Teatro de Mato Grosso nunca mais será o mesmo sem Luiz Carlos Ribeiro

Morte do mítico ator de Rio Abaixo, Rio Acima, de Gloria Albuês, está sendo chorada por seus amigos, colegas e admiradores

Por João Bosquo | Luiz Carlos Ribeiro não está mais em carne e osso entre nós, no entanto permanece, pois permanecer é a sina de todo grande artista, na memória coletiva de sua gente de seus amigos, afetos e – porque não – desafetos. Permanece na lembrança de cada cena, na sutileza do gesto teatral, do olhar e jeito de ver o teatro como instrumento de sensibilização da alma de um povo, de uma gente, de uma comunidade, de um estado, de um país. “Fica, Pedro!”, escrito em parceria com Flávio Ferreira, tem muito disso, do pulsar de denuncia social que toda grande obra deve ter.

Neste tributo a Luiz Carlos Ribeiro o olhar de cada um é um olhar particular, pessoal, daquilo que conseguimos enxergar num dado momento de nossas vidas e, por isso mesmo, o que mais amamos, sem que ninguém esteja certo absolutamente, mas ninguém está errado, pois não conseguimos absorver a humanidade em sua integridade. Bem como o pensar a cultura, o nosso bem maior.

Ivan Belém, ator e ativista, um dos criadores do Gambiarra: Luiz foi um dos principais líderes do movimento teatral organizado de Mato Grosso, atuando de forma a questionar as questões políticas e sociais e combater a ditadura militar. Ele tinha um escritório no calçadão de baixo. Era ali que nós artistas nos reuníamos frequentemente. Tinha uma preocupação com a nossa identidade e com a ocupação desordenada de nosso território. Protestava contra a indústria cultural, e contra a ideia da arte pela arte. Atuou muito na interiorização do teatro e na luta por uma dramaturgia que bebesse nas fontes da cultura popular mato-grossense, valorizando o siriri, o cururu, o Boi-à-Serra. Tudo isso fruto das suas origens em Santo Antônio de Leverger. Com isso, popularizou o teatro e deu à ele uma cara e um conteúdo local. Foi um dos autores mais escreveu peças para o Grupo Gambiarra, e para a dupla Liu Arruda e Ivan Belém. Em novembro do ano passado estreei uma remontagem da sua peça “Vespa 7”, à qual ele assistiu e saiu muito feliz com o que viu. Deixou um grande legado e uma grande quantidade de textos teatrais inéditos. Nós artistas e o povo mato-grossense, devemos muito a ele. Enfim, Luiz Carlos Ribeiro foi imprescindível”!

Clóvis Matos, do Inclusão Literária, afirma que “Luiz Carlos Ribeiro foi uma das poucas pessoas que todos chamavam pelo nome todo. Nome forte, marcante, como foram suas vidas, o homem e o criador. Bom e velho companheiro de algumas andanças com o Inclusão Literária pelas estradas desta nossa terra, onde o Mato é Grosso, mas, sua gente é sensível e criativa como o foi LUIZ CARLOS RIBEIRO”

O ator e comunicador Vital Siqueira reconhece que “Luiz é ilustre brasileiro que nasceu em Santo Antônio de Leverger e já brilhava desde criança. Estudou, desenvolveu o dom que Deus lhe deu. Se lapidou nos trilhos árduo do mundo artístico. Deixou um rico legado e foi brilhar em outras “Ribaltas”. A sua passagem telúrica ficou marcada! Vá em PAZ AMIGO!”.

Entre tantos trabalhos de mão dupla, idas e vindas, o Homem do Barranco, o poema dramático de Carlos Roberto Ferreira, está entre eles. Os dois no palco em diálogo, quando do retorno de Carlinhos aos palcos e agora nos revela que “Luiz Carlos Ribeiro é o ator mais pantaneiro do Mar de Xaraés. Luiz Carlos Ribeiro deixa o cerrado, pra viver eternamente no mundo do Pantanal. Advogado, Ator, Dramaturgo, Contador de causos e histórias, filho do Morro de Santo Antônio de Leverger, Luiz Carlos nos aplaude em pé, diante da ÚLTIMA CENA. O teatro e a cultura mato-grossense estão em luto. Mas as águas do Pantanal estão mais claras e mais brilhantes com o seu mais novo Embaixador Pantaneiro”.

Meire Pedroso, colega de palco e amiga e irmã na tradição cuiabana: “Eu passei pela vida de Luiz Ribeiro encantada pelo seu jeito de fazer teatro e por suas narrativas míticas. Em ‘Goodbay meu boizinho’ de sua autoria, guiada por sua sabedoria, eu reencontrei minhas raízes e retomei meu lugar no palco do Teatro cuiabano. A trajetória de Luiz cruza com a história dessa cidade e de seres da arte que nela habitam. Aqui, ele construiu personagens usando a emoção e a razão, contando causos pra espantar o medo do coração em tempos sombrios. Espero que os gestores de cultura saibam reverenciar com grandeza a sua importância para a memória cultural dessa Cuiabá e do Estado. Agora, resta pra nós, aprendizes de sua arte, puxar o mocho e prosear sobre as outras trezentas histórias dessa terra que já existia muito antes de Paschoal, muito antes de Sutil. Bem assim, como ele ensinou. E lá se foi… Quem conta um conto, aumenta um ponto”.

Lucia Palma, a nossa Cacilda Becker, que atuou junto com Luiz Carlos Ribeiro na mítica “Rio Abaixo, Rio Acima”, e ultimamente nos “Crônicos”, uma trupe de arte e humor, idealizada pela poeta Marília Beatriz de Figueiredo Leite. Em nossa conversa por WhatsApp, Lucia Palma diz que agora fica “matunano” em querer saber “quem me irá trazer aquelas mangas Rosa perpitas, do seu quintal? Apanhadas a mão cor você, Luiz? Não mais as longas conversas telefônicas três vezes ao dia, trocando ideias de artes, lembrando outras que fizemos no transcurso dos nossos longos anos de amizade. O ouvidor das minhas histórias, as últimas sobre um velório que fui e ele se esbaldava de rir e repetia: escreve Lúcia, escreve! As brigas eternas sobre qualquer bobagem, ficamos de mal: ‘Belém-Belém, nunca mais fico de bem’, como duas eternas crianças brincando de viver. Foi um prazer enorme Luiz Carlos Ribeiro, compartilhar tantas histórias, tantas vidas com você! Inté”.

E Marília Beatriz recita: “Luiz Carlos Ribeiro, expoente de nossa arte/cultura, mão doce para a colheita e justa para os desatinos escuta: o que você deixa é legado que como ressaltou Professor Dorileo ‘é difícil de aqui garimpar’ A estrada que ficou com a febre urgente de ganhar o fato cultural com suas idas e vindas na cena ou nas aulas ministradas ou nos sonhos, deve ser a bandeira que será conduzida.  Mas chegou sua hora concedida para o silêncio e à beatitude. Sobe os degraus é empurra a porta. Daqui para frente não tem que esperar incentivo de nada, agora tudo será amplidão e contemplação da VIA LÁCTEA, AMADO PARCEIRO”.

O poeta Aclyse Mattos diz que ficou “muito triste com a perda do grande Luiz Carlos Ribeiro!” e ao mesmo tempo lembra do último encontro, em 7 de dezembro, num evento literário na terra natal de Luiz Carlos Ribeiro. “Quando estivemos em Santo Antônio ele contou com orgulho do início no Teatro naquele mesmo palco. E na abertura da exposição Manoel de Barros nos brindou com um show de poesia acompanhado pelo Pescuma. O Teatro e as Artes de Mato Grosso devem muito a ele!”

A professora de dança Maria Hercília Panosso: “A princípio nossos caminhos eram paralelos. Foi uma longa jornada para que me chamasse de “Diva Madrinha”, neste ano que se passou. Emocionada agradeci e você me respondeu: ‘pela sua generosidade Maria Hercília’. Luiz Carlos Ribeiro. Esta sua ausência tão inesperada pegou-nos de surpresa e levou-me a reflexão de que não ha espaço e tempo no coração de nós, artistas. Somos o que somos e o que representamos em cena ou pela vida afora. A peça tanto queria, com certeza ira acontecer agora. Grande homem! Grande Mestre! Grande Amigo. Te sinto ao meu lado e assim, permaneceras”.

Carlos Gattass, o Carlão dos Bonecos, conta que tinha recém chegado em Cuiabá, no início da década de 80, e estava hospedado num dormitório, por nome Iporã, que fica na região central. Nesse mesmo hotel também estava hospedado Amauri Tangará. Os dois não se conheciam, não se falavam, nem davam bom dia. Bem, nesse período, no Colégio Estadual Liceu Cuiabano, estava sendo encenada a peça “Rio Abaixo, Rio Acima”.  Carlão conta que foi até lá pra assistir ao teatro. Antes, porém passou no Bar do Sinfrônio, que ficava de fronte do colégio. Lá estavam dois jovens senhores conversando sobre teatro. Um deles era o hóspede da pensão Iporã e o outro era o protagonista da peça: Luiz Carlos Ribeiro. “Comecei no teatro pelas mãos de Amauri Tangará, ao mesmo tempo conheci LCR”, destaca.

O escritor e acadêmico Eduardo Mahon, além do pesar pelo passamento artista, já está em luta contra a segunda morte, a do esquecimento. “Morreu Luiz Carlos Ribeiro. Mas, aqui em Cuiabá, é possível que o nosso grande teatrólogo morra uma segunda vez. Ou ainda, cumprindo o vaticínio de Estevão de Mendonça, morra para sempre. É que Luiz Carlos legou literatura e teatro para seu Estado. Importa agora saber como vamos honrar a produção de um dos maiores dramaturgos de Mato Grosso. Será lido? Será encenado? Por essas e outras, quero relembrar nossa batalha de incluir no curriculum escolar da rede pública de ensino a literatura produzida por nossos autores. Somente assim, não perderemos Luiz Carlos e tantos outros artistas que viverão em nossos sonhos, ajudando essa nova e trôpega civilização tão carente da luz que emanam”.

Sandro Lucose nos conta a sua última com o colega de arte: “Luiz sempre foi um ator maduro que sempre gostei de ver em cena e de conversar. Tive o privilégio de contracenar com ele em no filme “Khora”, direção de Duflair Barradas, que ainda será lançado. Nesse filme Luiz interpreta brilhantemente um cidadão Cuiabano que fica desnorteado com a verticalização da capital mato-grossense e não sabe que o estádio do Verdão foi demolido. Luiz fez comigo uma cena que é um plano sequência de atropelamento. Nunca mais esquecerei deste dia de filmagem e o que é melhor será eternizado pelo cinema mato-grossense”.

O jornalista e produtor, Luiz Marchetti: Muito do que ha em Mato Grosso, nos teatros, filmes e textos, tem um pouco do respeito conquistado por ele. Desde guri, em Cuiabá, eu acompanho Luiz Carlos Ribeiro como referencia essencial nas nossas artes. Como filho da atriz Wanda Marchetti, cresci aplaudindo Luiz Carlos em pé. Tive a sorte de bate papos incríveis e a eterna gratidão de dirigi-lo nos mais diferentes formatos, apresentações teatrais, vídeos, performances e mais recentemente no filme BALA PERDIDA, da dupla NICO E LAU. Um HOMEM DE TEATRO que por onde andou, plantou confiança e crença no/s artista/s ao lado. Nesta sociedade onde migalhas são atiradas para a indústria criativa, muitos artistas acabam se especializando no engalfinhar, no desdenhar do próximo pra se manter respirando, LUIZ CARLOS RIBEIRO foi impecável, sendo agregador, apaziguador e criativo.

O compositor e cantor Pescuma, que trabalhou junto na abertura da exposição sobre Manuel de Barros, escreve em música “um poeta não morre. Já nasce imortal! Principalmente se recebe de Deus alma linda igual o Pantanal” e por fim confessa “Pude conviver com o amigo, irmão e mestre das artes Luiz Carlos Ribeiro na vida e nos palcos. Um exemplo de ser humano e de artista: Generoso, sábio, apaixonado pela cultura de nossa terra”.

O presidente da Academia Mato-grossense de Letras, Sebastião Carlos, em manifestação nas redes sociais diz que “Pode ser um lugar comum, mas não há como deixar de repeti-lo num instante de lamento. O passamento de Luiz Carlos Ribeiro causa um vácuo em nossa escassa história do teatro em Mato Grosso”.

Raimundo Henrique, técnico em turismo e de assuntos culturais, na Casa da Cultura, sob Therezinha Arruda, hoje morando no Piauí, diz que “são tantas as lembranças que no momento, quilômetros distantes, aqui no planeta terra, nesta noite de 12 de janeiro de 2018, fitando no espaço infinito uma estrela distante, brilhando, para ela aceno, digo: “sempre foste uma estrela, estavas desgarrado, felicidade amigo, nos ilumine como sempre ocorreu”.

Flávio Ferreira nos descreve, enfim, a Cena Final: “A GRANDE VIAGEM DE LUIZ CARLOS RIBEIRO – Luiz foi meu professor de teatro e de vida! Em rio abaixo, rio acima me apaixonei pela sua linguagem simples e bela. Com Luiz aprendi a dirigir, a escrever e a sonhar. Juntos escrevemos “Fica, Pedro!” Juntos sonhamos com um teatro rebelde, generoso e forte! Ficou um pouco do Luiz em mim e no Cena Onze. E Luiz pegou sua mala de fugir e viajou! Adeus amigo querido. Que o Mestre Jesus o acolha!”

(Texto modificado em 17/01/18)

 

Vai Luiz

Carlos Roberto Ferreira

Vai Luiz Carlos Ribeiro

Vai Dginho

Vai amigo-irmão-camarada de todas as horas

Atravesse as águas do Pantanal

Junte-se ao nosso Demiurgo Embaixador das Coisas do

Chão, Manoel de Barros

E gritem bem alto: que “o Pantanal não tem limites”!

Até logo, companheiro

Até então…

Adiante com o remo

Até mais tarde, talvez

Até um dia, quem sabe

Mas não teremos um ADEUS

Pois as cortinas do teatro, pra você, nunca estarão fechadas

Os aplausos serão e t e r n o s!

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João Bosquo

João Bosquo, poeta e jornalista, editor deste blogue NAMARRA.COM.BR
nas redes sociais: @joaobosquo

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2 Resultados

  1. Flávio Ferreira disse:

    Gratidão, Bosco, pela generosidade e pelo carinho!

  2. Meire Pedroso disse:

    Excelente registro sobre a partida de nosso amigo.Só uma correção Não participei do espetáculo “Rio abaixo,rio acima”