UFMT: além e aquém de si mesma – Por Eduardo Mahon

UFMT: além e aquém de si mesma (E.M)Alguém se lembra que, todos os meses, a Faculdade de Economia da UFMT era…

Publicado por Eduardo Mahon em Domingo, 18 de março de 2018

Por Eduardo Mahon | Alguém se lembra que, todos os meses, a Faculdade de Economia da UFMT era consultada para explicar a variação inflacionária? Que, em todas as grandes obras do Estado, a Faculdade de Engenharia Civil da UFMT era consultada para dar parecer? Alguém se lembra que, em todos as grandes questões ambientais, as Faculdades de Engenharia Florestal e Biologia eram convidadas? Quem lembra que, a toda grande mudança legislativa, eram consultados os professores da Faculdade de Direito? Não foram poucas as vezes que vi, nos jornais, várias matérias ancoradas no conhecimento gerado pela UFMT que, aliás, transformou a cara de Mato Grosso, auxiliando no brutal desenvolvimento a partir da década de 70. Basta lembrar que muita gente foi obrigada a tomar um navio para ir estudar fora, onerando a família que poderia fazer esse gasto. No entanto, há muito tempo, talvez uns vinte anos, que ando preocupado. Mesmo que a UFMT também tenha crescido, duplicado, triplicado, quadruplicado o número de seus cursos, seus professores, alunos e campi, há pouca interação com a sociedade.

Lançamento de livros? É no bloco IPX-32, 3º andar. Palestra de filosofia? Fica no bloco GDK-59, 2º andar. Seminário de comunicação? Basta ir ao auditório do TCL-30 e descer dois pavimentos. Apresentação de tese de doutorado? Salinha FMP-81, lado esquerdo, no final do corredor. E aquela apresentação da professora do Rio Grande do Sul? Ainda não sabemos, mas tudo indica que será no CCBTJ-98, três lances de escada acima. Afinal, quem sabe o que a UFMT produz? O que se escreve? O que se gera de conhecimento? Garanto que pouca gente. A interação social entre a ciência de altíssima qualidade e a comunidade mato-grossense não é apenas um hiato, é um abismo. Aparelhos fundamentais são profundamente subutilizados, além das salas ociosas, do enorme contingente de alunos que se evade, da falência das áreas de convivência coletiva. Passar pela universidade à noite é um desafio, estacionar é um pesadelo. Todas as vezes que vou a um evento lá, recordo da música do Chico Buarque: “junto à minha rua, havia um bosque que o muro alto proibia”. O que aconteceu com o conceito inclusivo de Wlademir Dias-Pino no símbolo da UFMT? Onde está a UFMT além dela mesma? Está nas escolas? No mato? Nas plantações? Os alunos fazem dela um laboratório ou serão eles mesmos os ratinhos para experiências? Depois que pegam o título: o mestrado, o doutorado, o que fazem? Alguém faz o mapeamento disso na sociedade? Há programas para retorno/convívio dos egressos nos programas desenvolvidos?

Os estudos segmentados em grupos, grupinhos, grupelhos, são tão exclusivistas e pouco comunicativos que ninguém sabe a importância e, sobretudo, a aplicabilidade que podem gerar. O que aconteceu? Foi a UFMT que cresceu demais? Talvez tenha dado um passo maior que a perna. Foi o Estado que cresceu demais? Talvez tenha havido um desligamento da fonte de conhecimento científico. Foram as duas coisas? É um problema de comunicação entre aqueles que insistem na linguagem criptografada de um academicismo nobiliárquico? É a convivência com uma nova sociedade que só rumina a praticidade mastigada? Eu realmente não sei responder exatamente o que aconteceu e continua acontecendo. O fato é que a universidade tem uma TV e, nem assim, consegue se comunicar. Essa é a certeza que me resta: a maioria dos projetos desenvolvidos prescinde da fase de comunicação social, seja no começo, seja na apresentação dos resultados. Nós (aqui do mundo real, extramuros) nós que somos milhões de pessoas que reconhecem o quão significativa é a UFMT, não temos a menor ideia do que se passa lá dentro e do potencial que há para a formulação de parcerias, convênios, programas que auxiliem Mato Grosso. É por essas e outras que valorizo tanto ações culturais da Procev quando convida “gente de fora” para eventos, porque parece faltar “gente de dentro” que se prestigie mutuamente.

Falando em Mato Grosso, faz já algum tempo, olhei um convite para o lançamento de um trabalho interessante sobre o cisma papal de quase um século atrás e fiquei a me perguntar qual seria o público-alvo da publicação, do evento, do debate. É certo que o conhecimento científico não pode andar de cabresto com interesses regionalizados, mas não menos certo de que, em algum momento, o interesse de Mato Grosso deveria convergir com alguns estudos desenvolvidos na UFMT, sobretudo no que diz respeito aos desafios quotidianos: meio-ambiente, transportes, energia, engenharia, medicina, educação, cultura etc. A adesão da universidade ao Enem já retirou toda a possibilidade do alunado tomar conhecimento com a história, geografia e literatura mato-grossense – um dos maiores equívocos de uma universidade politicamente alinhada. Outras adesões nacionalizam, internacionalizam o debate, o que é ótimo para ampliar a perspectiva científica. Em termos numéricos, está tudo melhor do que no meu tempo de estudante: mais mestres, mais doutores, mais cursos. Parece que tudo aumentou, cresceu, fermentou na UFMT. Menos a sua influência. Por quê?

*Eduardo Mahon é formado pela UFMT.

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