Um show que narra a história do Brasil em letras de canções e poemas que se juntam à dança neste espetáculo com as vozes de Roberto Boaventura, Sônia Moraes e Raul Fortes

Por João Bosquo | Acordes, Brasil! é um show… Melhor, mais que um show, é um espetáculo lítero-musical que irá falar enquanto tema da independência política do Brasil em relação a Portugal e terá no palco o professor, graduado em Letras, mestre em Letras e Linguística e doutro em Ciências da Comunicação (barra) Jornalismo, Roberto Boaventura da Silva Sá, que superado toda essa fase na carreira de professor agora resolveu iniciar a carreira de cantor e, pelo visto, cantar o Brasil. Ops, não podemos esquecer de dizer que Roberto Boaventura é também articulista deste Diário de Cuiabá, e que escreve artigos regularmente nos quais comenta Cuiabá, Mato Grosso, Brasil.

Em nosso bate-papo digital, o professor Robertinho, como é mais conhecido, avisa. “Não sei se você sabe, mas além de escrever e lecionar literatura, eu também ouso cantar. E agora resolvi juntar um pouco disso tudo em um show lítero-musical, que será realizado em 6 de setembro, às 20h”. Na véspera do feriado da Independência, um show independente com aquele que é sempre apontado como o intelectual mais independente em atuação no ambiente da UFMT. O tema do show é o Brasil. Falar do Brasil, como um país (in)dependente, no palco do Teatro Universitário (TU), que esperamos esteja lotado.

O professor de literatura está presente, não podia deixar de ser, a partir do título do espetáculo: “Acordes, Brasil!”, assim mesmo com exclamação. Segundo Roberto Boaventura, o título é linguisticamente dúbio. A primeira palavra desse título pode ser lida como se apresentasse – antes de tudo – a construção “que tu”, lembrando a 2ª pessoa do singular, do verbo “acordar”, no presente do subjuntivo: “que tu acordes…”. Ou o mesmo “acordes”, pode ser lido como substantivo e nos remete a qualquer conjunto harmônico de três ou mais notas, que se ouve como se estivessem soando simultaneamente.
“Por sua vez, o nome BRASIL – aqui, um tipo de metonímia de seu povo – configura-se em um vocativo: termo sintaticamente deslocado, que serve para invocar o receptor dos diálogos”.

Segundo o professor, agora cantor Roberto Boaventura, a partir do título “Acordes, Brasil!”, e lançando mão de diferentes linguagens (literatura, música, dança, fotografia e pintura), construiu-se um mosaico-narrativo para falar do nosso país.

“De setembro de 1822 ao setembro de hoje são exatos 195 anos. Daquele setembro mais distante até a Proclamação da República, tardiamente ocorrida em 1889, são mais 67 anos. Apenas um ano antes disso (1888) ocorrera a “Libertação dos Escravos”.

Não sei se vai ser falado, acredito que não, do último golpe. O da proclamação da República, que precisamos rever. A derrubada de Dom Pedro II pelos militares foi um golpe, com o povo apático sem entender o que acontecia. Daí – vamos combinar – vieram outros e outros golpes e o último foi o da derrubada da presidenta Dilma Rousseff, eleita por 54 milhões de brasileiros. Golpe que instalou em Brasília uma quadrilha – sim, quadrilha – para por fim ao projeto de construção de um estado socialmente justo e está sendo desmontado de forma acelerada e nós, povo, continuamos apáticos.

Voltemos ao cantor Roberto Boaventura.

“Começando agora a divulgar o “Acordes, Brasil!”, meu primeiro trabalho lítero-musical, as pessoas que me conhecem como professor universitário e articulista de opinião na mídia têm me feito algumas perguntas, como, por exemplo: por que resolvi cantar? Estaria eu pensando em ficar rico, fazer sucesso com essa nova atividade?”

À primeira pergunta responde o Robertinho, dizendo que canto “Porque cantar parece com não morrer/ É igual a não se esquecer/ Que a vida é que tem razão/ Porque cantar parece com não morrer/ É igual a não se esquecer/ Que a vida é que tem razão”.

E prossegue o professor: “Esses lindos versos são da música “Enquanto engomo a calça”, de Climério e Ednardo, dois poetas/filósofos cearenses da MPB.

Intuitivamente, penso que eu sabia disso desde muito cedo. E foi muito cedo que comecei a cantar, mais precisamente em Maringá-PR, no coral infantil de minha paróquia, de onde sempre fui solista. Ali, tive os aprendizados elementares sobre a arte do canto. Tínhamos aula de técnica vocal. Aprendi cedo que a voz que canta não é a voz que fala; que a voz precisa ser educada para o canto.”

Com tais aprendizados, Robertinho venceu alguns concursos infantis de música. Enquanto a família o levava, de quando em quando, à Rádio Cultura de Maringá para assistir aos programas de auditório. “Eu me encantava com tudo aquilo. Via a magia que os palcos têm”, confessa.

E para o palco deste “Acordes, Brasil!”, Roberto Boaventura convidou a cantora Sônia Moraes e o cantor Raul Fortes para estarem com ele. Os três apresentarão o repertório de 16 canções da MPB. Cada música, com sua abrangência, tematizará a vida brasileira, com suas dificuldades e felicidades. Também estarão no palco dois atores, Bia Corrêa e Maurício Ricardo, que irão declamar poemas de nossa literatura que dialogam com as músicas selecionadas. Para abrilhantar ainda mais os dançarinos, Fernanda Madeira e Rodinei Barbosa, darão os movimentos corpóreos que algumas músicas demandam.
A sustentação musical ficará por conta dos músicos Marinho Sete Cordas, Clau Simpatia, Mestre Xuxo, Tony Maia, Jânio Ribeiro e Odenil Fernandes, que compõe o Grupo Musical Clássicos do Popular, com o qual já vem afinando as interpretações animando bailes.

Enfim, o cantor Roberto Boaventura diz que o show “Acordes, Brasil!”, na essência, trata, artisticamente, de nossa história, ligada de forma umbilical às grandes navegações da entrada da Idade Moderna. Por isso, o primeiro diálogo que inseriu no roteiro é algo que vai de duas estrofes de “O Velho de Restelo” (Os Lusíadas de Camões) a uma linda música de Caetano Veloso.

“No mais, ajudam a compor o fio condutor dessa história, criticamente, cantada, os seguintes compositores e cantores: Herbert Vianna, Almir Sater, Mauro Duarte, Paulo César Pinheiro, Lenine, Chico Buarque, Garoto, Gonzaguinha, João Bosco, Aldir Blanc, Assis Valente, Luiz Bandeira, Ana Carolina e Tom Zé. Da literatura, além de Camões, teremos os poetas Cassiano Ricardo, Castro Alves, Orlando Tejo, Gilvan Chaves, Livardo Alves e a indispensável Elisa Lucinda.”

Ah, sim, antes que me esqueça, Roberto Boaventura diz que não está “atrás da fama com a música”, mesmo porque, “aos 56 anos, correr atrás disso seria tomar um cansaço desnecessário da vida. Tampouco vislumbro ganhar dinheiro cantando. Aprendi faz tempo que, no Brasil, as produções artísticas que priorizam a qualidade têm espaço e público restritos, infelizmente”.

De verdade, infelizmente.

SERVIÇO
Show: Acordes, Brasil!
Data: 6 de setembro, às 20 horas
Local: Teatro da UFMT
Ingressos: R$ 30 e R$ 15.

 

João Bosquo

João Bosquo, poeta e jornalista, editor deste blogue NAMARRA.COM.BR

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