Um Doce Marido – Um conto de Eduardo Mahon

UM DOCE DE MARIDO (E.M)Antônio Carlos sentiu a pele grudar-se ao lençol macio de tão novo. No início, maldisse a…

Publicado por Eduardo Mahon em Sábado, 27 de janeiro de 2018

Antônio Carlos sentiu a pele grudar-se ao lençol macio de tão novo. No início, maldisse a mulher que tinha mania de tomar sorvete na cama. Por ela, fariam as refeições no quarto, do café da manhã ao jantar. É romântico – justificava-se. Não para Antônio Carlos, no entanto. Do signo de capricórnio, o homem era um perfeccionista. Não suportava os bombons, biscoitos amanteigados e restos de sanduíches que competiam com os livros empilhados sobre o criado-mudo. Na convicção cartesiana do engenheiro, cama era lugar de dormir. No máximo, fazer amor e ler nas noites de insônia. Certo ou errado sobre a serventia do leito, enganou-se redondamente acerca da origem do grude que se pregou às costas. Ao levantar, acionou o abajur que montava guarda ao lado da cama. A investigação restou frustrada: a fina perícia empreendida por Antônio Carlos não constatou nódoa de sorvete, bolo ou iogurte. Em vez disso, jazia no seu lado da cama um delicado decalque do corpo, uma sombra adocicada dele mesmo. Até então, a mulher ignorava as suspeitas do marido. Virada para o outro lado, via-se dela apenas os cabelos castanhos que escondiam completamente o travesseiro magro sob a cabeça. No relógio, três e meia. E agora? – perguntou-se como se estivesse perguntando à esposa, uma das tantas manias de homem casado. Fosse por ela, trocariam de lençol, talvez toda a roupa de cama. Mas não. No meio da noite, a mulher estava flanando em dimensões que nunca alcançam os insones. Antônio Carlos decidiu tomar banho, muito embora soubesse que, sozinho, seria quase impossível a manobra dos braços curtos alcançar as costas do corpanzil obeso. Fez o que pôde: deixou que a água afogasse a substância viscosa e a levasse das costas até o pequeno ralo do box de vidro temperado. Depois de enxugar-se, Antônio Carlos apanhou outra toalha para forrar o local no qual o contorno dele mesmo havia deixado a borda grudenta. Horas depois, quem o acordou foi a mulher, preocupada com algo estranho que o marido transpirava. Acorda, Antônio Carlos! Tem algo errado contigo. Ele quis cobrar com juros e correção monetária todo o tempo de sono que havia gasto na madrugada, mas antes que pudesse reclamar, viu nos braços uma camada gelatinosa e brilhante de baba transparente que escorria pelos dedos das mãos. O mesmo visgo era secretado pelo restante do corpo que se melava na temperatura crescente da manhã ensolarada. O que você tem?! – ele ouviu da mulher a mesma pergunta que se fazia. Levantou-se, olhou a pele anfíbia no espelho do banheiro e, perdido na ausência de explicação razoável, meteu-se na ducha, dessa vez sob a supervisão atenta da mulher que já desconfiava que o marido havia saído no meio da noite. Magoada pela mudez de Antônio Carlos, cansou-se de esfregar as costas, pernas e o couro cabeludo do marido. É doce – ela comentou. Isso já sei. É como se eu houvesse mergulhado num tonel de xarope. Podia ser assim que ele se sentisse. Ocorre que, fosse mesmo xarope, sairia daquele banho livre de qualquer resquício melequento. Foi a mulher que percebeu não adiantar bucha e sabão. Além de não remover a gosma que continuava a minar pelos poros de Antônio Carlos, gastava o marido como se fosse ele uma bala de hortelã que vai afinando lentamente. Saia daí! – alertou ao perceber que Antônio Carlos se dissolvia em contato com a água. O que aconteceu com aquele homem, a medicina não conseguiu explicar e nós, tampouco. No entanto, após o diagnóstico inconclusivo sobre a doença desconhecida, a mulher aproveitou a oportunidade para envazar em pequenos frascos o xarope destilado por Antônio Carlos, coqueluche na sofisticada gastronomia experimental. Um doce de marido – era o que dizia no rótulo.

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