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Da liberdade e seus limites, por Nilson Lage

Da liberdade e seus limitesDiga a um pobre que ele é livre; que pode, por exemplo, xingar o patrão e ir a Roma ver o…

Publicado por Nilson Lage em Sábado, 1 de dezembro de 2018

Por Nilson Lage | Diga a um pobre que ele é livre; que pode, por exemplo, xingar o patrão e ir a Roma ver o papa. Ele lhe responderá que não tem meios de fazer nenhuma dessas coisas. Se entendesse de discursos enganosos, o acusaria de cometer falácia de ambiguidade: o sentido, em português, de “pode” conjuga as noções de permissibilidade (“may”) e materialidade (“can”).
Mas nem só por esse duplo significado do verbo “poder” o uso político costumeiro do conceito de “liberdade” é uma fraude: seu vício principal é que serve para priorizar uma dimensão do homem, valorizada pela ética luterana – em prejuízo de outra, que põe em primeiro plano a construção da individualidade pelo entorno social, de modo que cada olhar do outro, do início ao fim da vida, é o espelho em que a gente se vê. Continue Reading

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A tragédia dos mil e um erros – por Nilson Lage

Por Nilson Lage | A pergunta que interessa à História é: – Onde o Brasil errou?

A lista é extensa. Começa na década de 1950, quando o país não soube defender sua indústria cultural – as produtoras de cinema e gravadoras de músicas; prossegue com a omissão diante do Ibad, antes da eleição de 1960, e, anos depois, com a preservação do parlamento que a agência subversiva comandada por Ivan Hasslocker elegera por via da corrupção eleitoral; ou, na década de 1970, quando dinheiro público financiou a montagem do oligopólio centralizado e privado de mídia.

O colar é extenso. Mais importantes, porém, são os erros continados, constanters. Dentre eles, destacam-se a ingenuidade geopolítica e a ignorância estratégica.

O que terá levado o governo brasileiro a imaginar que a mais poderosa, cruel e farsante potência imperial da História toleraria a aliança de um país vassalo com Rússia e China, seus demônios eleitos? Ou admitiria que esse mesmo vassalo, ocupando extenso e rico território, acrescesse gigantesca província petrolífera a seu potencial agrícola, relevante para a segurança alimentar dos povos do Oriente?

Em 2003, quando cruzei no Rio de Janeiro, onde estava de passagem, com dois conhecidos de outros tempos – imigrados para os Estados Unidos com bolsas e favores do governo americano –, desconfiei, pela primeira vez, de uma conspiração em curso. Pareceu-me que um deles viera, como antes, ouvir e informar sobre conversas de intelectuais cariocas ligados à esquerda brasileira; o outro, mais qualificado, procurava automóveis com mudança automática e ficou triste em saber que não se fabricavam aqui: trazia recursos e apoio técnico para congregar competentes jornalistas em torno do projeto de intenso “combate à corrupção” do governo de Lula da Silva – uma espécie de linha auxiliar da política das empresas de mídia há muito cooptadas pela central que funciona em Miami, a SIP – Sociedad Interamericana de Prensa.

Os órgãos de segurança institucional do Brasil não viram – porque não quiseram ver, provavelmente foram infiltrados para isso – o trabalho de organização dos blackblocs e da estrutura jurídica de suporte que os apoiou; ignoraram a intensa movimentação de agentes subordinados a uma embaixadora especializada em golpes latino-americanos com experiência anterior em Honduras e no Paraguai; assistiram à construção de pontes entre a conspiração de matriz externa e grupos fascistas no Sul do país, latifundiários gulosos de terras, milícias de policiais e remanescentes de militares da linha dura; não moveram uma palha quando o processo de criação dos institutos (Ibad e Ipes), que antecedeu o golpe de 1964 – reeditou-se no Instituto Millenium e seus satélites vinculados à militância dos ultraliberais adeptos de Hayek e de Von Mises.

Só os tolos acreditariam em democracia sustentada pela autoridade moral do estado de direito; ou garantida pela pureza republicana de uma Justiça corrompida e covarde como a brasileira – os tolos e os idealistas. Alguns desses dão aulas em universidades locais. Leram os bons autores do passado e os repetem, com eventual criatividade; tendo estudado em Paris, Londres ou Boston, costumam imaginar que aqui é como lá.

Pelo contrário: o Brasil é um país periférico, de classes sociais separadas por muros invisíveis e de regiões que não dialogam uma com a outra porque só se ouve a matraca de São Paulo. A cultura da elite brasileira é cosmopolita, nórdica e moderninha: o povo, mestiço, crédulo, tolerante em sua prática e conservador nos costumes.

Digamos que o conjunto dos erros se resume em múltiplo colapso comunicacional.

A tragédia dos mil e um errosA pergunta que interessa à História é: – Onde o Brasil errou?A lista é extensa. Começa…

Publicado por Nilson Lage em Sábado, 13 de outubro de 2018

Fonte: Facebook do autor

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