasmas que os assombra. Ao ser exposto à magnífica obra de Giotto, o escritor francês Marie-Henri Beyle teve vertigens e palpitações. Com o tempo, a doença foi chamada de Síndrome de Florença, de Sthendal ou simplesmente de hiperculturemia. Por incrível que pareça, há uma fobia de exposição às obras primas. Mais particularmente no que tangencia ao nu – dentro e fora da arte – temos classificada a gimnofobia que é o medo de se mostrar sem roupa ou ver outra pessoa nua. Ainda, nesse sentido, temos a aversão a tudo o que evoca, explora ou retrata o sexo libertino – a pornofobia. Alguém que sofra sofre com essa síndrome não suporta ficar diante de qualquer descrição sexual explícita. Pode passar mal em templos hindus, em cidades antigas como Pompéia e diante de representações africanas, asiáticas e americanas pré-colombianas.
Noutras palavras, quem não se sente à vontade diante da pornografia a ponto de ser abalado emocionalmente porta um transtorno que deve ser tratado por profissionais psicólogos ou psiquiatras com auxílio de análise e remédios para ansiedade. O artista não pode ser culpado pela recepção deslocada do espectador, já que a arte retrata, desde as cavernas, situações eróticas. Imaginemos que um artista pintasse o que consta na Bíblia, em Ezequiel 23:20: “desejou ardentemente os seus amantes, cujos membros eram como os de jumentos e cuja ejaculação era como a de cavalos”. Pode ser que o artista decida retratar os dramas de Onã – presentes na Bíblia – e pinte o protagonista masturbando-se para não ejacular na própria cunhada. Outra possibilidade artística remonta à cena do coito anal presente na Bíblia como justificativa da destruição de Sodoma. Finalmente, causaria algum escândalo se um artista pintasse o bíblico Lot transando com as próprias filhas.
No final, colocamo-nos sempre diante da encruzilhada – a vida imita a arte ou a arte imita a vida? É provável que a vida tenha muito mais variantes pornográficas do que a arte que continua a correr atrás das nuances humanas para eternizar num quadro, num livro ou num filme. Vez ou outra alguém tem pânico diante de corpos nus ou em cenas de sexo explícito. Agarram-se nas mais variadas justificativas para debelar a ameaça: religião, moral, costumes. Escamoteando a ansiedade, o pornofóbico diz se preocupar com crianças, idosos, mulheres, quando na realidade o desconforto mora nele mesmo. Talvez seja um desejo reprimido no fundo dessa rejeição violenta. Diga-se o mesmo da homofobia, da transfobia, da lesbofobia, isto é, doente é quem porta esse transtorno e não o objeto dele.
Há gente que tem medo de palhaço, de aranhas e de avião. Mas há aqueles que tem fobia de poesia (metrofobia), de música (melofobia), de dança (corofobia), de arte em geral. Quando a arte interpreta o sexo velado ou explícito, os problemas se multiplicam numa recepção doentia da realidade. Essas e outras fobias estão em voga, travestidas de moralismo. São transtornos, na verdade, que fazem sofrer o portador do distúrbio e, claro, o grupo social rejeitado com aversão profunda. Essas pessoas que estão ultrassensibilizadas precisam urgentemente de um divã e uma boa pílula de cloridrato de sertralina.

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“Lamentavelmente, é impossível ignorar a ignorância”, diz Mahon

Gervane de Paula, o artista

Por João Bosquo e Enock Cavalcanti | O artista censurado foi nada mais nada menos que Gervane de Paula, artista premiado, conhecido em praticamente todos estados brasileiros. Gervane de Paula – o nosso Gervane de Paula, do Araés, em uma de suas primeiras fases tinha a manga como temática e chegou a ter um painel na Avenida Rubens de Mendonça, a do CPA, que a população cuiabana pode admirar por quase uma década, e agora nesta penúltima (a última ainda deve demorar dezenas de anos) o artista está mais engajado social e politicamente e denuncia as mazelas do nosso dia a dia.

Uma dessas mazelas é o uso das drogas pela pobreza, pelas pessoas que não tem renda. Os grã-finos em seus apartamentos de luxo tem inclusive o serviço delivery das drogas e ninguém se incomoda. O filho da desembargadora com mais de 100 quilos de maconha, lá no Mato Grosso do Sul, está em casa, enquanto aquele pobre coitado com um cigarro da cannabis e um pinho sol ainda está amargando atrás das grandes.

Pois é esse Gervane que foi denunciado como pornográfico. Um quadro no qual se destacam a frase “crack is wack” (droga é ruim) e mostra o desenho de duas pessoas nuas, consumindo droga, teria chocado nada pacato cidadão.

Artur Garcia, repórter e censor

Por conta desse vídeo, o jornalista Artur Garcia, que mantém canal privativo no You Tube e também trabalha no Pop Show, da Band, voltou à mesma exposição – que não tinha mais o quadro para mostrar – pois o quadro já tinha sido retirado, e demonstrou sua gana pela audiência ao repercutir o pensamento mais conservador, e se manifestar contra o pensamento livre, contra a arte, sempre com os argumentos de defesa dos pretensos bons costumes.

O advogado Eduardo Mahon, um dos mais respeitados jurista de Mato Grosso, também escritor, poeta e admirador da boa arte, embora possa até não concordar com alguns aspectos artísticos, defende a liberdade de expressão. Pois ele, mais que ninguém, sabe que o trabalho do artista, do escritor, do poeta e romancista dependem da liberdade.

“Lamentavelmente, é impossível ignorar a ignorância. Em todos os momentos de virada, o conservadorismo opôs-se à vanguarda. Essa tensão é absolutamente natural e até esperada. O que não é possível admitir é a censura por meio do patrulhamento de cunho moralista ou religioso. Os modernistas do século XIX foram chamados de pornográficos, imorais, infantis e desastrados. Renoir foi hostilizado por retratar a vida profana parisiense, entre outros tantos que hoje estão consagrados. O mesmo se disse da pop art e do dadaísmo. Vejo a reação como natural à proposta artística. Arte que não incomoda, que não faz pensar, que não desaloja o espectador do comodismo, nunca terá sido verdadeiramente arte. Trata-se de decoração. É preciso enfrentar os nossos próprios fantasmas, do preconceito interno aos abusos sociais. Para isso, temos a lei, de um lado, e a educação, de outro. Os artistas catalisam a mudança de comportamentos. Recomendo que quem quer apreciar ópera, música clássica, ballet, vinho, seja lá o que for, estude antes de falar tanta bobeira. O que há por aí é gente passando recibo de ignorante ao abrir a boca”, disse Mahon.

O Lau, da dupla Nico & Lau, o ator Justino Astrevo, ao saber da censura envolvendo um quadro do Gervane de Paula, reagiu assim: “Esse olhar de censura sobre essas obras está atrasado pelo menos uns 500 anos. É triste a falta de visão libertária e de conhecimento histórico! Vade retro”. (JB/EC)

Leia também: Pantanal Shopping retira quadro de Gervane de Paula da mostra “Eu Amo Cuiabá”

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Posse de Aclyse Mattos na AML foi uma noite de poesia

A festejada solenidade teve Casa Barão com lotação esgotada, tanto que muitos assistiram de pé

O auditório da AML lotou e muitos assistiram em pé – Foto: Facebook

Por João Bosquo e Enock Cavalcanti | A solenidade comandada pela professora Marilia Beatriz Figueiredo Leite, que está se despedindo do cargo de presidente, fechou com chave de ouro sua temporada à frente da Academia Mato-grossense de Letras , marcada pela ‘interminável’ reforma da Casa Barão de Melgaço. O mandato da atual presidenta se encerra em outubro e ela será sucedida pelo historiador e polemista Sebastião Carlos.

Os imortais mato-grossenses estavam, vamos combinar, alegres, daríamos esfuziantes com a chegada do novo acadêmico. Quem estava contrariada era a própria Marília Beatriz que foi orientada a não quebrar o protocolo e fazer o seu discurso devidamente sentada. Para quem não sabe a professora quando fala, em meio a sua fala, costuma meter cacos no texto digitado.

O poeta, letrista e compositor Moisés Martins – que agora também terá a companhia do também músico Aclyse Mattos, disse que “a AML estava de parabéns por receber um ilustre intelectual. Uma pessoa que vem para congregar mais ainda. Um jovem que vem oxigenar a nossa instituição”.

O intrépido acadêmico Eduardo Mahon, poeta, contista e romancista, ex-presidente da AML, destaca o fato de Aclyse Mattos estar adentrando a Casa Barão de Melgaço por ser um literato. “Como disse uma vez Vinicius de Morais: o que tinha de ser. O que tinha de ser dentro da academia era a literatura e é essa a nossa bandeira. Aclyse vem fortalecer o grupo da literatura. A Academia é o lugar de todas as letras, mas sobretudo da literatura”, declara.

O acadêmico José Cidalino Carrara disse que a “AML se engrandece com a aquisição de um poeta, de um intelectual de qualidades reconhecidas como de Aclyse. Fernando Tadeu, professor e pro-reitor de Cultura da UFMT, festejava o fato de ter estudado, quando adolescente, na mesma turma do novo imortal.

O deputado Alan Kardec, a reitora da UFMT, Myrian Serra e o secretário dos 300 anos, Junior Leite, ficaram no dispositivo das autoridades, ao lado dos acadêmicos. Izis Dorileo fez as honras do cerimonial. A PAGINA DO E fez transmissão ao vivo de parte do evento, que está lá, registrada no Facebook.

O poeta acadêmico Ivens Cuiabano Scaff, que está dentro dessa leva de novos membros literatos, foi quem fez o discurso de recepção e explicou que “não precisou escrever um ‘discurso’ mas apenas usar versos e mais versos do recém-chegado. E ao ler esses versos, Ivens confessava um ponta de inveja de querer escrever esta ou aquela tirada. É bom esclarecer que a inveja confessada não é pecado.

O empossado Aclyse Mattos, como regra da imortalidade das academias, lembrou de todos os antecessores da cadeira e, em especial, de Rubens de Castro, o Baiano, que veio para Corumbá e adotou com sua cidade natal. Rubens de Castro publicou dois livros em vida e tem oito inéditos.

A parte cultural ficou por conta do mestre da viola de cocho, Habel Dy Anjos que – junto com Fidel Fiori – fez a música ambiente e depois executou o Hino Nacional Brasileiro com seu amado instrumento. Na parte do piano, Habel Dy Anjos lembrou a primeira vez que esteve na Casa Barão de Melgaço, e que naquele mesmo piano tocara a nossa inesquecível Dunga Rodrigues, com ele acompanhando na viola. Quase no final, o Quinteto de Cordas da UFMT executou uma valsa de Zulmira Canavarros, que Aclyse fez questão de dançar com a esposa, em cena muito aplaudida. Para fechar, realmente com chave de ouro, a execução digital do Hino de Mato Grosso, travou no meio da música e a plateia, para nossa alegria, levou até o final, no gogó, os versos de Dom Aquino: “Salve, terra de amor, terra do ouro/ Que sonhara Moreira Cabral!/ Chova o céu dos seus dons o tesouro/ Sobre ti, bela terra natal!”.

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