Viva Silva Freire! – Por Cristina Campos

Este repórter e a escritora Cristina Campos

Por Cristina Campos | Neste 20.09, Benedito Sant’Ana da Silva Freire completaria 89 anos. De alma irrequieta, foi poeta, jornalista, advogado, sempre ativo na defesa da cultura cuiabana e de causas sociais. Apesar de bem conhecido pelos cuiabanos tradicionais, sua obra poética ainda se encontra em relativa obscuridade, talvez por ser considerada hermética – uma das razões é o uso/registro do dialeto cuiabano, aliado à erudição. No entanto, possui uma qualidade literária inegável, precisa vir à luz e ser devidamente apresentada aos mato-grossenses, porque revela a cultura da tradicional Baixada Cuiabana sob uma ótica singular, a da intimidade. Sem dúvida, Freire é nosso grande poeta-etnógrafo, a mostrar detalhes de uma saudosa Cuiabá e arredores – ele merece ser (re)conhecido, aqui e além-fronteiras.

A fim de divulgar a obra freiriana, sua família, com o apoio de amigos, criou a Casa Silva Freire e também o Setembro Freire, evento bienal que homenageia o escritor com oficinas, palestras e apresentações, além de editar catálogos com seus poemas e textos de críticos especialistas em Literatura e Arte.

De autoria do poeta, já foram publicados: Silva Freire – Social, Criativo, Didático (UFMT, 1986); Barroco Branco (Fundação Cultural de Mato Grosso/Ed. Amazônida, 1989); Depois da Lição de Abstração (Separata da Revista da Academia Mato-grossense de Letras, 1985); Trilogia Cuiabana, volumes 1 e 2, organizada por Wlademir Dias Pino, (UFMT, 1991); 12 Cadernos de Cultura, em páginas avulsas; Águas de Visitação (1979), reeditado em 1980 (Edições do Meio); 1989 (Adufmat-UFMT); e 2002 (Lei Estadual de Incentivo à Cultura). Postumamente, foi publicado o livro A japa e outros croni-contos cuiabanos (Carlini & Caniato, 2008). Uma boa parte desta obra já se encontra esgotada e ainda há muita coisa inédita a ser publicada.

Os 12 Cadernos de Cultura foram impressos em folhas avulsas, como folders, a partir do início dos anos 1960. É muito difícil acessá-los, pois a maioria já se perdeu. No labor da pesquisa, ganhei alguns de presente, emprestei outros e consegui reunir e digitalizar 10 deles (faltam apenas o 10 e o 12 para completar o registro).

Ainda nesta semana, no hiperlink da Academia Mato-grossense de Letras sobre o Intensivismo – movimento literário de vanguarda internacional, gestado em Mato Grosso no fim dos anos 1940 e do qual Freire participou ativamente –, serão postados os 10 Cadernos de Cultura e a biografia do poeta, em homenagem ao querido aniversariante, cuja obra traz algo como o cheiro do peixe pescado no rio Cuiabá; a sensualidade do gesto da ceramista que amassa o barro, produzindo gamelas e artefatos; o sonho de uma Universidade da Selva; a dura lida do pantaneiro com o gado; e inúmeras imagens do cotidiano da Cuiabania das antigas, eternizadas pela magia da palavra poética.

Vale a pena conhecer a obra de Silva Freire. Vale a pena publicá-la e inseri-la nas escolas de Mato Grosso. Afinal, sem conhecer o passado, quais serão as perspectivas de futuro das novas gerações?

Que viva Freire! Que viva a Literatura produzida em Mato Grosso!

 

Cristina Campos é membro da Academia Mato-grossense de Letras

 

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