Talvez eu devesse falar… Luciene Carvalho questiona o resultado do Edital de Literatura 300 da prefeitura de Cuiabá

PARA QUE EU POSSA DORMIRTalvez eu devesse falar um pouco sobre o novo , totêmico e definidor de destinos na cultura…

Publicado por Luciene Carvalho em Sábado, 9 de fevereiro de 2019

PARA QUE EU POSSA DORMIR

Talvez eu devesse falar um pouco sobre o novo , totêmico e definidor de destinos na cultura cuiabana: O EDITAL que importa mais que trajetória construída, carreira, criatividade. A busca de equanimidade se tornando um gesso e o pior é que pode ser ” maquiado”

Talvez devesse falar de pareceres de conselheiros que rejeitam projetos sob o argumento que o hip hop – nascido na Jamaica não é cultura afro – Sabotagem , perdoe

Contudo para que eu possa dormir, preciso falar da Literatura no edital 300Anos…ñ consigo entender que o veio que gerou Silva Freire, Aclyse Mattos, Ivens Cuiabano Scaff , Manoel de Barros e tem encantado o Brasil, ñ seja merecedor de ter proponência no projeto coletivo do edital dos 300Anos de Cuiabá. Mas o edital…

Talvez eu devesse refletir a urgência de profissionalização do fazer do escritor em Cuiabá

Talvez eu devesse gemer pela necessidade de compromisso com a cadeia produtiva do Livro, que tem prioridades que só quem produz LITERATURA compreenda.

Mas tem o edital que, “maquiado” e posto num papel que aceita tudo, coloca o dinheiro da Literatura à serviço de quem nem reside na cidade ( mas tá tudo certo no edital), se tiver viúva de facção , alguém “doma ” o edital e isso é o que importa. Vamos contar história sobre literatura, sem proponência de escritor, o que é que tem ? Escritores trabalham como professores , médicos, advogados. Ñ vivem de literatura.

Aí chego a mim: comecei a mostrar meus poemas em 1989, há trinta anos declamo e desde 2001 venho vivendo na e de poesia.

Preciso dormir e tem a internet sem pagar, tem luz, água, transporte, comida . Talvez tenha chegado a hora de desistir…

Calar a voz dos meus versos

Talvez esteja exausta de ser aquela que responde aos chamados pra escrever poemas pra cidade de graça e ainda ir declama-Los

Talvez tudo que eu venha escrevendo sobre CUIABÁ, me faça mesmo merecedora da coadjuvância nos projetos pífios de amigos de conselheiros e isso tenha me esgotado.

Talvez já tenha feito tudo , só uma coisa deixei de fazer: prometí pra uma declamadora, que daria de presente pra ela um poema inédito meu: Cassyra L Vuolo, eis seu poema

CUIABÁ RUMO AOS 300

No cerrado dos meus olhos
Miro o mundo…
Dentro desta Cuiabá
– miolo de América do Sul –
Capital das mil fronteiras
A 19 minutos do centro da cidade
Já encontramos cerrado fundo
De árvores com caules e troncos torcidos
Folhas ásperas
E contornos bailarinos.
Hora e pouco
Metade asfalto, metade poeira
E o pantanal genuíno
De águas esparramada
Horizontes de nunca mais acabar.
Meia hora de asfalto
Em outra direção
E o recorte chapadão
Vai enchendo o olho
Com sua altidão de mistérios,
Abismos de gemidos e assobios
Diz que é baixada,
Diz que é bacia,
Que é buraco…
Pode ser.
Diz até que é o fim do mundo
Eu creio que é miolo.
Com gente vária
Tem os daqui,
Daqui mesmo!
Com cada idéia
Tão pra lá de pós-moderna
E pá!!!
Antes de fazer a curva de São Gonçalo;
Antes mesmo de lembrar
Onde era mesmo a São João dos Lázaros
Tem familhagem antiga
Fazendo e tocando viola de cocho
Dançando sorriu, saia florida.
Cuiabá tem uma vida
Toda sua, singular.
Eu creio no ademais das surpresas…
Que dizer de um lugar
Onde represa
Vira condomínio de luxo?
Onde escondedor de mãe Preta, quilombolizada,
Vira parque de caminhada?
Em Cuiabá,
Não duvido de nada
Tem cadeira de fio na porta
Pra conversa na boca da noite
E ali mesmo, a cabeça entorta
Pra olhar helicóptero
Que persegue bandido
Que em qualquer beco de Vila antiga
Pode estar escondido.
Cuiabá tem platéia pra tudo
É só ter cena boa…
Festa de Santo?
Junta gente!
Corrida no começo do ano?
Junta gente!
Vão dançar bem o siriri ?
Junta gente!
A gente daqui gosta de ficar junto
Gosta de assunto,
Boa comida,
Conversa comprida
E gosta de gente de fora
Não precisa ir embora;
Só não é bom chegar mandando
Pondo defeito
No jeito cuiabano de viver.
Pode ser que não pareça
– olhe melhor-
O povo cuiabano tem cabeça:
Deixa chegar,
Dá corda
E quando a criatura acorda,
Já deu o que tinha que dar,
Misturou raça com os daqui
E oh!!!
Quem é de Cuiabá
Sabe o endereço
Sabe que esta terra não tem preço,
Que chão não tem ladrão,
Que farofa
Pode ser de qualquer coisa,
Mas paçoca pra ser boa,
É de pilão

Luciene Carvalho
( ???)

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