Lembranças Eternas – Um poema de João Bosquo

Não tenho tantas dores para contar:
Quebrei o braço, fui pro Santa Casa,
Me roubaram a namorada e chorei,
Perdi o ônibus, atrasado, perdi o emprego…

As alegrias, por inúmeras, são várias
Que não saberia contá-las
Chego tentar calcular uma centena,
Uma milhar, como aquela aposta
E passou raspando

Ser alegre não é ser feliz,
Mas momentos felizes acontecem
Assim num repente,
Como o qual quando o filho nasce,
O coração palpita ao ver o bichinho no berçário…

Outra alegria, de menos é mais,
Quando, mesmo desempregado,
Alguém nos procura, não pra socorrer,
Mas pedir ajuda que só podemos dar…

A vida tem traços, nuances,
Marcas, algumas indeléveis,
Talvez, por isso, vale a pena viver
E forçar a memória
Pras lembranças eternas.

21/10/2017
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Manuel Bandeira: Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira

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Primeira Vez

Da primeira vez, solitário e triste,
Que me vi, como num espelho,
Tentei um sorriso e meio
E quis enganar-me aos olhos…

Da segunda vez, embora triste,
Um tanto quanto solitário e só,
Busquei dentro de mim
Uma lenda e lembrei-me de você…

Da terceira vez, solamente
Quase uma semente, vi
Atrás da íris quando estava

Frente ao espelho – olho no olho –
Que possível ser só e triste
Mas sem medo, essencialmente.

2006
Poemas de João Bosquo
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Sonho de Menino é Piraputanga no Anzol

Os peixes estão dormindo

Embalados por sonhos úteis
Que lembram antigos parentes
Perdidos por outros rios…

– Menino, menino, menino,
Tira daí esse anzol
E deixe os peixes do Cuiabá
Sonharem em paz.

Poemas de João Bosquo
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Mulheres Felizes Contagiam

para Adriana, Cláudia e Flávia

Mulheres felizes contagiam o ambiente…
Riem fácil, alegres, petizes nos corredores
No andar de mãos dadas e cochicham
Sobre tudo, sobretudo quando juntas

Mulheres alegres e felizes, todos reparam,
Não importam com o preço das verduras
Não sabem da queda da bolsa de Chicago
Dos conchavos nos parlamentos do mundoMulheres felizes não sabem conta de dividir

Por isso não repartem essa tenra felicidade
Com outras tantas mulheres mais ou menosPorque são felizes? Alguém é capaz de dizer

Com exatidão de um por um milhão, qual
O endereço postado desse ser feliz à sós? -Não.

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O Poema Que se Pede

para Adriana Zelaya

Veja, o poeta se mete em enrascadas
Quando pessoas pedem um poema
Ele não sabe dizer não – bem feito –
E a poesia não se assusta de emergência

O poema – mesmo de estrutura simples
Sem rimas de valor estimado
Ou de prestígio duvidoso –
Não se encontra na esquina
Tampouco se saca num caixa eletrônico
Duma agência poética de plantão 24 horas

O que vale é a musa bem humorada
Morando entre a floresta e a metáfora
E proporciona um sopro de inspiração
Que nos zela, pelo ritmo, a escrever…

28/03/2013

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Cuiabá, cuiabanos e cuiabana

Cuiabá 300-6 é contagem regressiva
Para o tricentenário da cidade verde
Ano que vem será menos cinco
E Cuiabá não para, não para, não para…

Meu coração, enquanto bate, não para
De ser cuiabano, de ser otimista
De acreditar que o homem cuiabense
Além de hospitaleiro é esse mesmo…

Assim também é o cuiabanense
Quando olha para o sol se pondo
E lembra que amanhã é segunda-feira

Cuiabá caminha, calma e solene
No seu andar, morena… Antes de tudo
Melhor de tudo é o coração da cuiabana.

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A Camisa e o Abraço de Aline Romio

Tem uma camisa que me faz lembrar
O abraço de Aline Romio…
O abraço é uma ação que nos faz sentir
Que não estamos sozinhos…

O abraço não deixa
Que o universo dentro de nós
Exploda em novas explosões

O Universo se expande
O abraço, contudo, permite
Que fiquemos juntos

O abraço que se sente saudade
Quando veste a velha camisa
Embora sem estampa, é alegre
Como deve ser todos os abraços…

(O abraço segura,
num infinitésimo milésimo de segundo,
A eterna expansão do Universo infinito.)

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Fora da grande área do poema

Eu nunca quiz ser volante, cabeça de área
não desejei jamais jogar na defensiva
como um beque desajeitado. Exclamação.
Nunca me vi, sonhei ou cogitei ser beque.
Em minhas visões no Dutrinha fui Bife,
artilheiro, goleador, driblador até a meta,
função maior de todos os cetroavantes,
sem resquício de pena ou dó do zagueiro.
Mas, sem talento, não cheguei a gandula
fiquei na arquibancada arquitetando rimas
e nunca se cumpriram em nenhum verso.
Faltaram o ritmo, junto com a musa, a poesia,
o equilíbrio nas metáforas de querer ser
jogador, sem precisar edificar o poema.
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Quando o Sol Grita Bom Dia – poema de João Bosquo

Quando o sol, ao amanhecer, grita: Bom dia
o dia amanhece em todas as partes da manhã
e começa a procura pelo café preto, leite bom,
pão com manteiga e conversa fiada tecelã…

O dia bom, não importa se tem sol ou chuva,
é pra viver a lavoura, o grão germinar na terra
e frutificar, com doces alegorias, nosso coração
que sonda pelas retinas arco-íris de longe serras

O dia, o meu dia, começa nesta velha Cuiabá
de traçado estranho, a me levar por entre becos
do córrego da Prainha, Ribeirão, Cacimba…

Cuiabá tem muitos rios e dias bons pra meditar
Assim começa a vida, quando o sol dispara
do Oriente seus raios de luz, e ela se faz eterna.

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Anjo de Cara Amarrada – poema de João Bosquo

Não vi o anjo de cara amarrada.
Só vi o anjo
(Não era pescador)
Navegava na flor
Pelos rios do Pantanal
Os peixes seguiam
Esse anjo em sua barca rosa

As flores pantaneiras
São naturais
Estruturadas em comando singelo
Triz de cor de arco-íris

O anjo reconhecia todas
Como de antes ser sementes
As flores eram semelhantes
Se mostravam brinlhantes
Na face do navegante feliz.

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A Poesia Está Além

A poesia está além do plano mental
Além da matéria, das artérias
Dos canais, dos sinais
Do plano do planalto
Além das montanhas

Além da onde a vista alcança a olho nu
Ou com binóculos
Computadores
Além, além da visão digital
Desmaterializada nos confins da internet
Das correntes magnéticas
Dos embustes das palavras

A poesia está além do papel
Do plano do papel
Do livro encadernado
Plano de pouso da poeira em bibliotecas

A poesia está além do ali
Do agora, da íris que salta de espanto
No mergulho profundo ao desconhecido…
A poesia, aliás, não está em lugar algum
Em nenhum lugar, nem em um…

A poesia está em mim, em você
Em nós dois
Nele, nós três
No coletivo – quando somos coletivos
Na certeza que estamos no caminho certo
De poder chegar até Deus…

A poesia (vê) é Deus.

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Internamente – poema de João Bosquo

Internamente
Guardo alguma coisa
Que nem sei
Seu preciso formato

Está guardada em mim
Sei, por instinto de saber…
O que é, como e porquê
Não digo
Nem posso adivinhar
Porém lá está
Eternamente.
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Finalmente – poema de João Bosquo

Finalmente estou só
No meio de mim mesmo
Segredo sem saída…

Estou só, confirmo,
Sem saber
Uma sílaba sequer
Da linguagem do falar
Internamente.
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Primeira Vez

Da primeira vez, solitário e triste,
Que me vi, como num espelho,
Tentei um sorriso e meio
E quis enganar-me aos olhos…

Da segunda vez, embora triste,
Um tanto quanto solitário e só,
Busquei dentro de mim
Uma lenda e lembrei-me de você…

Da terceira vez, solamente
Quase uma semente, vi
Atrás da íris quando estava

Frente ao espelho – olho no olho –
Que possível ser só e triste
Mas sem medo, essencialmente.
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Como uma teoria

Como descansar no bosque,
Como brincar com as crianças,
Como sentir de novo a grama,
Como voltar a ter esperanças?

Como? – A resposta é complexa
A massa caminha com pressa
Depressa! Depressa! diz a voz
Atroz e nem sabemos de quem é

Respondemos sem familiaridade
Num impulso, dentro do prazo
De validade e não sermos descartes…

As artes só desperta alguns de nós
Alguns uns, nunca dois de uma vez
Para que só se saiba onde é a saída.
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De musas e Gonçalves Dias

Tristes musas tardias
De um romantismo
Arredio
De um não-Gonçalves Dias.

II

Passam os anos
Passam os meses
Passam Gonçalves Dias
E as musas não vêm.

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Minha Poesia ao Léu – poema de João Bosquo

Minha poesia não é só minha.
Ela também é de quem a lê
e se sente enlevado por ela.

Sente que as palavras escritas
(assim dessa maneira, estilo)
é o jeito se queria usar para
dizer os mesmos sons ali ditos

Minha poesia não é só minha.
Antes de me pertencer, a poesia
pertence ao papel sob o qual se vê

E ela vive assim, na memória,
de quem a declama, sem que eu
possa segurar o seu destino ao léu.

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Apóstolos da palavra – poema de João Bosquo

O homem procura a si mesmo, sozinho
Por uma vereda desconhecida, agora
E não entra sem saída e paga ingresso
O tudo que aqui sobra é o nada hoje

Era luz, primavera, verão, inverno outro
Outono, nenhuma outra estação era
Era a estação das cruzes, do fuso horário
De trocar vestimentas, homem, mulher

A mulher procura a si mesma, também
Embora dentro de casa, corredores fixos
Não levam aos mesmos lugares confusos

Apenas juntos, mãos dadas: Cecília, Manuel
Drummond e todos os apóstolos da palavra…
O nada que aqui resta é o tudo amanhã.

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Tempo das águas – poema de João Bosquo

Antes de se chegar ao Pantanal
A poesia procura o prumo das águas
E tenta primá-la em palavras
Fluviais, flutuantes frente ao início…

Antes de iniciar a chegar a termo
O tempo das águas se faz presente
Num ritmo freqüente em chuvas
Em pingos gotejantes como dum rio

Que cai do céu para dentro de mim
As gotas são tantas, não posso bebê-las
Enxugar também não posso. Nadar

Como peixe é um querer sem fim
Sem redes, sem iscas, sem medo
De ficar preso em malhas de prosa.

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Inteira – poema de João Bosquo

Não há poesia sozinha
Poesia só sua, só minha
Não há poesia daninha
Poesia erva…

Não há poesia serva
Poesia sobremesa
Não há poesia meio…
Meia poesia

Meio tanto estética
Outro nem tanto
Veio meio-a-meio

Sem risco é dito:
Não há poesia
Anti-poética!

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Tempo certo: poema de João Bosquo

O relógio, o espaço
horário do tempo certo
O sol mesmo sem se pôr
agora amanhece…

Os homens como ovelhas
correm mansos para o pasto
com sinais que determinam
paradas pra não dar tempo

Sonhos não se concretizam
lágrimas não se compram
a dor não se reparte
criam a solidão do só

Que mesmo acompanhados
nada mais são que só
Mesmo ouvindo-falando
nada mais são que mudos-surdos

(Na calçada chora a criança
que a mãe, por necessidade
e esperança-crença nos homens,
deixou-a para que a encontrassem).

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Espírito de Natal, poema de João Bosquo

O espírito de Natal chega perto da data de Natal
E se instala dentro da gente, mesmo sem querer,
E ficamos assim, como que bobos, desejando
A todos, independente de quem, Feliz Natal

Feliz Natal!, grita nosso coração, lá do fundo,
Para todas as pessoas deste imenso mundo
Que mal sabemos quantos bilhões somam
e, mesmo assim, sorrimos pra todos, contente

Feliz porque o espírito natalino prospera
Pelo nascimento do Menino que nos espera
Com sentimento Divino que prometera…

Feliz Natal… É puro desejo que todos sentem
E por isso pedimos que ele permaneça, enfim,
Fincado perene dentro de nós pela vida eterna.

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