Tercetos na Lata ou “porta trecos poéticos” do Neneto estão à disposição do público

Neneto Sá, por João Bosquo

Neneto Sá, por João Bosquo

Por João Bosquo

Os tercetos de Neneto Sá estão na lata. Sim, na lata, na cara do leitor, como poderíamos entender os velhos cuiabanos de chapa e cruz. Ou simplesmente ‘porta trecos poéticos’ como explica o próprio poeta… Espera, Neneto Sá não se identifica como um poeta – “afinal, o que quer o poeta? Nem ele sabe. Mas, quem disse que ele quer saber de alguma coisa? Ele quer apenas escrever”, como questiona o escritor e jornalista Rodrigo Capella, em artigo aqui mesmo no DC Ilustrado.

Pois é, Neneto Sá se apresenta como ator e declamador performático, também é um agitador cultural e lá no finzinho se diz poeta. “Poeta é também quem gosta de poesia”, diz.

Como agitador, Neneto Sá é o criador do projeto “Poetas Livres”, que reunia os poetas nas praças cuiabanas e resultou numa antologia; realizando recitais nos quais divulga os poetas cuiabanos – com destaque, sempre para o grande Ronaldo de Castro, com o seu belíssimo poema em homenagem a Dunga Rodrigues.

Pois bem. Neneto Sá não para e agora, neste finzinho de 2016, o ano da crise, está com o mais um projeto: TERCETOS DO N. Poemas curtos, de três versos, daí a definição de tercetos e a denominação “DoEne”, N de Neneto, como o amigo leitor pode perceber.

Não são haicais, mas tercetos. Terceto que no Dicionário de Termos Literários, de Massaud Moisés é definido no termo ESTROFE e uma singela linha “_terceto, ou trístico, de três versos”.

São tercetos livres, ou seja, não tem métrica, ou rimas, mas uma, apenas uma regra. O último verso sempre começa com a letra N e tem como suporte a lata.

Essas latas de legumes, massa de tomate, de 300 ml, que antigamente serviam de canecas, canecas essas que até pouco tempo se vendia nas feiras de Cuiabá. Pois bem o suporte é esse, daí a utilização como “porta treco”, na qual a pessoa possa colocar lápis, lapiseiras, canetas, marca textos, enfim, trecos. Cabe até título de eleitor fora de uso, nesta temporada de protestos eleitorais.

A lata, enquanto suporte para os poemas, não é a mesma lata de Gilberto Gil, como na música “Metáfora”, como poderia se imaginar, mas não deixa de ser uma referência, sem dúvida, já que, como diz o próprio Gil, “Na lata do poeta tudo nada cabe/ Pois ao poeta cabe fazer/ Com que na lata venha caber/ O incabível”. Se cabe o ‘incabível’ cabe como suporte também para os poemas.

Neneto conta que a princípio pensou em fazer haicais – mas, as regras do haicai, vamos combinar, como aquela imposta pelo poeta Guilherme de Almeida, são poucos, chego a dizer raros os que conseguem fazer. Daí os haicais livres, que era a meta do poeta – voltamos ao velho e bom Gil – “Uma meta existe para ser um alvo”, mas o alvo de Neneto era dar voz à inspiração em versos curtos, e daí veio a definição após uma conversa com o professor Denis Handus, que esteve em Cuiabá, para uma oficina.

Neneto nos conta que sua preferência é pelos textos curtos – haicais, minis contos (falar em minis contos nas próximas edições terei oportunidade de falar do livro “Contos Comprimidos”, de Odair de Morais”) e poesias curtas. A lata foi um achado e que tem também o lado ambientalista, pois está reciclando as latas que deveriam ir para o lixo, ameaçar o tão ameaçado rio Cuiabá. Falar nisso, quem quiser doar latas, basta entrar com contato com o poeta pelo https://www.facebook.com/neneto.sa, que ele fará questão de buscar.

O poeta caminhando pelas ruas desta nossa Cuiabá, depara que:

“Lâmpadas brancas
Cobertas normalmente
Naturalmente espiam à noite”

Ou noutro terceto, numa referência ao poeta pernambucano Manuel Bandeira diz:

“Vou-m’embora
Desculpe a pressa
Na veia, sou poeta”

Ou definindo a amizade que não se compra, mas se guarda do lado do peito:

“Amizade
Quantos quilates?
Não tem pre$o”

Ou como numa homenagem a este velho e honrado DC

“Tomo eu chá
Lendo o Diário de Cuiabá
Na cadeira de balanço”.

Relembrando: Neneto, natural de Campo Grande (MS), veio com a família com sete anos e desde então é um cuiabano. Formado em Educação Física pela UFMT. Antes, porém, passou pelos bancos escolares da EE Leovergildo de Melo, exame de admissão e ginasial na Escola Industrial, até quando se transformou em Escola Técnica Federal e um ano no Liceu Cuiabano e Liceu Salesiano.

O ator se manifesta desde a infância, aos dez, onze anos, tendo como mestra a professora Dunga Rodrigues e aos 18 anos participa do Grupo Carrossel, que tinha a direção de Margarete Galdino Delgado, funcionária da Secretaria de Educação e Cultura, que praticamente mantinha o grupo. Neneto conta que quando da aposentadoria descobriu que o seu ‘cargo’ na secretaria é de Serviços Gerais, assim como o da maioria dos integrantes do grupo. Depois foi trabalhar como bancário, no Bemat onde ficou por 15 anos.

Participa de cursos de teatros, oficinas que aqui foram realizados. O primeiro nome, como todos os atores desse período fazem, a ser citado é o de Amir Haddad, ator, diretor e teatrólogo – que foi mestre de mais da metade dos atores mato-grossenses que se iniciaram nos anos 80 e seguintes. Trabalha com Camilo Ramos, que mantinha um grupo no Sesi; integrou o grupo Terra, participou da montagem do “Gudibai Meu Boizinho”, de Luiz Carlos Ribeiro.

E no início dos anos 2000, numa conversa com a cantora e compositora Zuleika Arruda (Grupo Sarã) veio a ideia de se fazer o Poetas Livres nas Praças e em 2005 pariu um livro “A primeira antologia dos Poetas Livres nas Praças Cuiabanas”.

Publicado originalmente no DC Ilustrado

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