A inédita Luciene Carvalho de Sempre, por Eduardo Mahon

A INÉDITA LUCIENE CARVALHO DE SEMPRE (E.M)Já tive oportunidade de comentar sobre o novo ângulo que Luciene Carvalho…

Publicado por Eduardo Mahon em Quinta-feira, 15 de novembro de 2018

 A INÉDITA LUCIENE CARVALHO DE SEMPRE (E.M)

Já tive oportunidade de comentar sobre o novo ângulo que Luciene Carvalho deu ao que, até então, chamava-se “cuiabania” ou, como querem outros, “cuiabanidade”. Nos primeiros livros, a autora fez questão de desterritorializar a ação do centro para a periferia, descrevendo “tipos” que são diferentes dos consolidados no imaginário coletivo. É no Porto que as raízes da poeta estão plantadas e de lá interpreta o crescimento desordenado da metrópole, com medo, com raiva, com curiosidade. Com o novo livro – DONA – a autora ressurge mais madura, embora reafirme com clareza toda a própria trajetória. Basicamente, o livro gravita em torno da temática feminina relativa à madureza. A morte da mãe não é tratada como vazio e sim como sublimação, uma nova etapa onde os cordões umbilicais são partidos e a poeta adquire independência. O local é a periferia, o orgulho da margem, e o cultivo de uma “linhagem” que prenuncia o futuro como uma espécie de sucessão desse ângulo de percepção. Percebo isso desde a dedicatória ao “principado da Barão”, um coletivo de meninas que, na visão da autora, constituem-se a verdadeira aristocracia portense. Continue Reading

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Eduardo Mahon: A literatura sem pedágios de Luciene Carvalho

CUIABÁ DO AGORA – Eduardo Mahon

A literatura sem pedágios de Luciene Carvalho

Na resenha anterior, pretendi mostrar como a terra influencia a literatura em seus diversos momentos históricos, mais especificamente fenômenos ligados à Cuiabá e suas transições no tempo e espaço. Tracei um paralelo entre o cânone “aquiniano” que pretendia idealizar a imagem mato-grossense e cuiabana como uma espécie de Éden, cruzando-se raças fortes e corajosas, com a poesia da geração seguinte que se viu aturdida com o crescimento da cidade, com a descaracterização daquela vida bucólica da pequena urbe. O projeto identitário foi concebido pela dupla D. Aquino Correa e José de Mesquita.

No excelente ensaio A Cruz encobre a Espada, o escritor e estudioso Luiz Renato de Souza Pinto deixa anotado: “A construção de elogios, opúsculos, narrativas encomiásticas e qualquer texto de caráter laudatório a ‘grandes’ homens do período colonial e imperial brasileiro era apenas parte da tarefa a que se dispuseram cronistas como Varnhagen, Capistrano de Abreu, também serve de espelho para José de Mesquita, oferecendo outra visão para a historiografia nacional”. A conclusão de seu artigo retrata a força institucionalizadora do grupo literário da época: “José de Mesquita escreve para registrar uma visão canônica da história. A sua verdade legitima a ocupação do espaço do saber pelos que dominam o conhecimento. Seu cânone gira em torno de uma profusão de ideias capazes de reproduzir forças políticas nos embates. O lugar social de Mesquita é a representação institucional de uma suposta verdade, construto que procura não colocar o preto no branco, no sentido conotativo, e sim tapar os pontos escuros com a pátina do silêncio, já que, como diria Ferro (1985, p.37): esses silêncios sobre as origens, assim como todos os silêncios ligados à legitimidade, são garantidos pela própria força das instituições”.

Pois bem. A relação com a imagem idealizada de Mato Grosso e de Cuiabá parece ter gerado sofrimento nos escritores que a confrontavam com a realidade. Como simples amostragem, recorri à poesia de Moisés Martins que recorda o passado com nostalgia, Ronaldo de Castro que se revolta e denuncia e de Silva Freire que pretende uma reconciliação com o telúrico – três formas diferentes de perplexidade diante de uma cidade que crescia e continua crescendo. Enfim, apontei na poesia de Marli Walker uma nova perspectiva de visão sobre a terra – o olhar do migrante, o desengano com a opulência aparente, o custo ambiental, a exploração da terra e das famílias que gravitam em torno do agronegócio.

O cânone sobreviveu no tempo, porém. Parece-me que a produção mato-grossense era filtrada, recebida e reconhecida, desde que não se afastasse muito do padrão estabelecido inicialmente por Aquino/Mesquita. Outros poetas poderiam muito bem nos servir para retratar a terra pela visão canônica (terra mater) como, por exemplo, Maria de Arruda Muller:

No enredamento feraz, das silvas tropicais/ Cheias de ásperas, terríficas surpresas./ Dormias sob o céu estrelado, no silêncio/ Feito de mil sons da Natureza!…/ Vieram a ti, paulistas desabridos,/ Panache sem par, de homens destemidos/ Homens “de sertão”, impávidos, fogosos/ Mais feitos de aço, que de carne,/ Trazem a esta solidão, imensurável,/ O som da língua portuguesa,/ Misturado ao jargão do curiboca…/ Eles vieram, apresar índios e encontraram/ Tanto ouro, que em vez de ir, aqui ficaram!/ Berço de aborígenes valentes,/ Paiaguás, borôros, guatós, coxiponés/ Rebentos das raças ameríndias/ Que, na imensidade do torrão, viviam/ Há milênios, livres, soberanos…/ Mansos uns, outros agressivos,/ Receberam o invasor, apreensivos./ Coroada e rica, de silva e de flores/ Em ti se mesclam, frondes de gramíneas./ – Os épicos bramidos das torrentes,/ Os tonos do trovão, o grito das araras,/ Tudo convida a ficar, nela permanecer!/ Mas, o chocar de inúbias nas monções de caça/ Assusta e impele a luta, homens de outra raça/ Porque, do áureo metal, eras matriz,/ Metal que, então como hoje, tenta e impele,/ Tendo, no seio virginal a misteriosa flama/ Atraindo homens como chama a mariposa,/ Enfrentam a luta, afrontando a morte!/ Os pés cansados, da intérmina jornada,/ Pele curtida, veste esfarrapada,/ De Itu, Porto Feliz, de Sorocaba,/ Em grandes levas, vadeando rios/ Galgando serras, varando socavões e brenhas/ Transpondo cachoeiras, precipícios,/ Elegeram estes sítios pra morada!/ Moreira Cabral, Sutil, Martins Bonilha/ Contemplai Cuiabá, após “Forquilha”…

Já vimos que a festejada poeta comungava da mesma visão dos “homens destemidos” de Aquino/Mesquita. Veremos agora como observa Cuiabá, mais particularmente:

“Cidade Verde”, de claro céu e ardentias/ luminosas de arrojado pôr-de-sol…/ As tuas águas correntias,/ os teus suaves arrebóis…/ e tuas matas de ametista,/ que fascinam a fantasia de um artista!/ Terra tapisada de flores, broquelada/ de gemas…/ És Ariel, preso ao mundo pelos pés./ Atenta a um forte impulso, para a liberdade/ que a ferrovia te dará, gentil cidade./ “Cidade Verde”! Ao tropel de loucas ilusões/ fatigado: o seio palpitante/ patenteou alfim, o bandeirante,/ a ofuscadora e incrível realidade,/ nas tuas grupiaras e monchões…/ Daí, o núcleo, todo alacridade/ Do “Senhor Bom Jesus de Cuiabá”./ Rainha e primogênita desde a fundação,/ és de Mato Grosso e da Pátria o coração:/ vigias os misteriosos estendais, que balizam os pontos cardeais…/ De norte ao sul, de leste ao oeste,/ riquezas tão faustosas, quais de Ali Babá./ Dos confins da Amazônia ao Apa sorridente,/ o látex corre a flux e a ilex viridente,/ quanto mais se ceifa, mais de adensa em mata agreste./ E os diamantes, o ouro; do Garças ao Galera/ que fizeram a grandeza de vividas eras!/ “Cidade Verde”, és um tesouro!/ Tens ainda o mesmo ouro/ que fez ricos os reinos;/ sob o solo e no caráter dos teus filhos,/ Terra mater,/ ele faísca em mil fulgores./ Amplia a tua história!/ Escalando o céu de tua glória,/ filha de audazes, mãe de heróis!

A relação com a terra dá-se noutro eixo quando se trata dos últimos fluxos migratórios. Com relação aos “chegantes”, além de Marli Walker, eu bem poderia apontar Luiz Renato, Marta Cocco e o excepcional Santiago Villela Marques. Deste último, reproduzo “Confidências do Mato-Grossense” que retirei da coletânea “Nossas Vozes, Nosso Chão”, didática que deveria ser mais apoiada pelos poderes públicos. Eis Santiago:

Nesta vida de meus anos
nunca nasci em Mato Grosso.
Mas que saudade me dá
de morrer aqui.
O corpo encerrado no oco
do último tronco de cedro
antes que o inverso leve
da praia as folhas de jacarés
no vento,
e caia a pena do tuiuiú
madurada à força.
Além da chuvinha de agosto
ninguém não vai chorar por mim
que não tenho fazenda, não
nem sou dono de gado
nem sujo a mão de soja.
Que eu sou mato-grossense
e o Mato Grosso é dos outros.
Mas sou tantos couros
que quando me esfolarem
a pele de bicho morto
nem vai doer.

Portanto, além das novas fronteiras, há uma nova percepção de Mato Grosso, como era de se esperar com a contemporaneidade. O poeta denuncia a desigualdade social e confessa o “despertencimento”, percebendo a si mesmo como um mero objeto. Esse sentimento de exclusão não é uma grande surpresa. As análises literárias que cuidam de fluxos migratórios voluntários e compulsórios registram essa reação. O que me chama atenção é como o próprio mato-grossense, o próprio cuiabano, passou a se perceber. Mesmo em Cuiabá, esse paradigma poético de D. Aquino começou a ser revisto. Na cidade que passara pelas obras modernizantes, novas impressões surgiram sobre o relacionamento com a terra natal.
Um olhar menos idílico e mais realista surgiu no final do processo de reestruturação da cidade, ultimado com a queda da antiga catedral. Caía um símbolo. Como a poesia contemporânea se relaciona com essa Cuiabá renovada? Teremos algum vestígio de ressentimento, de resistência ou de luta? Ou as mudanças já estarão integradas na mentalidade do escritor? Qual o cenário que escolhem para a nova literatura produzida na capital?

Para responder à questão, gostaria de apontar Luciene Carvalho. A escritora é comumente estudada pelas múltiplas escrituras femininas em sua obra literária. No entanto, gostaria de analisar especificamente o relacionamento dos autores com a própria terra. No livro Ladra de Flores, ela também tenta escapar da descaracterização da cuiabania, fugindo para o quintal, porto seguro da poeta:

(…)
Vi o tempo que passava
Na Cuiabá dos meus trajetos
E a cidade era tão eu…
O que eram lágrimas
Fez-se pranto e arritmia
Não sabia
Se solidões
Ou poesia
Já na Barão, novo dilema
Como atravessar
O cinturão dos conhecidos
Amigas de infância e parentes
P’ra chegar ao meu quintal?

O quintal atual de Luciene Carvalho, localizado numa das antigas casas do Porto é um recorte da memória da poeta, uma fotografia onde ela vive ou se refugia. A topologia do Porto, aliás, está descolada da capital, talvez porque, desde o início, os habitantes do distante bairro tenham vivido à parte, com sua própria comunidade religiosa, sua escola pública e sua pracinha onde brincavam as crianças. O Porto é, de certa forma, uma oposição à cidade e à tradição, um mundo à parte ou uma outra tradição. A melhor poesia de Luciene Carvalho que representa essa bolha apartada do corpo urbano é “Outros Tempos”, do livro Porto:

Fui andando pelas ruelas/ tão aquelas/ do Porto de Cuiabá// têm história…/ crianças de hoje/ brincam com netos/ de vizinhos de outros tempos// o dono da padaria/ conhece Dona Maria/ sobrinha do seo João/ Jacira que lava a roupa/ em outros tempos foi louca/ de amor por Sebastião/ que hoje toca a padaria/ porque casou com Sofia/ a filha de um alemão./ E, aqui no bairro do Porto/ vizinho é de porta adentro/ é um bairro de outros tempos,/ tem outra arquitetura./ E o que se procura acha:/ é linha, anzol, borracha;/ macumba é na baianinha,/ chá de folha é no Suat// hortaliça, arame, linha/ tem vidraceiro, engraxate/ café moído na feira/ cabelereira, sapato// o que tem de história triste/ muito serviço barato.// tem puta de qualidade/ tem putinha de tostão/ pano de prato/ cultura/ tem pedinte/ tem cafetão/ tem virgem/ tem traficante/ tem carretel, tem barbante/ suor trabalho, mistura// tem Cuiabá neste bairro/ que em Cuiabá não tem/ tem tanta história importante/ que Deus salve o Porto, amém”.

Como se vê, as referências de Luciene Carvalho são completamente diferentes do cânone que tratava da Cuiabá bela e radiante, lugar para bravos e destemidos, terra de heróis que se doavam pela pátria. Para a poeta contemporânea, a tradição desloca-se para outra geografia, muito embora a intimidade típica de cidade pequena esteja sempre presente. No entanto, temos claro uma “Cuiabá do Agora”, representação de cidade que muda e a escritora segue esse fluxo contínuo. Novos cenários são integrados à paisagem. Muito mais do que na poesia, é na prosa que Luciene inverte o eixo saudosista. Cuiabá é usada como um cenário qualquer, sem o ressentimento típico da Cuiabanália, por exemplo. Percebam o tom de Ronaldo de Castro, na poesia Meninos de Rua:

Um crime sob os céus se perpetua,
que à bandeira da pátria traz vergonha…
É o desfile da infância seca e nua
a transpirar miséria, fel, maconha.
Qual lixo humano, soltos pela rua,
são meninos sem pais, a voz tristonha
a pedir pão, mostrando a face crua
da dor de quem não come e quem não sonha.
A rua, amarga escola de bandidos,
é o palco dos meninos preteridos
pela nação que não é mãe – é algoz…
Ó pátria desgraçada!… Os maltrapilhos
da rua, eles também são vossos filhos
– apertai-os no peito junto a vós!

É no livro Conta Gotas que a escritora evidencia mais agudamente essa “nova cidade”: febril, caótica e sensual – a metrópole que Cuiabá virou. No conto Nervoso, temos a periferia cuiabana sendo escolhida como cenário: (…) lanchonetezinha chinfrim, estreita e comprida, fruto de uma casa cuiabana revisitada. O texto não tem nostalgia, não usa expressões como “demolição”, “esquecimento”, uma melancolia típica na resistência à urbanização. Prossegue a escritora: então falei que ia na sua casa e fui no campinho do CPA IV. O bairro citado é distante do centro de poder cuiabano, deslocado do quadrilátero histórico tradicional e das igrejas respectivas. Dá-se o mesmo no conto Revelação: num domingo, ela havia sido liberada para ir a uma matinê no Clube Náutico, ali no comecinho da Várzea Grande, passando um pouquinho a ponte do Porto. Na ida, tudo certo, a turminha da vizinhança se divertiu pelo caminho e se esbaldou com o som de discoteca que embalava aquele fim de anos 70.

Durante a formação do cânone literário mato-grossense, nas primeiras décadas do século XX, seria vedado o cenário, a forma, e a intencionalidade da escrita de Luciene: os arrabaldes como CPA IV e a vizinha Várzea Grande estavam fora do interesse da capital. Isso para não dizer do enfoque principal do trabalho da escritora que é a revelação da mulher, seus desejos, mistérios, rituais, cobiças. Quero, porém, voltar a me concentrar no relacionamento com a terra. No mesmo Conta Gotas, a periferia é sempre relembrada, uma margem que está integrada com o centro, não cobra e não deve nada à tradição. Eis um trecho do conto Rota:

Ela desceu do ponto de ônibus da Prainha, perto do calçadão ainda meio tonta; passou em frente à joalheria onde haviam comprado as alianças em setembro passado, numa tarde de risos e cumplicidade. As lágrimas sucumbiram às lembranças, desabando pelo seu rosto, enquanto descia a 13 de junho em direção à farmácia Pax. Comprou uma Água de Melissa de um balconista solícito que, vendo seus olhos cheios de lágrimas, perguntou se ela queria mais alguma coisa. Quero, quero sim – ela pensava, enquanto seus lábios murmuravam um obrigada pálido “quero voltar as horas, mudar o caminho das coisas, quero acordar de novo nesse sábado…” ela decidiu ir a pé pra casa após pagar a nota da farmácia. Sua dor precisava de espaço e sua cabeça tinha entrado num rodamoinho de pensamentos sem controle… quero acordar de novo neste sábado e não inventar moda de querer ir à casa de Frederico pra ter uma conversa sobre nós dois – esse negócio de discutir relação é bobagem – ainda que eu saia de casa, que eu não pegue o ônibus do CPA, que eu vá ao Porto visitar Anginha. E mesmo que eu pegue o ônibus, que eu desça na subida do Araés e vá ver Zulma, que eu desça no centro e torre meu cartão. Quero qualquer força que me mude a rota, que me impeça de chegar à casa do meu Fred e usar a chave na porta.

O trato com a cidade é diferente. Os casarões já estão no chão, a igrejinha não existe mais. O aspecto provinciano deixou Cuiabá. Já estão incorporadas as mudanças que não são opostas. Explico a provável razão: a escritora Luciene Carvalho nunca partilhou das regalias do “centro”, dos costumes dos abastados, das viagens internacionais. E, se algum dia gozou do fausto das mais tradicionais famílias, o hábito não se incorporou à mulher geograficamente plantada no Porto, uma outra cidade, um outro universo. Em geral, há saudade da perda. Se imaginarmos que a escritora não comunga do sentido convencional de tradição e nem tampouco pretende replicá-la, não há porque a obsessão com um passado naturalmente mutante.

A vida da escritora está vinculada ao quotidiano urbano quando sai do mundo paralelo que é o quintal remanescente. Ela não se lamenta por ter perdido nada porque nada era realmente seu. Da mesa aristocrática, Luciene nunca se fartou. Aquele idílio cuiabano, cantado em verso e prosa, não pertenceu à maioria da população cuiabana. A atenção da escritora está voltada para uma cidade que, até então, era apagada na literatura: a Cuiabá da mulher comum que ganha um salário mínimo, anda de ônibus, espera nas filas de banco e consome comida de rua. Destaco um dos contos de Luciene Carvalho que mais me impressiona:

As lentes dos óculos Jackie O. refletem o cumprimento ‘oi!!!’ e só então seu dia começava de verdade. A calça branca de lycra agarrava com vontade o quadril farto que se demorava na ferragem da roleta, enquanto mãos cegas fingiam procurar o vale-transporte nos escaninhos mais que conhecidos da bolsa curta de camelô. Aquele breve interlúdio matinal vinha dando alma nova à manhã dela; já não se preparava apenas para limpar os corredores intermináveis do Hospital Geral, já não se exasperava com clorofórmios e desinfetantes, já não se incomodava com o escarro do pai que se levantava para continuar o porre interrompido na noite anterior; já não lhe pesava a chegada dos 45 anos. Não! Acordava para ele, se vestia e maquiava para ele; o cobrador da linha 508. Tinha que ser pontual para pegar o ônibus certo e poder realizar aquela cena matinal: unhas pintadas com esmalte vermelho escondiam o contato com os corrosivos e descansavam por um minuto sobre a caixa de dinheiro. O cabelo alisado com chapinha no fim-de-semana exigia que ela se inclinasse em direção à bolsa para mostrar seu balanço, a língua umedecia o lábio roxo de cuiabana antiga e: ‘Oi’!!!

O que se evidencia no texto de Luciene é a empregada doméstica, a secretária, a babá, a frentista, a enfermeira, milhares de mulheres do povo grandemente desaparecidas da primeira geração de escritores mato-grossenses. Esse “apagamento” como tão bem estudado por Marli Walker é simplesmente uma barreira imposta por intelectuais alinhados com o conservadorismo provinciano: não se publica e, se publica, não se comenta. Daí que a poesia divergente desaparece dos compêndios, das antologias, dos estudos universitários, da bibliografia enfim. Luciene Carvalho encontra-se desafiando o “standard” feminino consolidado em Mato Grosso: a mulher do lar, obediente e intelectualmente conformada. Mulheres havia, é certo, mas nenhuma com os quadris metidos na “calça de lycra”, as unhas enfeitadas de “esmalte vermelho” e os “lábios roxos”. Essas mulheres de Luciene Carvalho não estão castradas, para resumir numa frase.

De qualquer forma, essa “nova Cuiabá”, igualmente feminina e sensual, não censurada e livre de pedágios institucionais, vai surgir entre 1980 e 2000, mostrando-se mais mundana do que supunham os autores pudicos, religiosos e patrióticos que forjaram o cânone mato-grossense. Os tempos são outros: é a vez do agora. Luciene Carvalho continua produzindo. Estou à espera de “Dona”, o novo livro. A poeta promete que vai dar BO. Ela sabe o que está fazendo, sabe o quê e quem está provocando. Como dizia Bakhtin no seu Teoria do Romance: “por trás da narração do narrador lemos uma segunda narração: a narração do autor sobre a mesma coisa narrada pelo narrador e, além disso, sobre o próprio narrador. (…) Não perceber esse segundo plano intencional e acentual do autor implica não compreender a obra”. A gente está sacando tudo, Luciene. Vá em frente!

CUIABÁ DO AGORA – Eduardo MahonA literatura sem pedágios de Luciene CarvalhoNa resenha anterior, pretendi mostrar…

Publicado por Eduardo Mahon em Segunda, 25 de junho de 2018

 

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Antônio Sodré será homenageado em evento no dia 19 com sugestivo título de Showdré

Registro do encontro do secretário Kleber Lima e os produtores culturais cuiabanos Foto: Rodolfo Perdigão

Da Assessoria | A Secretaria de Estado de Cultura e um grupo de artistas voluntários irão realizar um tributo ao poeta, cantor e artista transversal Antônio Sodré, no dia 19 de fevereiro, na Casa Cuiabana. O assunto foi tratado durante reunião, na tarde desta sexta-feira (26.01), na sede da Secretaria de Estado de Cultura.

O show, que contará com exposição, sarau, performance, apresentações musicais, varal de poesia, entre outras coisas, terá o nome de Showdré, também em homenagem a um antigo projeto de Sodrézino – como era conhecido – com o Secretário de Estado de Cultura, Kleber Lima.

“Queremos, coletivamente homenagear o Sodrézinho e mostrar para as gerações futuras, que talvez não o conheçam, a importância que ele tem e teve, sobretudo na literatura, mas também no teatro e na música”, pontuou o secretário de Cultura.

O tributo terá amigos artistas que estiveram junto com Sodré, desde os tempos em que frequentava as salas de aula como aluno da UFMT, até seus últimos dias de vida, em uma justa homenagem voluntária por parte de todos, que deverá rememorar as diversas manifestações artísticas de Antônio, com seus livros, varais poéticos, recital, apresentação musical, memórias e, quiçá, o lançamento de uma obra inédita.

No Sarau será apresentada uma exposição, com textos, poesias, rascunhos, desenhos e os famosos caderninhos que Sodré costumava utilizar.

Também será apresentado um minidocumentário sobre a trajetória do poeta, com acervo pessoal e de amigos, depoimentos de artistas e familiares, produzido e realizado pela Secretária de Estado de Cultura.

Ramon Carlini se comprometeu em distribuir, no dia do evento, exemplares do livro “Poesia Necessária”, de autoria de Antônio Sodré, lançado pela editora Carlini & Caniato.

A secretaria também estuda a possibilidade de apoiar a edição de um livro que reúne poesias inéditas de Antônio Sodré.

Eduardo Ferreira, Amauri Lobo e Cristina Campos estiveram presentes na reunião e estarão a frente da organização das apresentações musicais, com canções compostas por Sodré, tanto de músicas solo, como de bandas em que o artista já esteve, entre as quais está a renomada e saudosa Caximir Bouquet.

“Me lembro desde a primeira vez que o vi, num evento sobre poesia marginal, ele estava recitando um poema e eu fiquei encantado de cara. Foi amor à primeira vista e um amor que durou mais de trinta anos. Eu briguei com a minha mulher muitas vezes, mas com ele eu nunca briguei”, disse Ferreira, relembrando o amigo.

A escritora e imortal da Academia Matogrossense de Letras, Cristina Campos, conta que conheceu Sodré no curso de letras nos anos 80 e o define como anjo torto. “Ele era muito espontâneo, aquilo que um Tom Zé é para a música brasileira, o Sodré seria para a poesia mato-grossense e brasileira também. A gente se divertira e aprontava muito. Somos de uma geração que se permitia e a arte tem muito disso”.

Já o publicitário e produtor cultural, Amauri Lobo, conta que Sodré era uma pessoa muito peculiar. “A gente chamava ele de Sudra, falava que ia consultar o oráculo, pois ele era assim, tinha umas coisas de culturas de todo o mundo que ninguém sabia de onde ele tirava. Se ele tinha dificuldade de publicar ele escrevia no caderninho, se ele não tinha estudado música ele compunha com as notas que ele criava no violão, então ele trazia essa espontaneidade. E ele era muito doce e leve, um passarinho”, relembra Lobo.

As artistas Mari Gemma de La Cruz e Bia Correia serão as responsáveis pela curadoria das obras apresentadas na exposição, que posteriormente deverá circular por alguns espaços da capital, como o Instituto de Linguagens da UFMT, amplamente frequentado por Sodré.

A declamação de poesia será organizada pela escritora e imortal da AML, Luciene Carvalho. Mas, claro, será, assim como o era nos áureos tempos do homenageado, aberta a todos que quiserem declamar algo do artista ou para ele, entre os quais deverão participar os professores da Universidade Federal, Roberto Boaventura e Aclyse de Mattos, também integrante da AML.

O Sarau receberá ainda a biblioteca móvel do incansável defensor do acesso a literatura, Clóvis de Mattos.

Outros artistas foram convidados, mas não puderam estar presentes, porém deverão participar da homenagem a Antônio Sodré, o poeta da transmutação.

Source: Poeta Antônio Sodré será homenageado – Notícias – SEC

Leia também: Agora estamos sem Antônio Sodré: um poeta na estrada suspensa no ar

O poema sobrevive, o poeta Sodré vive – Por Vinícius Masutti

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Eduardo Mahon lança livro e João Gordo estreia filme nesta terça, 1 de agosto

O livro é “Contos Estranhos” e o filme é “O Poder da Palavra” que movimentam, nesta terça-feira, o Cine Teatro

Integrantes do Bonde do Mahon – Foto: Divulgação

O lançamento… Ops, o ciclo de lançamento do livro “Contos Estranhos”, de Eduardo Mahon, se encerra neste dia primeiro de agosto, terça-feira, com um evento no Cine Teatro Cuiabá, quando também (além dos autógrafos, tête-à-tête do escritor e o seu público amado leitor – que não é pequeno – tão tradicional num lançamento de livro) acontece a avant-première do filme-documentário “O Poder da Palavra”, de João Manteufel, o João Gordo, que conta com a participação de Aclyse Mattos, Lorenzo Falcão, Luciene Carvalho, Lucke Mamute, Marília Beatriz de Figueiredo Leite, Ramon Carlini, Vera Capilé, Waldir Bertúlio e, claro, do escritor Eduardo Mahon. O filme tem 60 minutos e não sei quantas palavras, por isso tudo o evento está sendo tratado como “Bizarro, incomum, esquisito”.

Este repórter não vai discordar do “bizarro, incomum e esquisito” dos lançamentos deste 10cimo livro de Eduardo Mahon que, como noticiamos a primeira vez neste mesmo Namarra, começou em março, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, depois se desdobrou pelas mato-grossenses Cáceres, Sinop, Pontes e Lacerda e também na FLIC de Chapada de Guimarães, onde a festa contou também com a participação de outros escritores – Ivens Cuiabano Scaff, Olga Maria Castrillon-Mendes, Cristina Campos e Marli Walker – que também participaram dos eventos. Agora, se junta à trupe, um cineasta, o João.

O filme começa a ser exibido às 19h30, portanto não percamos a hora.

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Eduardo Mahon faz superlançamento de “Contos Estranhos” 
Lançamentos de “Contos Estranhos” transformam-se em bonde e agita Mato Grosso

Tenho pouco para falar do filme. A única informação que recebi é que a poeta (desde Cecília Meireles, todas querem ser chamadas de ‘poeta’, contrariando o gênero poetisa) Luciene Carvalho faz um depoimento emocionante, pra lá de bacana, e se revela como atriz… Mas, pelo que me lembro dos tempos do Flamp, Luciene já era uma estrela.

Vamos ao livro. “Contos Estranhos”, recapitulando, começou – segundo o autor – a partir de uma prosaica pergunta “e se?” e de tal pergunta se prolongou a imaginação criadora e surgiram os contos, como “A Hérnia”, “A menina que roubava cores”, “O homem sem gravidade” e outros, somados 35 foram reunidos e mais a novela “O Homem do País Que Não Existe”.

Para quem vem acompanhando a produção do ativo advogado, polemista e escritor, os resultados são surpreendentes. Os romances “O Cambista” (2015) e “O Fantástico Encontro de Paul Zimmermann” (2016), ambos tem uma narrativa cinematográfica que envolve o leitor pela clareza textual. Não é fácil. Isso sem falar da necessidade de se fazer que produto final, o livro, suporte da história chegue até as mãos do leitor.

Olga Castrillon-Mendes, professora e pesquisadora de literatura da Unemat, que prefacia o livro, destaca o trabalho de Mahon, ao espalhar os seus textos para um número maior de possíveis leitores.

Eduardo Mahon, segundo Olga Castrillon-Mendes, “é um dos que mais se comunica com o leitor em potencial pela forma como distribui e faz circular sua obra. Certamente contribuindo para a configuração da cadeia sistêmica que envolve meio social, história, produção e formação, como aquela traduzida por Antônio Cândido e repensada por críticos e teóricos contemporâneos”.

A poeta e acadêmica Lucinda Nogueira Persona, no posfácio do livro, falando em linguagem, diz que “em Contos Estranhos, importa salientar, entre outros elementos, a economia da linguagem. Em cada frase, o autor opta por um enxugamento que agiliza a marcha da escrita e jamais prorroga o desfecho. Assim, o narrador revela-se resoluto do início ao fim”.

Com outras palavras – creio – a poeta Lucinda Persona está nos dizendo do drama do escritor, como no poema “O Lutador”, de Carlos Drummond de Andrade que afirma que “Lutar com palavras/ é a luta mais vã/ Entanto lutamos/ mal rompe a manhã/ São muitas, eu pouco./ Algumas, tão fortes/ como o javali/ Não me julgo louco/ Se o fosse, teria poder de encantá-las/ Mas lúcido e frio/ apareço e tento/ apanhar algumas /para meu sustento num dia de vida”.

A luta empreendida por Mahon é pela economia da linguagem – como destaca Lucinda – tanto que os contos são um paragrafo só. Os diálogos dentro do texto dispensam os sinais gráficos – (travessão) e “” (aspas) por exemplo e o leitor não precisa dessas sinalizações para compreensão da narrativa direta, intuitiva e – alguns momentos – chocante.

A leitura dos livros de Mahon, no atual contexto mato-grossense, é interessante inclusive para compreensão do universo literário no qual vivemos. Boa leitura.

Lá no início foi escrito que o ciclo de encerramento se esgota em agosto. Mentimos. Em outubro o autor já tem agendado o lançamento do livro Contos Estranhos em São Paulo, em destacada livraria paulista.

Fonte: DC Ilustrado

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OverDoze de cultura no Sesc Arsenal

Manuel de Barros/Divulgação

Manuel de Barros/Divulgação

De vez em quando uma overdosezinha não faz mal pra ninguém. Melhor, faz bem, muito bem, se a over for de cultura. O Sesc Arsenal , neste sábado, 24, realiza o evento OverDoze, um trocadilho, para estipular um tempo. Doze são as horas de atividades culturais. Melhor de tudo, todos os espetáculos são inteiramente gratuitos. A realização dessa maratona é uma continuidade do projeto Guaná Aldeia Sesc de Arte e Cultura, que comemora os 70 anos da instituição, ou coisa parecida.

A programação é a mais variada possível para todos os gostos e faixas etárias. Começa às 14 horas (o bom do Sesc é a disciplina no horário, não tem aquela de marcar 14 pra começar às 15, combinando), com o filme “O Menino e o Mundo”, desenho animado, que usa uma técnica já superada pela indústria de animação que procura dar contornos realistas, tanto nos traços como nas expressões, talvez por isso mesmo vem conquistando crianças de todas idades.

Ainda voltado para o público infantil, meia hora depois, é a vez de Vinicius Rangel, ator e contador de histórias para crianças de zero a cem anos. Vinicius, além de contador de histórias, é palestrante e oficineiro, e se diz um “apaixonado por contos, histórias, versos e poemas”.

Na sequência acontecem dois eventos paralelos ligados ao hip-hop, nos Jardins do Sesc Arsenal, a partir das 16 horas, que é o “Grafite Livre” e o “Slam de Tchapa e Cruz”, inserido no Brasil Poetry Slam, e – como nos conta Raul Lázaro, o nosso Mano Raul – vai receber a “visita de uma das figuras mais respeitada do rap nacional: Maurício DTS do Detentos do Rap”. Segundo ele, quem estará recebendo o rapper é Vivian Batistela, que transita no cenário Hip Hop de Cuiabá e São Paulo. “Maurício fará uma participação no encerramento do Slam Tchapa e Cruz e a oportunidade de conhecer o consistente trabalho desse rap gangstar de primeira”, avisa.

Às cinco da tarde, quando o sol começa a deitar, se pudesse dar uma chegada até o Cais do Porto, poderíamos assistir mais um belo espetáculo do pôr-do-sol, mas estamos acompanhando a maratona, que tem duas atividades concorrendo. A primeira a a volta de Vinicius Rangel – com sua contação de histórias e a outra é o espetáculo “Benedita”, com o grupo Cia Sino de Teatro, da Bahia. A sinopse nos conta que “o espetáculo traz à tona a preservação de Patrimônio Imaterial Cultural com humor e densidade quando leva o público a conhecer de perto Benedita, uma misteriosa senhora contadora de histórias”.

Os tambores japoneses, que sempre são um espetáculo a parte, farão uma participação especial. Depois vem o grupo Monofoliar, integrado por Estela Ceregatti, Jhon Stuart e Juliane Grisólia, que estão com duas composições novas, novíssimas: a primeira é “Sonho Cuiabano”, trecho do poema do extrovertido poeta Ivens Cuiabano Scaff, musicado pela compositora Estela Ceregatti; a outra é “Meu Tekoha”, uma parceria com Jade Rainho, que também compõe a trilha do documentário “Flor Brilhante e as cicatrizes da Pedra”, da sensível cineasta Jade.

A Cia Pessoal de Teatro, formada por Marchetti, Sergóvia e Diamond Crew, apresenta “A Ave”, às 19h30 no teatro do Sesc, em seguida a Cia Ayolowa apresenta “Palavras da Alma”, depois o Grupo Zabriskie de Goiás, encena “Quem Cochicha o Rabo Espicha”, para finalmente às 21h30 acontecer o espetáculo “3 em Verso e 1 DJ”, com Eduardo Mahon, Flávio Ferreira, Luciene Cavalho e o DJ Taba, jardins.

O espetáculo de sábado “Três em Versos e um DJ” é uma homenagem a Manuel de Barros que completaria 100 anos em 2016. Segundo Mahon, que vem se revelando um animador cultural, vai se unir o poder cênico de Flávio Ferreira e a plástica de Luciene Carvalho com a música do DJ Taba. “Será um diálogo poético entre os meus poemas inéditos e os dela que tratam da vida e da mágica do Porto. Acho que essa iniciativa, vindo do Sesc,de uma qualidade muito grande, e tem como organizadora do evento a poeta Luciene Carvalho, que tem uma relação transcendental com o bairro do Porto”, disse.

Por volta das 10 da noite começa uma sequência de música e shows com Linha Dura e convidados, Karola Nunes e fechando a banda Salamanos. “Ufa”, passa da meia noite e hastag vamobora dormir que já é domingo e na conta de mentiroso, é dia de acordar cedo.

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